quinta-feira, 6 de março de 2014

Homilia do 1º. Domingo da Quaresma – Ano A

“O Senhor formou o homem do pó da terra...” (Gn 2,7). Esta afirmação nos remete a uma das exortações prescritas para a distribuição das cinzas: “Lembra-te que é pó, e ao pó voltarás”. De fato, somos pós, terra, fragilidade. O ser humano vive do sopro divino, mas não perde a sua fragilidade, e Deus sabe de que barro somos feitos. A Quaresma é uma oportunidade para nos lembrarmos de nossa condição, deixando de lado o orgulho autossuficiente, faz-nos conscientes de que a tentação pode nos fazer sucumbir.

O deserto é um lugar teológico de profundo significado. Não se trata de um espaço geográfico, mas de uma experiência espiritual de solidão e silêncio. Somente quando nos afastamos dos ruídos, da agenda atribulada, das superficialidades da vida e até mesmo das pessoas, por algum tempo, poderemos olhar para o profundo de nosso coração. Lá não encontraremos apenas bondade, mas muitas necessidades não satisfeitas, ambições desordenadas, seguranças falsas. É importante deixar-se conduzir ao deserto para perceber quais são as vozes que gritam dentro de nós. Um pouco da ausência das ilusões desta vida nos ajudam a perceber o quanto elas nos fazem falta. A experiência do deserto descrita no Evangelho é uma luta contra as tentações. É necessário que o demônio se mostre, que o mal se faça emergir para que saibamos contra o que lutamos. 

Mesmo Jesus, o Filho de Deus, foi tentado a sucumbir, foi tentado a deixar o seu projeto em prol do Reino e da salvação para abraçar seguranças do prazer, do ter, do poder. Tais tentações acompanharam Jesus durante toda a sua vida, e acompanham também a nossa vida. Todos nós desejamos sempre substituir Deus por coisas, situações e pessoas. Queremos ser tão donos e controladores de nossas vidas, de modo a não admitirmos que algo possa atrapalhar cada passo imaginado em busca da autossatisfação. Mas a vida não é assim... A vida é um mistério que de desvela, e somente pode ser compreendido à luz de Deus que não nos deixa ao largo do caminho...

As tentações são bem localizadas na cena do Evangelho: o prazer, o ter e o poder:

a) “Se és filho de Deus, manda que estas pedras se mudem em pão”. É a tentação de buscar ser saciado a todo custo. Hoje temos um cardápio de possibilidades para nos saciar: restaurantes, lazeres, compras, programas televisivos. Podem facilmente nos colocar na condição da futilidade, de uma vida sem projeto, inundada no prazer momentâneo das coisas que nos ocupam o tempo, enquanto não estamos trabalhando. É importante ter o necessário, o pão de cada dia, mas não o excesso dos prazeres. O pior é pensar que os prazeres são essenciais para que a vida possa seguir o seu curso. O extremo é deixar de lado o que nos preenche verdadeiramente: o pão da Palavra e o Pão da Eucaristia. Nada pode ocupar o lugar de Deus em nossa vida: “Não só de pão vive o homem”. 

b) “Eu te darei todo este poder e toda a sua glória...” O diabo é o doador dos bens, mas pede adoração. É fácil nos curvarmos diante dos bens deste mundo, pois estamos na sociedade do consumo. A cada instante, os comerciais nos dizem que adquirir determinado produto vai nos fazer mais felizes. Mas a felicidade jamais está no possuir. O apego aos bens deste mundo são ilusões, fazem-nos desviar do sentido verdadeiro da existência, fazem-nos não confiar em Deus - o verdadeiro tesouro. Precisamos viver com liberdade diante dos bens, partilhando e despojando-nos do que atrapalha.

c) “Se és filho de Deus, atira-te daqui para baixo”. É a tentação de se usar o poder para o exibicionismo, em benefício próprio... Também queremos o prestígio, o reconhecimento, a fama... O poder é mais destrutivo do que o próprio dinheiro e acúmulo de bens. Somos tentados a fazer mal uso do poder para nos contentar em nosso desejo de ter autoridade. Queremos, também, ter o controle mágico sobre a vida, o controle total sobre o presente e o futuro. Mas a vida segue com suas surpresas. A confiança em Deus faz-nos encontrar nas surpresas, o Espírito.

Pe. Roberto Nentwig



Um comentário:

  1. "poder é mais destrutivo do que o próprio dinheiro e acúmulo de bens. Somos tentados a fazer mal uso do poder para nos contentar em nosso desejo de ter autoridade."
    só este texto já dá para refletir muito. obrigada por iluminar meu dia

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