terça-feira, 23 de julho de 2013

INICIAÇÃO À VIDA CRISTÃ: CLAMOR ECLESIAL (I)

O cristianismo é um dos grandes berços de sabedoria e vivência da unidade que nos chama à comunhão transformadora. Atualizar essa dinâmica testemunhal é tornar presente, em cada gesto realizado, a consciente conversão traduzida em protagonismo profético oriundo dos sacramentos da Iniciação Cristã recebidos não como término em si mesmos. O Papa Bento XVI na sua Encíclica, Deus Caritas Est, nos fala o verdadeiro sentido do amor de Deus: “Amor a Deus e amor ao próximo fundem-se num todo: no mais pequenino, encontramos o próprio Jesus e, em Jesus, encontramos Deus”. [1] A resposta ao chamado de Deus para algo mais é a certeza de que devemos aprofundar o que somos e buscamos, para realizarmos a dignidade de filhos (as) de Deus. O brado da Iniciação Cristã deve situar a pastoral de cunho catequético-experiencial da fé. A exigente demanda do crescente número de adultos [2] sem sentido de participação na Igreja que querem fazer esse caminho cristão de formação na fé; adultos que não receberam o batismo; adultos que foram batizados receberam a Eucaristia, mas por outros motivos abandonaram a Igreja e hoje buscam voltar para comunidade de fé e outros ainda que foram catequizados, porém não suficientemente evangelizados.
 
A eficácia da catequese até algum tempo atrás fortemente doutrinal[3], hoje é questionada. No processo de Iniciação à Vida Cristã se propõe que ela  seja realizada segundo o tempo litúrgico[4] próprio de cada etapa a partir da metodologia catecumenal sugerida pelo RICA (Ritual da Iniciação Cristã de Adultos). É também uma indicação para que essas instâncias (catequese, liturgia e prudente criatividade pastoral) sejam efetuadas harmoniosamente e que não transpareça a idéia de arquipélago, ou seja, isoladamente. Isso enfraquece o aprofundamento paulatino da fé: “A pedagogia catecumenal acha-se relacionada com o ano litúrgico, apóia-se nas celebrações litúrgicas e conduz o catecúmeno à íntima percepção do mistério da salvação”[5]. Formação permanente a partir de prioridades que vão ao encontro da Iniciação Cristã é necessidade. O rosto da Diocese ou Paróquia fica comprometido positiva ou negativamente no tocante ao apoio que dermos aos catequistas que exercem seu ministério com disponibilidade e espírito eclesial.
 
Desde a gênese das comunidades cristãs havia claro esse sentido de pertença ao Ressuscitado seja através da caminhada comunitária, a fé e o encontro em nome de Cristo, atualização missionária do evento pascal, os sacramentos que aos poucos foram tomando corpo e sendo organizados com a conotação teológica e na mudança de mentalidade. Sobre esses assuntos temos um valioso escrito do primeiro século do cristianismo: Didaqué ou Instrução dos Doze (espécie de manual dos catecúmenos com obrigações morais e sociais). Surge com o avanço das viagens apostólicas.
 
A expansão do cristianismo logo após o Pentecostes faz com que os novos cristãos entrem em contato com as várias culturas até mesmo de origem pagãs. Vemos a partir daqui a missionariedade como elemento constitutivo da adesão a Cristo. A caminhada desses novos cristãos, em muitos, gera contentamento e esperança de uma nova história que os chama à salvação integral (At, 2,47). Não sem dificuldades e oposições, a comunidade foi crescendo e se fortalecendo para ser esse elo: Deus que se manifestou em Jesus Cristo e as pessoas convidadas a darem continuidade ao projeto salvífico em suas vidas entregues até mesmo ao martírio.
 
No segundo século surge o catecumenato que se entende por uma proposta que tenta levar a pessoa a fazer parte da comunidade cristã seja através do recebimento dos sacramentos da Iniciação Cristã com suas exigências próprias; formação adequada no sentido de maturar as motivações do candidato(a) aos sacramentos. Esse itinerário acontece segundo práticas litúrgico-rituais para direcionar na celebração e na vida o que irão abraçar durante esse percurso formativo.[6] É verdade que as nomenclaturas Iniciação Cristã e Catecumenato eram tomadas praticamente com o mesmo sentido. Porém Iniciação Cristã é todo itinerário que a pessoa faz ao participar ativamente das etapas e tempos propostos (pré-catecumenato, catecumenato, purificação, iluminação e a mistagogia). Todo esse percurso tem por objetivo: “... vão sendo desenvolvidos paulatinamente, ou seja, o que falta a eles na caminhada cristã, Deus vem ajudá-los por intermédio de sua graça transformadora. São acompanhados, instruídos e engajados na comunidade, tornando-se também multiplicadores dessa beleza de serem convertidos ao Senhor da vida”[7]. Já o Catecumenato diz respeito ao 2º tempo, de intensa catequese e contato do catecúmeno com sua comunidade. É importante dizer: “Por ser uma iniciativa da Igreja e para toda a Igreja o catecumenato não se restringe ao âmbito de algum grupo, movimento ou pastoral”. [8] O que devemos fazer é implementar esse modelo catecumenal o quanto antes. O itinerário proposto deve despertar o compromisso na comunidade de fé bem como o engajamento nas pastorais.
 
Devemos tomar como exemplo o contexto eclesial e o engajamento de todos para, juntos, ser expressão da Igreja. O RICA orienta: “A fiel observância do que está prescrito neste Ritual e o conveniente aproveitamento, com criatividade e senso pastoral, das várias opções e alternativas oferecidas hão de levar a própria comunidade eclesial a redescobrir a riqueza admirável dos Sacramentos da Iniciação Cristã”. [9] A maneira de celebrar não dispensa a inclusão prudente e dinâmica litúrgica para tornar mais agradável e frutuosa a participação dos adultos, porém sempre resguardando o aval do Bispo Diocesano para que seja feito por toda Igreja particular em espírito de laboração e concretização em comum.
 
[1] BENTO XVI, Papa. Carta Encíclica: Deus Caritas Est. São Paulo-SP: Paulinas, 2006, n° 15.
[2] Segundo o Código de Direito Canônico adulto é “o que se prescreve nos cânones acerca do batismo dos adultos aplica-se a todos os que chegaram ao uso da razão, ultrapassada a infância”. (Cân. 852 §1). “O menor, antes dos sete anos completos, chama-se criança e é considerado não senhor de si; completados, porém, os sete anos, presume-se que tenha o uso da razão”. (Cân. 97§2).
[3] Cf. DOCUMENTO DE APARECIDA: Texto conclusivo da V Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano e do Caribe. Aparecida-SP: Paulinas, 2007, n° 299.
[4] RICA, n° 49; 51; 52; 53; 54; 55; 56; 57; 58; 59; 60; 61 e 62.
[5] LELO, Antônio Francisco. A Iniciação Cristã: catecumenato, dinâmica sacramental e testemunho. São Paulo: Paulinas, 2005, p. 192.
[6] Cf. LIMA, Luiz Alves de. A Iniciação Cristã ontem e hoje - História e documentação atual sobre a iniciação Cristã. In: Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética / CNBB. 3ª Semana Brasileira de Catequese – Iniciação à Vida Cristã. Brasília-DF: Edições CNBB, 2010, p. 64. 
[7] ALVES, Gilberto Siqueira, OFMCap. A Pedagogia da Iniciação Cristã com Adultos. Teresina-PI: Nova Aliança, 2011, p. 65.
[8] Estudos da CNBB, 97: Iniciação à vida cristã: Um processo de inspiração catecumenal. São Paulo: Paulus, 2009, p. 8.
[9] RICA, p. 7. n° 34 e 35.
Frei Gilberto Siqueira Alves, OFMCap.
É Vigário Paroquial na Paróquia de São Benedito – Teresina-PI. Pós-graduado em Docência do Ensino Fund. Méd. e Superior e Pós-graduando em Pedagogia Catequética pela PUC de Goiás. Lançou o livro na área da Iniciação Cristã com o título: A Pedagogia da Iniciação Cristã com Adultos. 
 

 

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