segunda-feira, 19 de agosto de 2013

PEREGRINAS DA ESPERANÇA

No próximo dia 25 de agosto estaremos comemorando o dia do catequista e nessa semana que antecede esse dia publicamos um artigo de uma CATEQUISTA muito especial que passou por nossa comissão.
 
Estou em dívida com vocês, queridos catequistas,  depois que assumi a missão na Argentina ( março/2012), não dei mais notícias, com alguns de vez em quando nos encontramos no Face. Queria dizer-lhes que a experiência vivida durante os anos que estive na equipe de animação bíblico-catequética, da CNBB alimentou e acalentou a minha VOCAÇÃO MISSIONÁRIA.  Nas visitas aos regionais fui descobrindo o desafiador e fascinante mundo da INTERCULTURALIDADE, cada regional com um rosto distinto, era reflexo do mistério Trinitário, que aprofundava o meu desejo de ir ao encontro de outras culturas, de outros povos. Estar em contato com os catequistas conhecê-los e aos poucos descobrir que na raiz de toda a sua atuação estava a vocação cristã, o chamado a ser catequista, SERVIDOR DA PALAVRA NO ANÚNCIO DE JESUS CRISTO, NOSSO MAIOR TESOURO, era fundamental e animava o meu trabalho.
 
Com que criatividade, sensibilidade, simplicidade e disponibilidade animavam suas dioceses, movidos pelo Espírito do Senhor testemunhavam gestos de solidariedade, de compaixão, de compromisso, tornavam-se PALAVRA ENCARNADA. CATEQUISTAS DO BRASIL, OBRIGADA, pelo testemunho que me animou a assumir a missão na Argentina-Patagônica. Que a catequese seja caminho de discipulado, forme discípulos missionários e nunca deixe  de cultivar e alimentar a missionariedade.  Catequista, sua missão é despertar nas crianças, jovens, adultos, idosos a chama do Espírito Missionário presente nas diferentes culturas.
Dom Esteban Laxaque em suas
visitas pastorais utiliza transporte
público e sua bicicleta.
Um forma de atualizar a inspiração fundante (Carisma) de uma Congregação é estar aberta às novas frentes missionárias, por isso com generosidade Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas, Provincia São Francisco de Assis, Curitiba-Pr,  acolheu o pedido do Bispo Dom Esteban Laxague e foi aberta a missão na periferia da cidade de Viedma, capital da Provincia de Rio Negro em março de 2012 com as irmãs: Claudia Ortigara, Zelia Maria Batista e Marlize Ignacio dos Santos.  Inicialmente para que fosse um testemunho de vida fraterna para o povo e Igreja Local.  Uma das prioridades da diocese são os bairros periféricos, dessa forma a presença da ICF é profética e animadora; acompanhando a comunidade na formação, animação e organização, com olhos e coração abertos às  necessidades das famílias do bairro. A prioridade absoluta dessa missão é gerar vida, não com meios sofisticados, mas através do despojamento da própria vida, é o resgate da cotidianidade, dos detalhes, da simplicidade, da alegria e da pobreza.
 
 Irmã Claúdia com detentos

TEMPO DE SEMEADURA...
 
                Vivemos num dos bairros periféricos da cidade de Viedma, onde está localizada a Comunidade São Francisco de Assis, num conjunto habitacional de 152 apartamentos, construído há 20 anos e que abrigam em torno de 300 famílias. Com aumento da população surgiram mais dois bairros, totalizando cerca de 2000 famílias.  A comunidade surgiu oficialmente há 4 de outubro de 2000,  antes disso as famílias se encontravam para refletir a Palavra de Deus em suas casas, acompanhadas por lideranças da própria comunidade e da comunidade vizinha Sta Clara que já estava constituída. A semente do Verbo já estava presente e contava com a presença franciscana da Congregação Missionárias Franciscanas de Maria.
 
A comunidade São Francisco pertence a Paróquia Dom Bosco, assistida pelos padres salesianos: Pe Luciano Cibien (pároco) e Pe Franco. Segue a linha pastoral e prioridades da Diocese. Este ano o Lema é: “LA FE SE FORTALECE DANDOLA: COMO COMUNIDAD VAMOS Y EVANGELIZAMOS EM LA OUTRA ORILLA”(APARECIDA 379). Na última assembléia diocesana (19 e 20 de maio de 2012) foram assumidas as seguintes prioridades: pessoas com deficiência, Terceira idade , Jovens e Adolescentes, Família, Bairros periféricos. 
 
Desde que chegamos, março/2012, procuramos estar junto com o povo, ver, sentir, escutar a realidade que vivem as famílias, constatamos que a comunidade estava praticamente abandonada, sem celebrações e falta de animadores. Com o olhar de Jesus buscamos perceber as suas necessidades, foi assim que realizamos uma missão com um grupo de leigos visitando as famílias e convidando-as a participar primeiramente da semana santa e depois das demais atividades pastorais. A partir disso a comunidade optou por encontrar-se semanalmente para celebrar e planejar suas atividades pastorais. Este ano seguimos com a semeadura, sem pretensões de colher logo os frutos...Continuamos semeando na gratuidade, com alegria e esperança, pois a missão é de Jesus Cristo. O tempo de semeadura, exige atitudes de silêncio e paciência ancoradas no porto seguro da fé e da esperança. 

 Irmã Zélia com os jovens

IR AO ENCONTRO DO TOTALMENTE OUTRO

A vocação cristã nos impele a universalidade, ao encontro do desconhecido que não está no espaço convencional que nos garante certa segurança, está na fronteira, que não é somente geográfica, mas cultural, social.  É na fronteira, na “outra margem” que vamos encontrar o “outro”, por isso Jesus provoca os discípulos a ir a outra margem (cf. Mc 4, 35-41), a travessia é dolorosa, enfrentam a tempestade. Assim foi a experiência das primeiras comunidades, a perseguição aos cristãos fez com que a mensagem evangélica chegasse a outros povos e culturas (cf. At 8,4). O  documento de Aparecida,379, diz que é necessário que na Igreja aconteça uma nova primavera da Missão Ad Gentes, ao levar o evangelho a outra margem, a outras realidades, vamos fortalecer nossa fé e oferecer da nossa pobreza e alegria. 
Ao deixar a terra de origem, a Pátria, deixam-se os bens mais preciosos, a comunidade, as referências culturais, os vínculos afetivos, como uma planta que desde suas raízes é removida para ser transplantada em outro terreno. As raízes deverão se adaptar ao novo espaço e encontrar os nutrientes necessários para sobreviver. “Quanto mais profundas as raízes em minha cultura de origem, mais possibilidade de inculturar-se,  porque somente as raízes profundas podem criar o senso de pertença e o senso de apego”. ( cf.Caminhos para a Missão).
A adaptação exige tempo, despojamento, silêncio, escuta.  Como somos hóspedes na casa dos outros, vamos aos poucos incorporando os novos elementos da cultura onde estamos inseridas, é o processo de inculturação.  Somos enviadas e enviados para oferecer o dom humilde e gratuito de toda nossa vida, não é mais uma experiência, porque vamos estar mergulhando numa outra cultura, que requer aprendizagem de idiomas, costumes, mentalidades, relações, cosmovisões, isso exige tempos longos de dedicação e entrega. Estar com a inteireza de nosso ser missionário nesta realidade para escutar, silenciar, respeitar e valorizar elementos culturais dos povos indígenas, neste caso, o povo mapuche, continua sendo um desafio, porque necessitamos estar com todos os sentidos para escutar o sussurro, de uma cultura que foi calada, quase extinta, mas que é fonte de vitalidade e esperança.
Assumindo concretamente a vida de um povo e sua causa, assumimos a humanidade de Jesus que se encarnou para salvar o humano. Assumir a dinâmica de ir e vir, para estar abertas aos processos de aprendizagens; assumir o caminho do discipulado para que a nossa ação missionária esteja centrada em formar discípulos missionários e não somente em cumprir tarefas, são os desafios que nos animam a seguir nesta missão.
 
A Igreja e nossas Congregações  somente se renovarão se buscarem novos espaços, isso exige que façamos a opção de sair e ir ao encontro do totalmente outro, do desconhecido, sem pretensões da fazer muitas coisas, mas DE SER PRESENÇA na gratuidade, no silêncio, como a semente lançada na terra. Quando deixamos os espaços viciados respiramos o ar PURO da NOVIDADE, é surpreendente como somos evangelizadas quando estamos junto com os pobres, os idosos, os jovens, as famílias, os enfermos, esta gente tem uma vitalidade, uma alegria de viver que contagia, na verdade são eles os nossos mestres. Nestes espaços recupera-se a natureza, a essência da VOCAÇÃO MISSIONÁRIA que é a gratuidade. “É melhor uma Igreja acidentada porque foi à rua do que uma Igreja doente e asfixiada, porque ficou dentro do Templo”. Papa Francisco.
Queridos/as, catequistas, com alegria  partilhei um pouco da profunda experiência missionária na Patagônia, considerando que estou  no chão sagrado que é a cultura mapuche, atraída pela imensidão do DESERTO PATAGÔNICO,  concluo  con el sonido que viene de la tierra herida y llega a nosotras en forma de poesia, porque viene del profundo, es la propia alma que habla:
concluo com o som que vem da terra ferida e chega até nós em forma de poesia, porque vem do profundo, é a própria alma que fala:

DESERTO
 
Tempo de travessia….Não temos claro onde chegar mesmo assim caminhamos…Confiamos em dar mais um passo, em apostar contra toda esperança...Em arriscar, ousar, sonhar, aventurar.....
Para atravessar o deserto ou estar no deserto não são necessárias muitas coisas, apenas o ESSENCIAL para viver na provisoriedade. Assim descobre-se o valor da cotidianidade tramada de simplicidade, alegria e pobreza.
No deserto o clima é árido, falta água, necessita-se buscar a fonte.....A fonte mais profunda onde se encontra água potável para garantir a vida, o frescor da esperança e dos sonhos, que nos tornam leves para caminhar, porque o caminho é longo, povoado de um terrível SILÊNCIO.   Para aproximar-se da FONTE  a condição  é ir sem nada e pedir permissão aos  antepassados porque tudo é Dom, nada nos pertence. 
A FONTE é capaz de nos devolver a ESPERANÇA aprisionada e trazer-nos  novo vigor, a jovialidade, a alegria de viver e de ser “um eterno aprendiz”.
A FONTE é capaz de soltar nossa voz e entoar uma canção que nasce do  ENCONTRO  com os pobres desta terra azul, o povo mapuche do qual arrancaram a própria existência por isso lhe restou o canto...Quanto silêncio é necessário para escutar a melodia da dor e da alegria dos pobres desta terra, das suas filhas golpeadas no corpo e na alma. Dos seus filhos que perderam tudo o próprio direito de existir como POVO.
Para se aproximar da “Fonte”’é necessário silêncio para escutar os sons que vem da TERRA FERIDA....É no silencio  orante e contemplativo que  a esperança e os sonhos são plasmados. É tempo de SILÊNCIO, ORAÇÃO E COMPAIXÃO, porque aos poucos vamos perdendo a sensibilidade de chorar e sofrer com o outro. Seria este um caminho para sair da anemia espiritual em que nos encontramos; sair do espaço que nos garante segurança para viver a provisoriedade, o abandono, o despojamento e neste espaço VITAL encontrar as razões da nossa FÉ?
O caminho pelo deserto se torna escuro e não conseguimos ver com clareza por onde caminhamos, a areia sob nossos pés é movediça e parece que vamos ficar pelo caminho, paralisadas, não temos porque avançar, o cansaço, o desânimo, aprisionam nosso desejo de dar mais um passo, sim mais um passo na expectativa do ENCONTRO.... Da luz de um novo amanhecer....
O caminho pelo deserto exige que mantenhamos o olhar no horizonte, porque corre-se o risco de voltar o olhar para nós mesmas e nos satisfazer com uma vida mesquinha que nos dá segurança e bem estar... Corremos o risco de robotizar-se tornando-nos dependentes dos aparatos tecnológicos que criam barreiras impedindo o diálogo, a interação com o outro que nos HUMANIZA.  Perde-se a sensibilidade para com o sofrimento humano e corre-se o risco de não desfrutar da beleza ofuscada nas diferentes realidades e culturas. Corre-se o risco  de perder o ENCANTAMENTO, porque a aridez das relações vai deixando marcas de desencanto.
Caminhamos com os olhos fixos em Jesus Cristo, encarnado em cada realidade humana, na comunidade que celebra ao redor da mesa da Palavra e da Eucaristia;  com Ele experimentamos a solidão do abandono, a noite escura de nossa fé, o silêncio de Deus, na busca de nosso Amado naquela manhã em que reconhecemos sua voz, e ao voltar-se para Ele à luz do seu olhar nos devolve o brilho da ESPERANÇA e das nossas entranhas fecundada pela luz nasce o ENCONTRO: “Vi o Senhor”.
 
!QUE LA VIRGEN DE APARECIDA Y LA VIRGEN MISIONERA DE RIO NEGRO SIGA ALUMBRANDO NUESTROS PASOS EN EL SEGUIMIENTO DE JESUS CRISTO!!
¡INVITO A TODOS A COMPARTIR LA AMISTAD Y A TOMAR  UN MATE EN ESTAS PARAGENS!

Freternalmente,
Hna Zélia Maria Batista, CF
Calle Rio Limay, 1461
Viedma – Provincia de Rio Negro- Argentina
Fone: 0552920 -15537598

E-mail: zelibatista12@hotmail.com
Facebook: Zélia Maria Batista.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Querido leitor, caso não tenha uma conta google escolha a opção anônimo e deixe seu nome no final do comentário.

Loading...

Cadastre seu email e receba nossas novidades:

Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética

MAPA DE VISITAS