sexta-feira, 26 de julho de 2013

Conhecer o sentimento do outro

           Nossa Igreja, com muita razão, recomenda que tratemos com especial respeito a tradição judaica, com a história que também faz parte da nossa fé cristã. O simples fato de Jesus, Maria, José, João Batista e os primeiros apóstolos serem judeus já seria um bom motivo de reflexão. Temos documentos oficiais que chamam os judeus de “irmãos mais velhos na fé”. Assim, em nome dessa história, a catequese teria um bom terreno inicial para educar na direção do diálogo inter-religioso. Participamos da mesma história, é verdade. Seguimos o Mestre Jesus, que era judeu. Mas construímos uma estrada própria e nos transformamos num grupo com um modo diferente de expressar a fé. Isso significa que, mesmo se temos em comum grande parte da Escritura, precisamos ter alguns cuidados ao tratar do judaísmo, para não ferir os sentimentos desses nossos “irmãos mais velhos”.
            Participei de alguns encontros de diálogo católico-judaico promovidos pela CNBB. Aí percebi que, mesmo tendo a mesma origem primordial, as duas tradições religiosas não se conhecem o suficiente para haver segurança no modo de orientar o convívio. Na dúvida, sempre perguntava a algum rabino presente se este ou aquele modo de apresentar a reflexão estava adequado ou se gerava para eles algum tipo de desconforto.  Percebi que, se queria conhecer o judaísmo, livros escritos pelos próprios judeus seriam melhores do que livros escritos por outros sobre os judeus. Para falar dos sentimentos e crenças religiosas de um grupo – qualquer que seja ele – as melhores pessoas são as que vivenciam aquele tipo de fé.
Percebemos isso com facilidade quando alguém fala mal de nós porque está interpretando o que fazemos de um modo que não corresponde aos nossos verdadeiros sentimentos. É o que acontece, por exemplo, quando alguém chama de idolatria o nosso costume de usar imagens na igreja. Ficamos desgostosos porque nos entenderam mal, tentamos explicar, mas em geral a conversa já fica estragada se começar desse jeito. Mas também podemos estar fazendo algo parecido quando nos referimos a outros cristãos ou a pessoas de outra religião a partir de rótulos que nos foram apresentados, sem conhecer os reais fundamentos do comportamento religioso das pessoas envolvidas.
A experiência me tem mostrado que o melhor é perguntar a alguém do grupo em questão como é que esse ou aquele tema é visto na sua comunidade de fé, como é que eles gostam de ser tratados e como querem que sejam entendidas as suas práticas e suas concepções religiosas. Isso tem duas vantagens: em primeiro lugar, impede que façamos, até sem querer, algo que ofende o outro; em segundo lugar, predispõe o interlocutor a tratar da mesma forma a nossa postura católica. A conversa se torna uma amigável e frutífera troca de informações em vez de ser uma briga, mesmo disfarçada.
Numa sociedade como a nossa, com múltiplas identidades religiosas, é importante que a catequese prepare para esse tipo de diálogo. Para isso, precisa comunicar aos catequizandos em primeiro lugar a postura da nossa própria Igreja em relação ao ecumenismo e ao diálogo inter-religioso, mostrando que queremos entendimento mútuo em vez de confronto permeado de acusações. Mas, como perguntas de um lado levam a perguntas do outro, é preciso também dar segurança a respeito das motivações de nossas práticas católicas, para que as explicações necessárias possam ser dadas com aquela segurança tranqüila que não coloca as pessoas em postura defensiva. Assim conviveremos melhor e, respeitando o sentimento religioso do outro, estaremos ensinando, do modo convincente, o respeito que a nossa fé católica merece.
 
Therezinha Cruz

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