sábado, 26 de outubro de 2013

VIII Sulão - O protagonismo do catequista no mundo e na Igreja de hoje


*  Por Dom Geremias Steinmetz
Bispo Diocesano de Paranavaí - PR



INTRODUÇÃO: Inicio externando o meu agradecimento por este honroso convite que chegou até mim pela Coordenação da Catequese do Regional Sul II. Não sei exatamente porque convidaram a mim para este trabalho, porém estou feliz com a proposta. Trabalhei bastante entre leituras, reflexões, conversas e sínteses para oferecer algo a vocês. Espero que esteja a contento.Trago comigo um conceito muito amplo de catequese, não apenas a catequese de crianças, mas a catequese de todos os cristãos. Algumas coisas que direi deverão ser entendidas na dimensão da catequese de todos os cristãos e outras, certamente no conceito de catequese das crianças. Em alguns pontos que procurarei lembrar devidamente, acrescentarei um ou outro elemento que parece importante para a compreensão geral do tema.

Diretório Geral da Catequese – 1997 – Aqui é necessário lembrar toda a história da catequese narrada na primeira parte do Diretório Geral da Catequese que começa pelos grandes Movimentos que tem como auge o Concílio Vaticano II (Bíblico, Teológico, Litúrgico, Pedagógico, Histórico, etc.). Lembra dos trabalhos e documentos do próprio concílio com suas novas perspectivas pastorais. Como esquecer na catequese a Lumen Gentium, a Gaudium et Spes, a Sacrosanctum Concilium, a Dei Verbum, a Apostolicam Actuositatem? Também não podemos esquecer as Instruções para colocar em prática as orientações conciliares nas mais diferentes áreas.

Até que em 1971 foi publicado o primeiro Diretório Geral da Catequese. Mas, após a publicação do DGC, a catequese muito se beneficiou com novos incentivos. Assim foi muito significativo o impulso dado à catequese de adultos pela publicação do Ritual da Iniciação Cristã de Adultos (1972), e à catequese em geral pelo Sínodo sobre Evangelização (1974) e decorrente Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi (1975), de Paulo VI. E neste caso a guinada foi realmente significativa, porque como para toda a missão da Igreja, Evangelii Nuntiandi representou uma forte mudança. A partir deste documento a catequese foi oficialmente inserida dentro do âmbito da missão evangelizadora da Igreja, ou seja a catequese, que já vivia na dinâmica da teologia kerigmática, passou a ser considerada pela instância maior da Igreja, no caso Paulo VI e em escuta a um Sínodo, como parte integrante das urgências e preocupações específicas do mandato missionário para os nossos tempos (cf. DGC de 97 item 4).

Quando trata daquele "diálogo pastoral", para guiar os catequizandos na estrada do Evangelho, encorajar seus esforços, levantar os caídos, assisti-los com discrição e disponibilidade (EN 46). Evangelizar é, em primeiro lugar, dar testemunho, de maneira simples e direta, de Deus revelado por Jesus Cristo, no Espírito Santo. Evangelizar é anunciar a libertação daquelas pessoas que estão à margem da vida. Uma libertação integral, profunda, como anunciou e realizou Jesus. Libertação de tudo que oprime o homem. Libertação que nos leva, com a energia da caridade, à comunhão, cujo cume e plenitude encontramos no Senhor. Libertação que, dentro da missão própria da Igreja, não pode reduzir-se a simples e estreita dimensão econômica, política, social ou cultural, mas deve ter em vista o homem todo, integralmente, com todas as suas dimensões, incluindo a sua abertura para o absoluto, mesmo o absoluto de Deus; ela anda, portanto coligada a uma determinada concepção do homem, a uma antropologia que jamais se pode sacrificar às exigências de uma estratégia qualquer, de uma práxis ou de um êxito à curto prazo.

Logo em seguida, em 1977, aconteceu o Sínodo sobre Catequese, do qual brotou a Exortação Apostólica Catechesi Tradendae (A Catequese Hoje), de João Paulo II (1979), em plena coerência com as orientações de Evangelii Nuntiandi. A Catechesi Tradendae fala de algo muito central para a catequese hoje, como vimos acima: “Cristo ensina com toda a sua vida ( ...) toda a vida de Cristo foi um ensinar contínuo: os seus silêncios, os seus milagres, os seus gestos, a sua oração, o seu amor pelo homem, a sua predileção pelos pequeninos e pelos pobres, a aceitação do sacrifício total na cruz pela redenção do mundo e a sua ressurreição, são o atuar-se da sua palavra e o realizar-se da sua revelação. De modo que, para os cristãos, o Crucifixo é uma das imagens mais sublimes e mais populares do Jesus que ensina. ....é somente em profunda comunhão com Ele que os catequistas encontrarão luz e força para uma desejável renovação autêntica da catequese (CT, 9). Este elemento dá grande força para todo o trabalho com a Palavra de Deus na catequese, especialmente a oração com a Palavra, a Lectio Divina, etc. Os gestos, palavras, comportamentos de Jesus falam muito ao homem de hoje.

O PAPA JOÃO PAULO II

Mas, além disso, sem dúvida alguma, todo o mandato do Papa João Paulo II, tem sido de extraordinária riqueza para a renovação da catequese, especialmente suas Encíclicas. Em destaque, por exemplo, Jesus Cristo na Redemptor Hominis (1979), Deus Pai na Dives in Misericordia (1980), o Espírito Santo na Dominum et Vivificantem (1986), Maria a Mãe de Deus na Redemptoris Mater (1987), a tarefa missionária da Igreja na Redemptoris Missio (1989), a justiça social na Solicitudo Rei Socialis (1990) e na Centesimus Annus (1993), o ecumenismo na Ut Unum Sint (1996), etc. São muito importantes também as Exortações Apostólicas referentes aos Sínodos, sobretudo sobre a Família como Familiaris Consortio (1981), a vocação e a missão dos Leigos e Leigas na Chistifideles Laici (1989). E não podemos esquecer o impulso do chamado à Nova Evangelização (1983, Haiti) e finalmente o Projeto de preparação ao Grande Jubileu do Ano 2.000, lançado em fins de 1994 com a Tertio Milllennio Adveniente (O Advento do Terceiro Milênio), em si um imenso programa, concreto e pormenorizado de evangelização e catequese.

Não é possível esquecer a importância da Novo Millennio Ineunte (2001). No número 1 o Papa João Pulo II dizia: “No início do novo milênio quando se encerra o Grande Jubileu, em que celebramos os dois mil anos do nascimento de Jesus, e um novo percurso de estrada se abre para a Igreja, ressoam no nosso coração as palavras com que um dia Jesus, depois de ter falado às multidões a partir da barca de Simão, convidou o Apóstolo a « fazer-se ao largo » para a pesca: « Duc in altum » (Lc 5,4). Pedro e os primeiros companheiros confiaram na palavra de Cristo e lançaram as redes. « Assim fizeram e apanharam uma grande quantidade de peixe » (Lc 5,6). Duc in altum! Estas palavras ressoam hoje aos nossos ouvidos, convidando-nos a lembrar com gratidão o passado, a viver com paixão o presente, abrir-se com confiança ao futuro: « Jesus Cristo é o mesmo, ontem, hoje e sempre » (Heb 13, 8)”. Além disso, nos convidava a contemplar o Rosto de Cristo, rosto doloroso, rosto crucificado, rosto ressuscitado. E lançava a expressão para vencer o cansaço e a apatia dos crentes: Partir de Cristo!!!! Procurar a santidade, etc... Que grande contribuição para a catequese!

É muito bom lembrar da Carta apostólica Mane Nobiscum Domine, de 2004. Com ela João Paulo II anunciava o ano da Eucaristia (outubro de 2004 a outubro de 2005). A reflexão sobre o episódio dos Discípulos de Emaús, tão caro à catequese, convidava a olhar para Cristo e com Maria contemplar o Rosto de Cristo!

Outra Carta Apostólica à qual muitos dão pouca importância é a Rosarium Virginis Mariae (2002). Ela trata do rosário, mas procura dar a ele uma dimensão mais cristológica que mariológica. Diz textualmente: “O baricentro da Ave Maria, uma espécie de charneira entre a primeira parte e a segunda, é o nome de Jesus. Às vezes, na recitação precipitada, perde-se tal baricentro e, com ele, também a ligação ao mistério de Jesus que se está a contemplar. Ora, é precisamente pela acentuação dada ao nome de Jesus e ao seu mistério que se caracteriza a recitação expressiva e frutuosa do Rosário” (RVM,33). Nesta mesma linha de centralidade cristológica a Dies Domini, sobre a santificação do domingo (1998). Ela apresenta o domingo com cinco argumentos fortes para o diálogo com a sociedade: Argumento vetero- testamentário (Dies Domini – dia da Criação); Argumento Cristológico (Dies Christi – Senhor Ressuscitado); Argumento Eclesiológico (Dies Ecclesiae – Assembléia Eucarística, alma do domingo); Argumento Antropológico (Dies Hominis – dia da alegria, repouso e solidariedade) e Argumento Escatológico ( Dies Dierum – Festa primordial, reveladora do sentido do tempo). Esta forma de ver o domingo aumenta sensivelmente a possibilidade de diálogo com os catecúmenos ou catequizandos.

Como esquecer da bela Ecclesia de Eucharistia (2003). Esta verdade que não exprime apenas uma experiência diária de fé, mas contém em síntese o próprio núcleo do mistério da Igreja (n.1). Diz o próprio Papa João Paulo II: É este « enlevo » eucarístico que desejo despertar com esta carta encíclica, que dá continuidade à herança jubilar que quis entregar à Igreja com a carta apostólica Novo millennio ineunte e o seu coroamento mariano – a carta apostólica Rosarium Virginis Mariæ. Contemplar o rosto de Cristo e contemplá-lo com Maria é o « programa » que propus à Igreja na aurora do terceiro milênio, convidando-a a fazer-se ao largo no mar da história lançando-se com entusiasmo na nova evangelização. Contemplar Cristo implica saber reconhecê-Lo onde quer que Ele Se manifeste, com as suas diversas presenças mas sobretudo no sacramento vivo do seu corpo e do seu sangue. A Igreja vive de Jesus eucarístico, por Ele é nutrida, por Ele é iluminada. A Eucaristia é mistério de fé e, ao mesmo tempo, « mistério de luz ». Sempre que a Igreja a celebra, os fiéis podem de certo modo reviver a experiência dos dois discípulos de Emaús: « Abriram-se-lhes os olhos e reconheceram-No » (Lc 24, 31). Quantas maravilhas podemos encontrar em João Paulo II para a dinamização e o realismo da catequese. Lembremos ainda da Exortação Pós – Sinodal Sacramentum Caritatis, sobre a Eucaristia, fonte e ápice da vida e da missão da Igreja do Papa Bento XVI (2007).

O PAPA BENTO XVI

Para os nossos dias é importante lembrar da grande contribuição do Papa Bento XVI. Em primeiro lugar a forte presença da Exortação Pós-Sinodal Verbum Domini sobre a Palavra de Deus na vida e na missão da Igreja (2010). É o resultado do Sínodo dos Bispos de 05 a 26 de outubro de 2008. Quanto impulso deu para práticas catequéticas a partir da Palavra de Deus, sem falar dos muitos esclarecimentos para a continuidade dos estudos e trabalhos pastorais. Veio para ser um complemento e uma continuidade da grande Constituição Conciliar Dei Verbum. As três encíclicas sobre a Caridade cristã, a Esperança cristã e a Fé cristã, respectivamente, Deus Caritas Est (2005), Spe Salvi (2007) e Lumen Fidei (2013), escrita a quatro mãos com o sucessor Papa Francisco.

A encíclica Deus Charitas est está composta de duas partes. A primeira, intitulada “A unidade do amor na criação e na história da salvação”, apresenta uma reflexão teológico-filosófica sobre o “amor” em suas diversas dimensões – “eros”, “philía”, “ágape” – precisando alguns dados essenciais sobre o amor de Deus pelo ser humano e a relação intrínseca que esse amor tem com o amor humano. A segunda, chamada “Caritas: o exercício do amor por parte da Igreja como ‘comunidade de amor’”, trata do exercício concreto do mandamento do amor ao próximo. Na Spe Salvi Bento XVI fala abertamente das realidades eternas e do autêntico fundamento da esperança cristã: o encontro com o Deus vivo que vem a nós em Cristo Jesus e nos promete a vida em plenitude em seu Reino. Na Lumen Fidei a finalidade do documento é recuperar o caráter de luz que é específico da fé, capaz de iluminar toda a existência humana. Quem acredita nunca está sozinho, porque a fé é um bem comum que ajuda a edificar as nossas sociedades, dando esperança. Este é o coração da Lumen fidei. Numa época como a nossa, a moderna - escreve o Papa - em que o acreditar se opõe ao pesquisar e a fé é vista como um salto no vazio que impede a liberdade do homem é importante ter fé e confiar, com humildade e coragem, ao amor misericordioso de Deus, que endireita as distorções da nossa história. Por fim com a Porta Fidei (2011) o Papa Bento anuncia o Ano da Fé, de 11de outubro de 2012 a 24 de novembro de 2013. O grande apelo é a confessar a fé plenamente e com renovada convicção, celebrar a fé e dar testemunho dela para que cresça a credibilidade. Fé professada, celebrada, vivida e rezada.

ALGUNS ELEMENTOS DA CATEQUESE NO BRASIL

No caso do Brasil, tivemos antes do Concílio a grande liderança do Pe. Álvaro Negromonte com seus livros, cursos e congressos, e da Ação Católica, com seu método VER, JULGAR e AGIR e sua Revista de Catequese. Logo depois do Concílio, a liderança esteve com os ISPACs (Institutos de Pastoral Catequética), criado no Brasil por ex-alunos do ISPC de Paris. E também tiveram muita importância para a Catequese, entre nós, tanto a Semana Internacional da Catequese, em Medellín, em 1968, como a Segunda Conferência Episcopal Latino-americana, também em Medellín, no mesmo ano. A renovação da catequese teve também um bom apoio de alguns autores de textos catequéticos, amplamente adotados por sua qualidade de conteúdo e metodologia e de algumas Escolas de Catequese, que aos poucos foram substituindo os ISPACs.

Logo depois da publicação de Catechesi Tradendae (1979), a CNBB decidiu, em Assembléia Geral, elaborar uma espécie de Diretório de Catequese para o Brasil. O texto foi aprovado, por unanimidade na Assembléia Geral de maio de 1983, com o título Catequese Renovada, Orientações e Conteúdo (Doc. da CNBB, n. 26). Dele celebramos 30 anos. “A Catequese é um processo de educação comunitária, permanente, progressiva, ordenada, orgânica e sistemática da fé. Sua finalidade é a maturidade da Fé” (CR, n. 31). Lembro sempre com maior carinho da indicação dos temas fundamentais para a formação dos catequistas: a verdade sobre Jesus Cristo, verdade sobre a Igreja e verdade sobre o homem; Os Princípios para uma Catequese Renovada; A comunidade catequizadora. “Estamos crescendo de forma admirável na proposta de uma catequese de inspiração catecumenal à serviço da Iniciação à vida Cristã. Os sinais são visíveis em toda parte. E nesse processo percebemos a importância fundamental da liturgia como celebração da fé suscitada pela catequese. O despertar primeiro dessa nova consciência é fruto da CATEQUESE RENOVADA. Muito mais que um documento trata-se de um grande espírito de renovação, não só na catequese, como de toda a ação evangelizadora da Igreja. Catequese Renovada propôs novas metodologias, novo dinamismo e um renovado ardor missionário. Abriu caminho para o processo de Iniciação à vida cristã com inspiração catecumenal e para a animação Bíblica da vida e da pastoral” (Palavras da celebração sugerida para o Dia do Catequista – 2013).

A partir dali aconteceu, sob liderança do Setor de Catequese da CNBB, tendo à frente D. Albano Cavallin, Irmão Israel José Nery, FSC, e Frei Bernardo Cansi, OFMcap, um verdadeiro mutirão nacional para operacionalizar o documento nas bases, tendo como momento alto do processo a realização da Primeira Semana Brasileira de Catequese em 1986, com a grande mobilização nacional que a precedeu.

Em 1985, o Sínodo Extraordinário, de avaliação e celebração dos 20 anos do encerramento do Concílio Vaticano II, solicitou ao Papa a redação de um Catecismo Universal, em substituição ao do Concílio de Trento, de 1536. Mas, desde a publicação do Catecismo da Igreja Católica, (CaIC), em 1992, a Congregação para o Clero, consciente da necessidade de uma revisão do Diretório Catequético Geral de 1971 (DCG), iniciou o trabalho que tendo ficado pronto e coincidindo com a edição típica, foi lançado juntamente com o Catecismo num Congresso Internacional de Catequese, em Roma, de 17 a 21 de outubro de 1997, organizado e coordenado para este objetivo, conjuntamente pela Congregação da Doutrina da Fé e pela Congregação para o Clero. O novo Diretório, baseado no anterior, recebe o título de Diretório Geral para a Catequese (DGC). (http://blogueirosemcatequese.blogspot.com.br/2010/07/diretorio-geral-para-catequese-resumo.html acessado em 18 de setembro de 2013).

O DIRETÓRIO NACIONAL DA CATEQUESE

No ano de 2005 foi aprovado o Diretório Nacional da Catequese pela 43ª Assembleia Geral da CNBB e aprovado pela Congregação para o Clero em setembro de 2006. Todos aqui conhecem, com certeza, o DNC, mas para o trabalho que me foi proposto preciso citar alguns desafios após Catequese Renovada explicitados pelo Diretório Nacional de Catequese, n.14.

Ele celebra as conquistas do Documento Catequese Renovada, mas continua elencando enormes desafios que continuamos enfrentando, cito alguns:

a- criar maior unidade na pastoral catequética, organizando melhor a catequese nos diversos níveis (regional, diocesano, paroquial) e pondo em prática as orientações que já existem;

b- formar catequistas como comunicadores de experiências de fé, comprometidos com o Senhor e sua igreja, com uma linguagem inculturada que seja fiel à mensagem do Evangelho e compreensível, mobilizadora e relevante para as pessoas do mundo de hoje, na realidade pós-moderna, urbana e plural;

c- fazer da Bíblia realmente o texto principal da catequese;
- fazer com que o princípio de interação fé e vida seja assumido na atividade catequética de modo que o conteúdo responda aos desafios do mundo atual;

e- assumir o processo catecumenal como modelo de toda a catequese e, conseqüentemente, intensificar o uso do Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA);

f) integrar na catequese as conquistas das ciências da educação, particularmente a pedagogia contemporânea, discernida à luz do Evangelho;

g- fazer com que a catequese se realize num contexto comunitário, seja um processo de inserção na comunidade eclesial e que essa seja catequizadora;

h- incentivar a instituição do ministério da catequese;

i) incentivar a catequese junto a pessoas com deficiência;

j) assumir na catequese a vida e os clamores dos marginalizados e os excluídos;

k- motivar e estimular os catequistas e catequizandos para o compromisso missionário e social da fé, assumido no sacramento da Confirmação;

Sei que uma das grandes dificuldades que se encontram hoje na catequese é o problema da liturgia. O problema aumenta ainda mais quando na Iniciação Cristã necessita-se trabalhar a Catequese na Liturgia e a Liturgia na Catequese. O DNC indica que a Palavra de Deus se manifesta de modo sublime na Liturgia e a Liturgia é fonte privilegiada de catequese. Vamos entender isto um pouco melhor:

O ser humano é, por natureza, ritual e simbólico. A expressão ritual trabalha com ações simbólicas e estas atingem o ser humano como um todo, em suas diversas dimensões: sensorial, afetiva, mental, espiritual, individual, comunitária e social. A catequese leva em conta essa expressão de fé pelo rito para desenvolver também uma verdadeira educação para a ritualidade e o simbolismo.

Na Liturgia Deus fala a seu povo, Cristo ainda anuncia o evangelho e o povo responde a Deus com cânticos e orações (SC 33): torna-se uma educação permanente da fé. A liturgia é fonte inesgotável da catequese, não só pela riqueza de seu conteúdo, mas pela sua natureza de síntese e cume da vida cristã (SC 10; CR 89). O RICA é o melhor exemplo de unidade entre Catequese e liturgia.

O mistério de Cristo anunciado na catequese é o mesmo que é celebrado na liturgia para ser vivido. Aqui convém uma lembrança para a questão da formação dos nossos padres, seminaristas, catequistas, lideranças, enfim. Precisamos urgentemente de formação mais global e completa. Um liturgista precisa entender não só de liturgia. Mas para ser um bom liturgista, de acordo com o que sonha a Sacrosanctum Concilium, precisa também entender de antropologia, cristologia, bíblia, catequese, eclesiologia, psicologia, mariologia, teologia dogmática, etc. Sem isto não conseguiremos vencer o maldito rubricismo que quer novamente tomar conta da liturgia. A Constituição Sacrossanctum Concilium, n. 16, lembra esta questão muito séria.

A catequese como educação da fé e a liturgia como celebração da fé são duas funções da única missão evangelizadora e pastoral da Igreja. A liturgia, com seu conjunto de sinais, palavras, ritos, em seus diversos significados, requer da catequese uma iniciação gradativa e perseverante para ser compreendida e vivenciada. É tarefa primordial da catequese iniciar eficazmente os catecúmenos e catequizandos nos sinais litúrgicos e através deles introduzi-los no mistério pascal.

A catequese litúrgica é um processo que visa enraizar uma união madura, consciente e responsável com Cristo, sobretudo através das celebrações e leva ao compromisso com o serviço da evangelização nas diversas realidades da vida.

O DNC, no n.122 elenca os elementos que fazem parte do processo da formação litúrgica na catequese:
a. A centralidade do Mistério Pascal de Cristo na vida dos cristãos e em todas as celebrações;

b. A liturgia como um momento celebrativo da história da salvação;

c. A liturgia como exercício do sacerdócio de Jesus Cristo e ação nossa em conjunto com ele pela ação do Espírito Santo;

d. A dimensão celebrativa da liturgia, como uma ação ritual e simbólica, onde a assembléia é sujeito e o Ressuscitado preside a oração da comunidade, atualiza a salvação na vida e na história de seus participantes;

e. A compreensão não só intelectual dos ritos e símbolos como reveladores da ação pascal de Cristo e experiência de encontro com o Ressuscitado;

f. A dimensão comunitária da liturgia com sua variedade de ministérios, exercidos com qualidade;

g. A espiritualidade pascal ao longo do Ano Litúrgico, como caminho de inserção gradativa no Mistério Pascal de Cristo;

h. A espiritualidade penitencial ou de conversão mediante a celebração do Sacramento da Reconciliação;

i. O sentido dos sacramentos, especialmente a Eucaristia, como sinais da comunhão com Deus, em Cristo nos momentos fortes da vida e atualizam a salvação no nosso dia a dia;

j. Aprofundamento do sentido da presença de Maria no Mistério de Cristo e da Igreja, bem como a prudente e razoável devoção aos santos;

k. Redimensionamento bíblico-litúrgico da religiosidade popular.


DESAFIOS PARA A CATEQUESE QUE BROTAM DAS DGAE-2011-2015.

Estas reflexões são baseadas nas indicações práticas sugeridas pela CNBB para a segunda Urgência da Ação Evangelizadora: Igreja: casa da iniciação à vida cristã. Convém lembrar ainda que as diretrizes partem da reflexão ao redor do Documento de Aparecida que é de 2007.

1. A catequese de inspiração catecumenal, que equivale ao processo de iniciação cristã, adquire grande importância, não limitada a crianças. É continuada e não ocasional. A exigência é a melhor formação dos responsáveis e um itinerário catequético permanente, assumido pela Igreja Particular. Ela é bíblica, catequética e litúrgica (n. 85).

2. Condução ao encontro pessoal com Jesus Cristo no cultivo da amizade com Ele pela oração, no apreço pela celebração litúrgica, na experiência comunitária e no compromisso apostólico, mediante um permanente serviço aos demais (n. 86).

3. Valorização da piedade popular católica para a preservação da fé e para a iniciação à vida cristã (n. 86).

4. O contexto de pluralismo e subjetivismo é preciso dar grande atenção às pessoas, com atendimento personalizado. Diálogo interpessoal, de reflexão sobre a experiência de vida, abrindo-a a seu sentido verdadeiro (n, 87).

5. As pessoas hoje são ciosas de sua liberdade e autonomia. Querem se convencer pessoalmente (discutir, refletir, avaliar uma determinada visão, doutrina ou norma). A pedagogia evangélica consiste na persuasão do interlocutor pelo testemunho de vida e por uma argumentação sincera e rigorosa, que estimula a busca da verdade (n. 88).

6. Dar grande valor à relação interpessoal, no seio de uma comunidade eclesial. As pessoas não buscam em primeiro lugar as doutrinas, mas o encontro pessoal, o relacionamento solidário e fraterno, a acolhida, vivência implícita do próprio Evangelho (n.89).

7. Adesão total à comunidade de fé integrando cinco aspectos fundamentais: encontro com Jesus Cristo; a conversão; o discipulado; a comunhão; a missão.

Desafios sugeridos pela CNBB para a terceira Urgência da Ação Evangelizadora: Igreja: lugar de animação bíblica da vida e da pastoral.

1. Todos os serviços eclesiais precisam estar fundamentados na Palavra de Deus e serem por ela iluminados (também a catequese). Para isto é necessário ter a Bíblia; Escolas de Interpretação ou conhecimento da Palavra. Escola de comunhão e oração com a Palavra e escola de evangelização e proclamação da Palavra. A Leitura Orante é um método eficaz. A Lectio Divina com seus quatro momentos – leitura, meditação, oração, contemplação-ação, que favorece o encontro pessoal com Jesus Cristo, o Verbo de Deus.

2. Além disso, o Documento 97 da CNBB – Discípulos e Servidores da Palavra de Deus na Missão da Igreja – recorda a necessidade de reconhecer que os interlocutores da ação são sujeitos e não somente destinatários. O documento 97 brota da reflexão da CNBB sobre a terceira urgência.

3. Eis algumas entre as muitas indicações para a catequese: Comunicar com vitalidade a História da Salvação e os conteúdos da fé da Igreja, para que cada fiel reconheça que sua vida pessoal pertence àquela história (n.70) Fazer florescer um renovado amor pela SE trabalhando para que todos possam ter a sua bíblia em casa e valorizando a leitura da SE nas famílias (n.71).

4. Valorizar a relação entre SE e o Catecismo da Igreja Católica;

5. Fazer chegar às mãos de todos os recursos para uma boa leitura bíblica;

6. Sublinhar a unidade entre Palavra e Sacramento no ministério da Igreja e o caráter performativo da Palavra: ela faz o que diz, ela é “viva e eficaz” (Hb 4,12).

Mesmo sem ter sido ainda aprovado pela Assembleia Geral, temos o Documento 104 (Coleção Verde) da CNBB. Ele vem com a grande preocupação da renovação das paróquias. O próprio título o mostra: Comunidade de comunidades – uma nova Paróquia. As primeiras experiências indicam para um necessário aprofundamento da Catequese com inspiração catecumenal para adultos, visto que quanto mais formos em busca das pessoas, nas “periferias geográficas e existenciais” mais nos depararemos com muitíssimos adultos sem conhecimento da fé. Eis um enorme desafio para a catequese.

Inspirações nas Palavras do Papa Francisco
Talvez os maiores desafios para a catequese estejam vindo mesmo através dos discursos e das atitudes do Papa Francisco. No discurso aos Bispos do Brasil durante a Jornada Mundial da Juventude, o Papa deu alguns acenos muito interessantes para o nosso trabalho evangelizador e por isto também catequético.

1. Aparecida: chave de leitura para a missão da Igreja
O Santo Padre inicia dizendo que “em Aparecida, Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe. Mas, em Aparecida, Deus deu também uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. Uma lição sobre a humildade que pertence a Deus como traço essencial e que está no DNA de Deus”.

O Papa faz a leitura do próprio fato de Aparecida: “No início do evento que é Aparecida, está a busca dos pescadores pobres. Tanta fome e poucos recursos. As pessoas sempre precisam de pão. Os homens partem sempre das suas carências, mesmo hoje. Possuem um barco frágil, inadequado; têm redes decadentes, talvez mesmo danificadas, insuficientes. Primeiro, há a labuta, talvez o cansaço, pela pesca, mas o resultado é escasso: um falimento, um insucesso. Apesar dos esforços, as redes estão vazias. Vêem então a imagem da Imaculada Conceição. Primeiro o corpo, depois a cabeça, em seguida a unificação de corpo e cabeça: a unidade. Aquilo que estava quebrado retoma a unidade. O Brasil colonial estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida mas depois unida, nas mãos dos pescadores”.

O fato é interpretado pelo Pontífice: “Há aqui um ensinamento que Deus quer nos oferecer. Sua beleza refletida na Mãe, concebida sem pecado original, emerge da obscuridade do rio. Em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação”.

Aproveitando o episódio de Aparecida para falar do Mistério de Deus continua: “Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. E esta não demora a chegar. Há aqui algo de sabedoria que devemos aprender. Há pedaços de um mistério, como partes de um mosaico, que vamos encontrando. Nós queremos ver muito rápido a totalidade; Deus, pelo contrário, se faz ver pouco a pouco. Também a Igreja deve aprender esta expectativa” conclui.

Dando continuidade à interpretação diz: “Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. Talvez nós tenhamos reduzido a nossa exposição do mistério a uma explicação racional; no povo, pelo contrário, o mistério entra pelo coração. Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar”.

Continua dizendo: “Os pescadores agasalham: revestem o mistério da Virgem pescada, como se Ela tivesse frio e precisasse ser aquecida. Deus pede para ficar abrigado na parte mais quente de nós mesmos: o coração. Depois é Deus que irradia o calor de que precisamos, mas primeiro entra com o subterfúgio de quem mendiga. Os pescadores cobrem o mistério da Virgem com o manto pobre da sua fé. Chamam os vizinhos para verem a beleza encontrada; eles se reúnem à volta dela; contam as suas penas em sua presença e lhe confiam as suas causas. Permitem assim que possam implementar-se as intenções de Deus: uma graça, depois a outra; uma graça que abre para outra; uma graça que prepara outra. Gradualmente Deus vai desdobrando a humildade misteriosa de sua força”.

Há muito para aprender nessa atitude dos pescadores. “Uma Igreja que dá espaço ao mistério de Deus; uma Igreja que alberga de tal modo em si mesma esse mistério, que ele possa encantar as pessoas, atraí-las. Somente a beleza de Deus pode atrair. O caminho de Deus é o encanto que atrai. Deus faz-se levar para casa. Ele desperta no homem o desejo de guardá-lo em sua própria vida, na própria casa, em seu coração. Ele desperta em nós o desejo de chamar os vizinhos, para dar-lhes a conhecer a sua beleza. A missão nasce precisamente dessa fascinação divina, dessa maravilha do encontro. Falamos de missão, de Igreja missionária. Penso nos pescadores que chamam seus vizinhos para verem o mistério da Virgem. Sem a simplicidade do seu comportamento, a nossa missão está fadada ao fracasso”, completa.

Aqui o Papa começa a falar da necessidade de não deixar de aprender. “A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer. As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente através dos nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo”.

Queridos irmãos, o resultado do trabalho pastoral não assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor. Fazem falta certamente a tenacidade, a fadiga, o trabalho, o planejamento, a organização, mas, antes de tudo, você deve saber que a força da Igreja não reside nela própria, mas se esconde nas águas profundas de Deus, nas quais ela é chamada a lançar as redes.

Outra lição que a Igreja deve sempre lembrar é que não pode afastar-se da simplicidade; caso contrário, desaprende a linguagem do Mistério. Sem a gramática da simplicidade, a Igreja se priva das condições que tornam possível «pescar» Deus nas águas profundas do seu Mistério. Lembra, por fim, a encruzilhada na qual acontece o fato de Aparecida. Cruzamento entre Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.

2. O ícone de Emaús como chave de leitura do presente e do futuro

O Santo Padre inicia citando palavras do Beato John Henry Newman: «O mundo cristão está gradualmente se tornando estéril, e esgota-se como uma terra profundamente explorada que se torna areia». Não devemos ceder ao desencanto, ao desânimo, às lamentações. Nós trabalhamos duro e, às vezes, nos parece acabar derrotados: apodera-se de nós o sentimento de quem tem de fazer o balanço de uma estação já perdida, olhando para aqueles que nos deixam ou já não nos consideram credíveis, relevantes.

Vamos ler sob esta luz, mais uma vez, o episódio de Emaús (cf. Lc 24, 13-35). “Os dois discípulos escapam de Jerusalém. Eles se afastam da «nudez» de Deus. Estão escandalizados com o falimento do Messias, em quem haviam esperado e que agora aparece irremediavelmente derrotado, humilhado, mesmo após o terceiro dia (cf. vv. 17-21). O mistério difícil das pessoas que abandonam a Igreja; de pessoas que, após deixar-se iludir por outras propostas, consideram que a Igreja – a sua Jerusalém – nada mais possa lhes oferecer de significativo e importante. E assim seguem pelo caminho sozinhos, com a sua desilusão”. 

Perante esta situação, o que fazer? “Faz falta uma Igreja que não tenha medo de entrar na noite deles. Precisamos de uma Igreja capaz de encontrá-los no seu caminho. Precisamos de uma Igreja capaz de inserir-se na sua conversa. Precisamos de uma Igreja que saiba dialogar com aqueles discípulos, que, fugindo de Jerusalém, vagam sem meta, sozinhos, com o seu próprio desencanto, com a desilusão de um cristianismo considerado hoje um terreno estéril, infecundo, incapaz de gerar sentido”.

Francisco analisa os sinais de crise: “A globalização implacável e a intensa urbanização, frequentemente selvagem, prometeram muito. Muitos se enamoraram das suas potencialidades e, nelas, existe algo de verdadeiramente positivo, como, por exemplo, a diminuição das distâncias, a aproximação das pessoas à cultura, a difusão da informação e dos serviços. Mas, por outro lado, muitos vivem os seus efeitos negativos sem dar-se conta de quanto esses prejudicam a própria visão do homem e do mundo, gerando maior desorientação e um vazio que não conseguem explicar. Alguns destes efeitos são a confusão acerca do sentido da vida, a desintegração pessoal, a perda da experiência de pertencer a um «ninho», a carência de um lugar e de laços profundos”.

“Perante este panorama, precisamos de uma Igreja capaz de fazer companhia, de ir para além da simples escuta; uma Igreja, que acompanha o caminho pondo-se em viagem com as pessoas; uma Igreja capaz de decifrar a noite contida na fuga de tantos irmãos e irmãs de Jerusalém; uma Igreja que se dê conta de como as razões, pelas quais há pessoas que se afastam, contém já em si mesmas também as razões para um possível retorno, mas é necessário saber ler a totalidade com coragem. Jesus deu calor ao coração dos discípulos de Emaús”.

O Papa desafia a Igreja! “Eu gostaria que hoje nos perguntássemos todos: Somos ainda uma Igreja capaz de aquecer o coração? Uma Igreja capaz de reconduzir a Jerusalém? Capaz de acompanhar de novo à casa? Em Jerusalém, residem as nossas fontes: Escritura, Catequese, Sacramentos, Comunidade, amizade do Senhor, Maria e os Apóstolos... Somos ainda capazes de contar de tal modo essas fontes, que despertem o encanto pela sua beleza?”.

Muitos se foram, porque lhes foi prometido algo de mais alto, algo de mais forte, algo de mais rápido. Mas haverá algo de mais alto que o amor revelado em Jerusalém? Nada é mais alto do que o abaixamento da Cruz, porque lá se atinge verdadeiramente a altura do amor! Somos ainda capazes de mostrar esta verdade para aqueles que pensam que a verdadeira altura da vida esteja em outro lugar? Porventura se conhece algo de mais forte que a força escondida na fragilidade do amor, do bem, da verdade, da beleza? “Precisamos de uma Igreja que volte a dar calor, a inflamar o coração. Precisamos de uma Igreja capaz ainda de devolver a cidadania a muitos de seus filhos que caminham como em um êxodo”, completa.

Na resposta do Papa Francisco a uma carta de Eugenio Scalfari, Editor do Jornal La Reppubblica, ateu confesso, ele lembra de duas circunstâncias de fundo importantes para o mundo da catequese e da evangelização:

3. A primeira circunstância que ocorreu ao longo dos séculos é que “a fé cristã cuja novidade e incidência na vida do homem desde o inicio se expressou com o símbolo da cruz, foi considerada como superstição obscura, oposta à luz da razão. Gerou-se um estado de incomunicação entre a Igreja e a cultura de inspiração cristã, por um lado , e a cultura moderna de cunho iluminista , por outro”. É necessário reabrir o diálogo. O Concílio Vaticano II iniciou este diálogo. Isto também está destacado nas páginas iniciais da Lumen Fidei.

4. A segunda circunstância, “para quem procura ser fiel ao dom do seguimento de Jesus à luz da fé, deriva do fato que este diálogo não é um acessório secundário da existência de quem crê. Ao contrário, é uma expressão íntima e indispensável [dessa existência]”. E o Papa cita uma afirmação da Lumen Fidei: como a verdade testemunhada pela fé é a verdade do amor – ali se sublinha – “é claro que a fé não é intransigente, mas cresce na convivência que respeita o outro. Quem crê não é arrogante; ao contrário, a verdade o faz humilde, sabendo que mais do que nós a possuirmos, é ela que nos circunda e possui. Longe de enrijecer-nos, a segurança da fé nos põe a caminho e torna possível o testemunho e o diálogo com todos” (n. 34). 

5. Faz uma síntese do processo de nascimento e crescimento da fé: “A fé, para mim, nasce do encontro com Jesus. Um encontro pessoal, que tocou meu coração e deu uma nova direção e um novo sentido à minha existência. Mas, ao mesmo tempo, um encontro tornado possível pela comunidade de fé na qual eu vivi e graças à qual encontrei o acesso à inteligência da Sagrada Escritura, à vida nova que como fluxo de água jorrando de Jesus através dos Sacramentos, à fraternidade para com todos e a serviço dos pobres, verdadeira imagens do Senhor. Sem a Igreja, - creia-me – não teria podido encontrar Jesus, apesar de estar ciente de que este dom imenso que é a fé está guardado nos vasos da frágil argila de nossa humanidade”.

6. Em Artigo para o Instituto Humanitas – Unisinos, Brenda Carranza faz uma análise da JMJ e esclarece que dela brota uma Igreja que está cristalizando cada vez mais a “cultura gospel católica no Brasil”. Diz isto analisando a música, testemunhos, bandeiras e ao final indica as rotas da catequese e da evangelização: mais colegiada que hierárquica, mais pastoral do que magisterial, mais coração do que razão, mais Vaticano II do que disciplinar, mais social do que doutrinal, mais inspirador do que admoestador.....

7. Outra questão importante levantada, a partir dos discursos do Papa Francisco, por Moisés Sbardelotto sobre os desafios lançados pelo Papa Francisco é a Liberdade de consciência. Muito mais do que a liberdade pessoal Francisco também promoveu a liberdade de consciência em todos os jovens peregrinos.

Isso ficou patentemente claro na Via Crucis e na Vigília do sábado. Na Via Sacra, Francisco disse: “Eu te pergunto hoje: tu, como quem queres ser? [referindo-se a Pilatos, Cirineu ou Maria] (…) E tu, como qual deles queres ser? Como Pilatos, como o Cirineu, como Maria? Jesus está te olhando agora e te diz: queres me ajudar a levar a Cruz? Irmão e irmã, com toda a força de jovem, o que lhe respondes?”.

O convite é pessoal (“tu”), inclusivo ("irmão e irmã") e direto (“Jesus está te olhando e te diz”). A resposta, porém, fica na consciência de cada um.

Na Vigília, Francisco promoveu um dos mais belos momentos místicos da Jornada, em que os milhões de pessoas reunidas na praia fizeram alguns instantes de silêncio diante do convite do papa: “Façamos uma coisa: todos em silêncio, olhemos para o coração, e cada um diga a Jesus que quer receber a semente [lançada por Jesus]. Diga a Jesus: 'Olha, Jesus, as pedras que existem, olha os espinhos, olha os jugos, mas olha este pedacinho de terra que eu te ofereço, para que a semente entre'. Em silêncio, deixemos entrar a semente de Jesus. Lembrem-se desse momento. Cada um sabe o nome da semente que entrou. Deixem-na crescer, e Deus vai cuidá-la”.

“Cada um sabe”... No silêncio da liberdade de consciência de cada um, Deus “vai cuidar” dessa semente e a fará crescer.

E ainda: “Eu te pergunto, mas responde no teu coração, hein! Não em voz alta, em silêncio. Eu rezo? Cada um se responda. Eu falo com Jesus? Ou tenho medo do silêncio? Deixo que o Espírito Santo fale no meu coração? Eu pergunto a Jesus: o que queres que eu faça? O que queres da minha vida? Isso é treinar-se. Perguntem a Jesus, falem com Jesus”.

O papa pergunta. Mas a resposta está “no teu coração”, “em silêncio”, na ação do "Espírito Santo no meu coração". “Cada um se responda”.

Contudo, distante de uma interpretação personalista dos sacramentos ou deturpada da presença divina “no céu”, Francisco disse na homilia da Missa de Envio que somos enviados por Cristo, sem medo, para servir. “No começo do salmo que proclamamos – afirmou – estão estas palavras: 'Cantem ao Senhor um canto novo' (95,1). Qual é esse canto novo? Não são palavras, não é uma melodia, mas é o canto da nossa vida, é deixar que a nossa vida se identifique com a de Jesus, é ter os seus sentimentos, os seus pensamentos, as suas ações. E a vida de Jesus é uma vida para os demais. É uma vida de serviço”.

Assim se manifesta a liberdade de consciência. Jesus não propõe a desconexão com o mundo, em uma liberdade fora do mundo ("no céu") ou personalista ("o meu próprio bem"). Jesus também não impõe, não é “vontade de domínio” ou “vontade de poder”. A liberdade de consciência se manifesta na “força do amor”, disse o papa. Ser livre, para o papa, é dar-se totalmente pelos demais, como Jesus, é ter "uma vida de serviço para os demais". “Jesus não nos trata como escravos, mas como pessoas livres, como amigos, como irmãos; e não somente nos envia, mas nos acompanha, está sempre junto de nós nesta missão de amor”, afirmou.

Para Francisco, é nessa liberdade de consciência – que brota do Espírito, no diálogo com Jesus –, que nascem a oração, o discipulado missionário e o amor fraterno encarnado especialmente na carne sofredora de Cristo nos pobres.

8. O Papa Francisco convidou para construir uma Nova Primavera. Na Vigília, Francisco refletiu sobre essa primavera a partir de "três imagens que podem nos ajudar a entender melhor o que significa ser um discípulo missionário: a primeira imagem, o campo como lugar onde se semeia; a segunda, o campo como lugar de treinamento; e a terceira, o campo como canteiro de obras". A semente de Jesus precisa ser acolhida. Depois de recebê-la, é preciso cuidá-la, treinar-se para a missão. Por fim, os jovens são convidados a dar o melhor de si e a construir a Igreja.

E perguntou: “Querem construir a Igreja? [Todos: “Sim!”] Animam-se? [“Sim”] E amanhã vão se esquecer do que disseram? [“Não!”] Assim que eu gosto”. O desafio de Francisco aos jovens é de serem construtores da Igreja e protagonistas da história. "Chicos e chicas, por favor: não se ponham no rabo da história. Sejam protagonistas. Joguem para a frente. Chutem para a frente, construam um mundo melhor. Um mundo de irmãos, um mundo de justiça, de amor, de paz, de fraternidade, de solidariedade. Joguem para a frente sempre”.

A “nova primavera”, portanto, é uma “utopia” positiva e possível, como reafirmou o papa em sua entrevista à TV. “Na Igreja de Jesus – continuou ele na Vigília –, as pedras vivas somos nós, e Jesus pede que edifiquemos a sua Igreja. (...) Cada pedacinho vivo tem que cuidar da unidade e da segurança da Igreja. E não construir uma pequena capela onde só cabe um grupinho de pessoas. Jesus nos pede que a sua Igreja seja tão grande que possa alojar toda a humanidade, que seja a casa de todos”.

E, encerrando a Vigília, disse: “Queridos amigos, não se esqueçam: vocês são o campo da fé. Vocês são os atletas de Cristo. Vocês são os construtores de uma Igreja mais bela e de um mundo melhor”. Por isso, na Missa de Envio, convidou a pôr em prática três palavras: "ide", "sem medo", "para servir". "Levar o Evangelho é levar a força de Deus, para extirpar e destruir o mal e a violência; para devastar e derrubar as barreiras do egoísmo, da intolerância e do ódio; para construir um mundo novo", concluiu Francisco.

9. Mas o que mais provoca a Igreja do Brasil nos discursos do Papa Francisco é precisamente a questão da formação, a prioridade da formação. O Papa enxerga na necessidade da formação a resposta para muitos dos problemas na área da “solidez humana, cultural, afetiva, espiritual e doutrinal”. Se não formarmos ministros capazes de aquecer o coração das pessoas, de caminhar na noite com elas, de dialogar com as suas ilusões e desilusões, de recompor as suas desintegrações, o que poderemos esperar para o caminho presente e futuro? “Não é verdade que Deus se tenha obscurecido nelas. Aprendamos a olhar mais profundamente: falta quem lhes aqueça o coração, como sucedeu com os discípulos de Emaús” (cf. Lc 24,32). “Serve a sabedoria prática de levantar estruturas duradouras de preparação em âmbito local, regional, nacional e que sejam o verdadeiro coração para o Episcopado, sem poupar forças, solicitude e assistência. A situação atual exige uma formação qualificada em todos os níveis”.

São Leopoldo – RS, 25 de Outubro de 2013
Dom Geremias Steinmetz
Bispo Diocesano de Paranavaí - PR

Um comentário:

  1. É pena que não consta o nome do palestrante!!
    Ana Maria

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