quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Homilia do 19º. Domingo do Tempo Comum – Ano C


“A fé é um modo de já possuir o que ainda se espera, a convicção acerca das realidades que não se vêem” (Hb 11,1). O Papa Bento XVI nos diz que a melhor tradução seria “a fé é a substância das coisas que se esperam”, ou seja, a fé nos dá uma concretude da esperança: “poderíamos dizer ‘em gérmen’ e portanto segundo a ‘substância’ – já estão presentes em nós as coisas que se esperam: a totalidade, a vida verdadeira” (Spes Salvi 7). De fato, sem a esperança a fé não tem sentido. Não adianta acreditar em Deus se não esperamos deste Deus os seus dons: a sua graça, sua vida, a glória. A fé unida à esperança é combustível para ultrapassar nossos limites, para não estagnar diante dos fracassos. É viver a partir da convicção de que a vida se renova a cada dia, de que mesmo diante das tristezas deste mundo, sempre se pode esperar a ação divina que transforma a situação. Vivemos animados pela certeza de que Deus vence no final.

Portanto, a fé antecipa o que virá. Abraão e Saara não viram a promessa realizada (2ª. Leitura). Somente viram um sinal que antecipava a grande promessa de descendência – o filho Isaac. O nosso Isaac é o que vemos do Reino em meio aos limites da existência, na ambiguidade da história: o sorriso da criança, a fraternidade das pessoas, a hospitalidade, a Palavra anunciada, a Igreja, a Eucaristia... Cremos em Deus e esperamos que Ele transforme toda maldade e limite pelo seu amor. Cremos e esperamos porque sabemos que Ele prometeu e cumprirá a sua promessa. Porém, quanto mais o tempo passa, parece que mais testemunhamos o quão longe o ser humano pode ir em sua maldade, quão grande são as injustiças e que mesmo as instituições e as pessoas em que acreditávamos são capazes de sucumbir diante do mal. Mas, a nossa fé é provada diante das aparentes derrotas do Reino.

A fé não é um conjunto de verdades assimiladas. A fé é um combustível que tem o poder de transformar a nossa vida. O Evangelho chama este modo de viver de vigilância, enfatizando que “o Senhor virá como um ladrão”. Vigilância significa desprendimento (Lc 12,33-34): já vimos no domingo passado que os bens deste mundo não nos completam. Devemos ser sinais de que este mundo passa, de que há algo maior, de que a glória é infinitamente maior que qualquer prazer desta terra. Clemente Romano chama os cristãos de paroichoi – paroquianos. Os paroquianos eram aqueles que viviam em um território estranho por algum tempo e, depois, iam embora, ou seja, eram peregrinos. Portanto, o cristão é uma espécie de estrangeiro deste mundo, porque experimenta a alegria da pátria verdadeira que ainda está por vir. Não despreza este mundo, seus valores, suas alegrias, seus prazeres, seus tesouros. Por outro lado, não se deixa seduzir pelas falsas riquezas, prazeres e tesouros. Relativiza tudo, sabe que tudo passa, que tudo se fará novo.

Vigiar significa colocar mãos à obra. Cingir os rins é atitude do servo (Lc 12,37). O judeu dobrava a barra da túnica e cingia os rins a fim de estar mais livre para o serviço necessário. O cristão procura despojar-se do que atrapalha para estar mais livre para servir, para trabalhar por um mundo novo. A vida de fé nos faz ir além de uma existência egoísta que conduz ao investimento das forças no acúmulo, no sucesso, no prazer... A vida deve ser consumida em vistas do que se espera. Ou seja, o Reino prometido é gradativamente conquistado e construído. Crer no mundo novo, onde as relações humanas são entendidas a partir da gratuidade das relações e do amor de Deus, deve nos mover a se empenhar na construção deste mundo aqui e agora.

A quem muito foi dado, muito será exigido. Jesus nos deixa uma advertência, que o revela como um juiz justo, não um justiceiro. Lembremos que Jesus disse aos mestres que as prostitutas os precederiam no Céu. Seriam elas também mais dignas do que os mestres da fé de nossos dias? Quem recebeu a graça da Palavra tem o dever de se empenhar mais pelo amor, pela verdade e pela justiça.


Janela 

Certa vez, dois homens estavam seriamente doentes na mesma enfermaria de um grande hospital. O cômodo era bastante pequeno e nele havia uma janela que dava para o mundo. 

Um dos homens tinha, como parte do seu tratamento, permissão para sentar-se na cama por uma hora durante as tardes para facilitar a drenagem de fluido de seus pulmões. Sua cama ficava perto da janela. O outro, contudo, passava todo o seu tempo deitado de barriga pra cima. 

Todas as tardes quando o homem cuja cama ficava perto da janele era colocado em posição sentada, ele passava o tempo descrevendo o que via lá fora. A janela aparentemente dava para um parque onde havia um lago. Havia patos e cisnes no lago, as crianças iam atirar-lhes pães e colocar na água barcos de brinquedos. Jovens namorados caminhavam de mãos dadas entre as árvores, e havia flores, gramados e jogos de bola... E ao fundo, por trás da fileira das árvores, avistava-se o belo contorno dos prédios da cidade. 

O homem deitado ouvia a descrição de tudo isso, apreciando cada palavra. Ouviu sobre como uma criança quase caiu no lago e sobre como as garotas estavam bonitas em seus vestidos de verão. As descrições do seu amigo eventualmente o fizeram sentir que quase podia ver o que estava acontecendo lá fora. 

Então uma bela tarde, ocorreu-lhe um pensamento: “Porque o homem que ficava perto da janela deveria ter todo o prazer de ver o que estava acontecendo? Por que eu não poderia ter essa chance?” Sentiu-se envergonhado, mas quanto mais tentava não pensar assim, mais queria uma mudança. Faria qualquer coisa! Numa noite, enquanto olhava o teto, o outro homem subitamente acordou tossindo e sufocando, suas mãos procurando o botão que faria a enfermeira vir correndo. Mas ele o observou sem se mover... Mesmo quando o som de respiração parou. 

De manhã, a enfermeira encontrou o homem morto e, silenciosamente, levou embora o seu corpo. Logo que pareceu apropriado, o homem perguntou se poderia ser colocado na cama perto da janela. Então o colocaram lá, aconchegaram-no sob as cobertas e fizeram com que se sentisse bastante confortável. No minuto em que saíram, ele apoiou-se sobre um cotovelo, com dificuldade e sentindo muita dor, e olhou para fora da janela. E Ele viu apenas um muro... 

A fé nos faz ver o que está para além do muro! 

Pe Roberto Nentwig

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