quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Homilia do 21º. Domingo do Tempo Comum – Ano C

“Fazei todo esforço possível para entrar pela porta estreita. Porque vos digo que muitos tentarão entrar e não conseguirão”. As palavras de Jesus, neste domingo, parecem ser muito duras, mas devem ser bem interpretadas.  A primeira vista, poderíamos considerar que Deus seja severo, que deseje a salvação de um número de pequeno de escolhidos, já que o caminho para encontrá-lo é duro, estreito, árduo. Na verdade, Deus não deseja a condenação de ninguém, quer que todos se salvem. Jesus sugere que o banquete do Reino é para todos. Mas deseja que todos abracem na liberdade, não pela obrigação, mas pelo desejo que move o coração para o bem e para a felicidade. Não é raro o uso de palavras severas para impor a moralidade dos costumes, pela massificação da ameaça. Pregações deste gênero usam do medo como forma de coerção, afirmando que muitos serão condenados e que o mundo está inundado no pecado. Mesmo diante da falta de valores cristãos na sociedade, a nossa postura jamais deve ser de condenação, de imposição. A liberdade é valor primordial a partir de onde se constrói a fé e a vivência cristã.
Jesus está respondendo aos judeus de sua época, que se achavam os escolhidos, os salvos. Consideravam que sua salvação estava garantida pela raça e pela prática dos costumes e da lei. Hoje a Palavra não nos coloca como justos e juízes do mundo; corremos o risco de nos considerarmos salvos porque pertencemos a Igreja ou a algum grupo, pastoral ou movimento.  Podemos erroneamente achar que a nossa salvação está garantida por uma prática exterior da lei, que de algum modo já compramos o passaporte da salvação. Ninguém tem o passaporte do Céu. A salvação é um dom que tem a sua incidência desde já na vida presente de cada um de nós.  A salvação é abertura que nos coloca a caminho, na humildade. Ninguém se salva com garantias exteriores ou por pertencer a um grupo religioso.
A porta estreita do Reino é a cruz de Cristo. Jesus não nomeou nenhuma prática ou sinal exterior como garantia. A porta estreita são as exigências do Reino, ou seja, aquilo que nos dá a vida, a felicidade, a paz. Para se abraçar desde já este dom, faz-se necessário a renuncia do poder, da mesquinhez, do orgulho, do prazer pelo prazer, do julgamento, do coração apegado aos bens, da falta da misericórdia. A porta estreita é a renuncia de si mesmo, em busca de uma vida que se transforma em dom.
A porta estreita é também o enfrentamento dos sofrimentos da vida. Deus não quer o sofrimento e sempre lutou contra todo mal, mas não de modo mágico, e sim estando ao nosso lado, contando com a nossa cooperação. Somos limitados, seres em construção a caminho da comunhão divina e, por isso, ainda sofredores. A plenitude do Reino ainda não se faz presente. O sofrimento tem também um lado positivo, pois fortifica nossos passos vacilantes. A verdade trazida pela carta aos Hebreus é o sentido pedagógico do sofrimento: crescemos a partir da dor, a partir das perdas, quando compreendemos o quanto somos limitados, contingentes e que não somos donos de nada. A dor, não buscada como fim, mas como dado natural da existência nos edifica, faz-nos crescer. As dores da vida podem ser motivos de ação de graças, se formos capazes de olhar a história com os olhos de Deus.
 
 
 
Um ferreiro, depois de uma juventude cheia de excessos, decidiu entregar sua alma a Deus. Durante muitos anos trabalhou com afinco, praticou a caridade, mas, apesar de toda a sua dedicação, nada parecia dar certo em sua vida. Muito pelo contrário: seus problemas e dívidas acumulavam-se cada vez mais.
 
Uma bela tarde, um amigo que o visitava - e que se compadecia de sua situação difícil - comentou:
- É realmente muito estranho que, justamente depois que você resolveu se tornar um homem temente a Deus, sua vida começou a piorar. Eu não desejo enfraquecer sua fé, mas, apesar de toda sua crença no mundo espiritual, nada tem melhorado.
 
O ferreiro não respondeu imediatamente. Ele já havia pensado nisso muitas vezes, sem entender o que acontecia em sua vida.
Entretanto, como não queria deixar o amigo sem resposta, começou a falar e terminou encontrando a explicação que procurava.
- Eu recebo nesta oficina o aço ainda não trabalhado e preciso transformá-lo em espadas. Você sabe como isso é feito?... Primeiro, eu aqueço a chapa de aço num calor infernal, até que ela fique vermelha. Em seguida, sem qualquer piedade, eu pego o martelo mais pesado, e aplico vários golpes, até que a peça adquira a forma desejada. Logo, ela é mergulhada num balde de água fria e a oficina inteira se enche com o vapor, enquanto a peça estala por causa da súbita mudança de temperatura. Tenho que repetir este processo até conseguir a espada perfeita. Uma vez apenas não é suficiente.
 
O ferreiro deu uma longa pausa, e continuou:
- Às vezes, o aço que chega às minhas mãos não consegue aguentar este tratamento. O calor, as marteladas e a água fria terminam por enchê-lo de rachaduras. E eu sei que jamais se transformará numa boa lâmina de espada. Então, eu simplesmente o coloco no monte de ferro velho que você viu na entrada da minha ferraria.
 
Mais uma pausa, e o ferreiro concluíram: 
- Sei que Deus está me colocando no fogo das aflições. Tenho aceitado as marteladas que a vida me dá e, às vezes, sinto-me tão frio e insensível como a água que faz sofrer o aço. Mas a única coisa que peço é: "Meu Deus, não desista até que eu consiga tomar a forma que o Senhor espera de mim. Tente da maneira que achar melhor, pelo tempo que quiser, mas jamais me jogue no monte de ferro velho"...
 Pe. Roberto Nentwig

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