quarta-feira, 9 de outubro de 2013

EVITAR EXAGEROS NA LEITURA BÍBLICA (I)

Frei Gilberto Siqueira Alves, OFMCap.©

A Bíblia é a “Carta” de amor por excelência que Deus manifestou para a humanidade. Foi escrita por muitos autores que partiram da mesma fé, ou seja, muitas experiências bem peculiares relatadas em cada conjunto de livros: Pentateuco, Livros Históricos, Livros Sapienciais, Livros Proféticos, Evangelhos, Atos dos Apóstolos, Cartas Paulinas, Epístolas Católicas e o Livro do Apocalipse. Temos aí o conjunto do Primeiro e Segundo Testamento. São situações permeadas e registradas à luz do Espírito Santo. Ao ser conservada a história do povo de Deus para nossos dias percebemos que também nós somos chamados à superação de tantas dificuldades que enfrentamos em nosso cotidiano. Mesmo que sejam muitas as provações Deus caminha conosco. Isso é fato! A Revelação de Deus à humanidade foi transmitida e registrada na Bíblia em dois estágios diferentes e complementares: Tradição oral e escrita. Tais experiências salvíficas não eram para ficar em um único período da história. Quando meditamos a Palavra de Deus nos transportamos para a situação vivida pela comunidade e nos indagamos acerca da mensagem que anima e estimula as pessoas. Rezar com a Bíblia é um dos presentes que devemos dar ao nosso coração. Como já dizia Santo Agostinho: “Vós o incitais a que se deleite nos vossos louvores, porque nos criastes para Vós e o nosso coração vive inquieto, enquanto não repousa em Vós”.[1] É claro que esse processo de memória e escrita foi realizado na parceria de Deus com a humanidade. Por isso que chamamos história da salvação, dirigida a todos nós seus filhos e filhas, muitas vezes ingratos e insensíveis.
A prudente mediação divina nos orienta: quando lemos algo devemos estabelecer critérios para um melhor desempenho e assimilação do que nos é fornecido no texto e sua aplicação na nossa história. No campo religioso é de bom tom atitudes de oração, ruminação e assimilação das inquietações propostas no texto sagrado, sempre guardadas as devidas proporções. A partir dessas perspectivas vemos que quando a Palavra de Deus vem ao nosso encontro não cabe a nós guardá-la, mas socializar as benesses advindas de tão providencial gesto amoroso de Deus que nos quer cônscios de sua vontade e plenos de seu amor. Estamos situados em uma determinada comunidade de fé. Para facilitar elencamos algumas modalidades de leituras a serem evitadas para não tirarmos a originalidade do texto sagrado, com suas respectivas intuições existenciais e pastorais para os dias de hoje.

1   Leitura Fundamentalista: o texto genuinamente como se apresenta, literal
§  Só na Bíblia existe a ação única de Deus e pronto
§     Só nela existe o conjunto de verdades sobre Deus
§  De cunho anti-histórico, ou seja, tomado ao pé da letra sem a situação atual do seu contexto. Quando se fecha aos sinais de Deus no cotidiano. Se mostra anti-ecumênica
·           Atitudes: alimenta o autoritarismo, cria clima sectário, fechamento e intolerância religiosa: Mt 12,46-50; Mt 13,53-58.



2   Leitura Doutrinarista: o texto usado para justificar normas religiosas
Ø  Busca de doutrinas religiosas que eu preciso saber para me salvar
Ø  Imagem de Deus racional, regulador, alguém impositivo
Ø  Exacerbada preocupação em saber o que é a doutrina
Ø  Primeiramente a “doutrina” e depois a vida humana
·        Atitudes: a Bíblia se torna elemento de salvação de um grupo apenas, zelo exagerado pelas normas religiosas, esse tipo de mentalidade pode gerar hipocrisia e de certeza única: Lc 6,1-5; Jo 8,57-59; (Jo 10,22-39).
3   Leitura Moralista: o texto para fins de julgamentos externos
*      Visão reducionista da realidade: boa ou má
*      A Bíblia como manual de conduta religiosa que todos os cristãos devem observar para não se condenarem
·        Atitudes: a imagem de Deus é como alguém: rígido, castigador, fiscal. Condenar / salvar. Isso gera deturpação dos valores: Lc 5,27-32; Mt 9,9-13; (Mc 3,1-5).

4   Leitura Intimista: o texto exclusivamente à luz de minha experiência “mística”
v  Prevalecimento exagerado do sentimento pessoal
v  Vontade direcionada através do sentimentalismo sem senso de razoabilidade
·         Atitudes: minha imagem de Deus é triunfalista, light, sou o centro do amor de Deus, visão única e pessoal de Deus. “Ele me revelou...” Mt 17,4.

5 Leitura Academicista: Justificar conhecimento intelectual ou defender racionalmente um ou vários pontos de vista que me agrada
·                               A Bíblia como fonte de conhecimento intelectual apenas
·                               Racionalização do religioso em detrimento do espiritual
·                               Tirar dúvidas e satisfazer curiosidade intelectual para justificar algo
·        Atitudes: limites sérios para atualizar a Palavra de Deus, Bíblia como elemento prático, objetivo, mentalidade subjetiva ou conceitual da realidade: Mt 11,25-26.



PERGUNTAS PARA MEDITAÇÃO PESSOAL:

Minhas leituras bíblicas são condicionadas por alguma dessas maneiras?
A meditação nos faz colocar a caminho do que Deus pede de nós. Conseguimos fazer essa meditação diária?




©Pós-graduando em Pedagogia Catequética pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e Vigário Paroquial da Paróquia São Benedito em Teresina- PI.




[1] AGOSTINHO, Santo. Confissões. São Paulo: Nova Cultura Ltda, 1999, p. 37. (Coleção os Pensadores).

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