sexta-feira, 26 de abril de 2013

Catequese, Protagonismo Indígena e Inculturação


Na cidade maravilhosa de Manaus estão reunidos indígenas e não indígenas, vindos de diversos lugares de nosso querido Brasil! São pessoas especiais, amadas por Deus. São amantes da vida, das histórias e sonhadores de uma nova vida. Quem não é indígena, deixa-me dizer, não fique com ciúme. Ser indígena é ser uma pessoa especial. Indígenas tão bonitos, elegantes e maravilhosos como nós, tornam o mundo mais bonito.vPovos indígenas são ricos de carinho e amor.
Nossas aparências e os nossos corações são indígenas. Nossas culturas são riquezas, são dons de Deus para nós e para o mundo. Nossas culturas foram construídas com carinho pelos nossos avós. O Criador-Grande-Deus colocou nos corações indígenas o amor,
A sabedoria e inteligência para criarmos coisas novas.  Amigos e amigas indígenas, Jesus conta conosco para sua Missão.
Ele não quer trabalhar sozinho, quer trabalhar conosco, pois Ele é indígena também.  Ele aposta nas nossas qualidades e capacidades.  Por isso, ele disse: vão pelo Brasil inteiro e anunciem a Boa Nova, a todos os povos. Viagem de canoa, de voadeira, de carro, de jumento e até mesmo a pé.  Ele disse: anunciem a partir de suas culturas e suas línguas. Jesus é a energia que corre no sangue dos catequistas, padres, irmãs, bispos.
Com Jesus tornamo-nos homens e mulheres corajosos e santos. Com Jesus tornamo-nos pessoas iluminadas e de muitas forças. Aqui nesse lugar alegres cantamos com nossas línguas e dançamos com nossos ritmos.
 
Somos protagonistas na catequese e inculturação do jeito como compreendemos até o momento. Mas compreendendo mais faremos melhor e de outro jeito. Ser protagonista significa estar movido pela alegria.  Alegria que nos faz vibrar pela vida, pelos nossos trabalhos. Que bonito foi o dia de hoje!  Como bons indígenas partilhamos nossos trabalhos, contamos coisas engraçadas. Transmitimos a mensagem de forma simples do jeito como Jesus faria. Nós entendemos cada mensagem transmitida e achamos graça à vontade. Os nossos bispos também estão no meio de nós, com muita simplicidade, e nem dá para saber que são bispos. Eles querem aprender, sonhar conosco de maneira indígena. Eles são os nossos avôs, nossos pais, nossos irmãos maiores, são os pajés, xamãs...
 
Nossos assessores tão simples, mas muito sábios nos ajudaram a entender as histórias do passado e do presente.  Eles são pesquisadores e nos ensinaram que o Passado é a nossa Memória, não podemos abandoná-lo, pois nos ensina muitas lições de vida para o presente.  O presente é Dom de Deus, devemos vivê-lo intensamente, com alegria. O futuro é Mistério e para lá nós sonhamos vidas melhores. Catequese é valorização da vida, é viver a vida como ela merece ser vivida.  Nós somos seres históricos, seres em construção. No passado tivemos muitas histórias sofridas e muitas histórias bonitas que nos dão alegria. Agora nós somos protagonistas de nossas histórias atuais.
 
Para cada um de nós e para cada comunidade cabe a Missão de  construir histórias bonitas. Hoje perguntemos: o que queremos com as nossas vidas indígenas? O que queremos com a catequese? É hora de construirmos histórias novas. Juntos: bispos, padres, irmãs, catequistas e com agentes de pastorais, Juntos: pessoas das pequenas comunidades e  pessoas que vivem nas cidades, Vamos construir histórias bonitas, muitas histórias bonitas. Os milagres das vidas e dos trabalhos já estão acontecendo. Cada indígena que partilhou suas experiências,  Falou a partir de seu coração, de sua emoção, de seus sofrimentos, de suas superações.
 
Alguns indígenas ficaram emocionados, estavam com vontade de derramar lágrimas, mas seguraram e outros estavam com vontade de sorrir à vontade. Nossas vidas ficam bonitas na medida em que vamos conhecendo as pessoas. É importante conhecer, cumprimentar, contar nossas histórias e ouvir as histórias dos outros. Somos indígenas e não indígenas com a mesma vontade, vontade louca, de fazer o bem, fazer bonito em meio aos povos indígenas e com os indígenas! 
 Pe. Justino Sarmento Rezende 

Homilia do 5º. Domingo do Tempo Pascal – Ano C

“Eu vos dou um novo mandamento: amai-vos uns aos outros. Como eu vos amei, assim também vós deveis amar-vos uns aos outros” (Jo 13,34). Jesus nos revela o mandamento novo: a referência do amor é o Cristo, revelador do amor do Pai. A máxima que ordena o amor ao próximo (“amar o próximo como a ti mesmo”) é do Antigo Testamento. A lei de Jesus é amar como Ele amou.
O amor de Jesus é gratuidade. O amor depende de um desprendimento, de um sair de si mesmo, de uma entrega. Jesus se ofereceu por nós, sem olhar nossos merecimentos, sem buscar a própria realização, mas o bem de todos, de todos nós que somos tocados por seu amor. Este é o amor, chamado pelo evangelho de ágape não suprime a dimensão do eros, ou seja, sua dimensão corpórea, material, afetiva. Na verdade todo eros é positivo, desde que seja integrado ao ágape. O Cristianismo não sufoca o eros. Jesus mesmo nos mostrou isso com um amor real, um amor concreto. O amor de Jesus o fazia abraçar, beijar, acolher, enxugar lágrimas...
Se os israelitas esperavam a glória de Deus manifestada em fenômenos extraordinários, fenômenos da natureza que causam medo, espanto e até medo, Jesus vem manifestar a glória em si mesmo: “Agora foi glorificado o filho do homem”. Uma pessoa concreta, Jesus de Nazaré, manifesta a glória do Pai, gradativamente, até dar a própria vida. Nós amamos quando manifestamos o amor nos momentos concretos da vida. Existe amor na doação de uma mãe, no serviço de um líder de pastoral, no consolo dispensado por aquele que é tocado pela compaixão diante do sofrimento alheio, nos casais que se doam mutuamente, no perdão. Nós seremos reconhecidos como discípulos de Jesus pelo amor.
Amar é uma porta aberta ao sofrimento. Amar implica em estar aberto até às ingratidões, porque se ama pessoas concretas. Amar implica em perseverança diante das durezas da vida, dos desafios, dos fracassos. Aqui fazemos eco à exortação de Paulo e Barnabé à comunidade: “É preciso que passemos por muitos sofrimentos para entrar no Reino de Deus” (At 14,22). Jesus, ao morrer, não foi masoquista, mas fez de sua cruz uma oferta de amor.
O sofrimento, porém, não é sem sentido, desde que ele seja um caminho para construir a Nova Jerusalém. Cada lágrima, cada cruz, cada dor e a própria morte ganham sentido quando miramos a eternidade – “o novo Céu a nova terra”.
“Deus enxugará toda lágrima dos seus olhos. A morte não existirá mais e não haverá mais luto, nem choro, nem dor, porque passou o que havia antes” (Ap 21,4). O Senhor não apenas dá sentido a dor que é fruto da entrega, mas acolhe todo sofrimento humano, seja qual for. Mesmo as tristezas mais incompreensíveis como a morte de uma pessoa jovem, um câncer repentino... Ele seca as lágrimas e nos consola com a esperança de um mundo onde a tristeza já não há.
Que as lágrimas de amor se transformem na alegria da abundância que nos espera, no mundo novo que começa já, aqui e agora – o Reino dado por aquele que venceu a morte e ressuscitou dos mortos.
Pe. Roberto Nentwig

O mandamento novo

Toda sociedade, por ser formada de pessoas humanas, necessita de normas e de leis para sua condução, mas o verdadeiro estatuto de comunidade cristã é o amor. Ele deve estar acima de qualquer regra, superando todo tipo de autoritarismo, orgulho próprio e atos de exploração. Quem ama consegue conviver e construir uma cultura de justiça e paz.
O verdadeiro amor chega a ultrapassar os limites humanos e passa a ter dimensão de fé e de esperança. Quem assim age, vive num espaço sagrado, porque é o espaço de Deus. Foi Ele quem nos amou primeiro, dando-nos a capacidade para um amor sobrenatural, acima de um amor apenas no nível humano.
Deus se faz presente onde tudo é feito por amor. Sua presença transforma tudo, porque passa a reinar a verdade e a fraternidade. De forma utópica, podemos dizer que “o mandamento novo” constitui um “novo céu e uma nova terra”, onde as pessoas conseguem viver com dignidade e respeito.
A traição é contra o amor e contra a vida. Foi o que aconteceu com Judas, vendendo Jesus por dinheiro. Negociar a vida, como tem acontecido muito nos últimos tempos, é agir contra o mandamento novo. É ir contra o amor doação e que respeita a liberdade das pessoas no seu próprio ser.
Amar é ter atitude de serviço, de voluntariado e de desprendimento. É como a semente lançada na terra, que se sacrifica e morre para, dali, nascer a vida. Ou como a vela que se consome para iluminar o ambiente. Hoje isto significa “ir contra a maré” da nova cultura e das ideologias capitalistas dominantes.
Temos que lutar por uma nova ordem social, caracterizada pela não exclusão, que leva em conta o respeito aos direitos e deveres dos cidadãos. A preocupação maior deve ser o servir e não o ser servido. As dificuldades não devem ser motivo de queda e desânimo. Por isto não podemos agir com superficialidade, sem compromisso real com a vida. É necessário fidelidade ao mandamento novo do amor.
Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

III Seminário de Catequese Indígena


Acontecerá entre os dias 25 e 27 de abril de 2013 em Manaus-AM, o III Seminário de Catequese Indígena com o tema Catequese, protagonismo indígena e inculturação. O seminário se caracterizar por debates, diálogos e outras formas de interação. Por isso a proposta de poucas conferências e 6 oficinas. O III Seminário deseja escutar muito os próprios indígenas.

Local:
Endereço do III Seminário de Catequese Indígena
Centro de Treinamento MAROMBA – Seminário São José
Rua Juará, S/Nº - Bairro: Chapada
Próximo ao Shopping Millennium
Contatos: Rose - 3212 9029/ 9602 0288/ 9215 9060 

segunda-feira, 22 de abril de 2013

E Ele continua soprando... QUEM TEM OUVIDOS, OUÇA!



Essa postagem não traz nada de novo, aliás, o Espírito Santo, não nos sopra novas orientações, ele insiste num mesmo caminho para FORMAR nossos cristãos.. Reflitamos sobre esses três parágrafos, datadas em tempos diferentes. Conforme Jesus falava aos seus e a nós também: QUEM TEM OUVIDOS, OUÇA. (Imaculada Cintra- Catequista)


1965... AD GENTES nº 14: “Aqueles que receberam de Deus por meio da Igreja a fé em Cristo , sejam admitidos ao catecumenato, mediante a celebração de cerimônias litúrgicas; o catecumenato não é mera exposição de dogmas e preceitos, mas uma formação e uma aprendizagem de toda a vida cristã; prolongada de modo conveniente, por cujo meio os discípulos se unem com Cristo, seu mestre. 
Por conseguinte, sejam os catecúmenos convenientemente iniciados no mistério da salvação, na prática dos costumes evangélicos, e com ritos sagrados, a celebrar em tempo sucessivos, sejam introduzidos na vida da fé, da liturgia e da caridade do Povo de Deus.
Em seguida, libertos do poder das trevas pelos sacramentos da iniciação cristã , mortos com Cristo e com Ele sepultados e ressuscitados recebem o Espírito de adoção de filhos e celebram com todo o Povo de Deus o memorial da morte e ressurreição do Senhor.” 

2007... DA n° 293: "A paróquia precisa ser o lugar onde se assegure a iniciação cristã e terá como tarefas irrenunciáveis: iniciar na vida cristã os adultos batizados e não suficientemente evangelizados; educar na fé as crianças batizadas em processo que as levem a completar sua iniciação cristã; iniciar os não batizados que, havendo escutado o querigma, querem abraçar a fé. Nessa tarefa, o estudo e assimilação do Ritual de Iniciação Cristã de Adultos é referência necessária e apoio seguro." 

2013... 51ª Assembleia Geral dos Bispos, em Aparecida...
Um dos desafios citados:
8) Não se descuide da transmissão da fé (católica), a partir de um processo contínuo de iniciação cristã (catecumenato) e formação catequética e doutrinal em todos os âmbitos e para todas as idades. 


sexta-feira, 19 de abril de 2013

4º. Domingo do Tempo Pascal – C


Podemos chamar este dia de domingo do Bom Pastor. O Evangelho nos remete a um dos salmos mais conhecidos, o Salmo 23: “O Senhor é o meu pastor, nada me faltará. Em verdes prados me faz repousar. Conduz-me junto às águas refrescantes...” Devemos hoje contemplar e alimentar o nosso coração com esta imagem: somos pequenas ovelhinhas nas mãos do Pastor. Ele nos dá proteção e segurança.

No tempo de Jesus, no fim da tarde, os pastores reuniam as ovelhas em um local para passar a noite. De manhã, ao grito do pastor, todas as ovelhas se juntavam, seguindo uma voz de comando, uma espécie de senha que realizava de modo automático a comunhão do rebanho. É neste contexto que devemos entender as palavras do Evangelho: “As minhas ovelhas escutam a minha voz, eu as conheço e elas me seguem” (Jo 10, 27).

As ovelhas tem uma intimidade com o seu pastor, por isso, sua voz é ouvida e seguida. Quando duas pessoas se amam, a voz tem um poder que cria uma reação espontânea. Portanto, escutar a Palavra é algo muito mais profundo do que ler a Bíblia e entender a sua mensagem, é antes de tudo, um vínculo de amor e de seguimento.

A Palavra do Pastor é o que faz a coesão do rebanho. Aqui fica evidente o significado do termo igreja (vem de ekklesia = povo convocado). É a Palavra que convoca o Povo de Deus e é pela Palavra que somos constituímos cristãos, discípulos. Por isso, é necessária a escuta atenta à Palavra, para que o nosso coração seja fortalecido e para que saibamos quais são os caminhos que devemos andar. Além da Missa, a leitura orante da Sagrada Escritura é uma ótima oportunidade para que tenhamos intimidade com a Palavra de Deus: a melhor escuta é aquela realizada no silêncio do coração em atitude orante, na abertura do Espírito.

As ovelhas conhecem a voz do Pastor. No Evangelho de João, o verbo conhecer tem uma conotação existencial: quem conhece está em comunhão, comprometido, teve em sua vida uma mudança motivada pela fé. Portanto, escutar a voz do Pastor e conhecer este mesma voz são duas ações que se complementam. O que o Bom Pastor nos pede hoje?

As ovelhas são um povo perseguido, a sua marca é a fidelidade mesmo diante das perseguições. Na 1ª Leitura, Paulo e Barnabé foram para Antioquia da Pisídia e começaram a evangelizar. Como os judeus, na sua maioria, não quiseram dar ouvidos à Boa Nova, os apóstolos começaram a pregar para os gentios. Foram expulsos da região dos judeus, mas continuaram a missão, não se deixaram esmorecer. Na 2ª Leitura, vemos uma multidão que alvejou as suas vestes no sangue do Cordeiro. Trata-se da Igreja perseguida por Domiciano, imperador romano. Esta multidão com vestes de sangue representam também todos os cristãos que deram a sua vida em nome do Senhor ou que sentiram as dores que advém da opção pela proposta de Jesus.

Diante das ameaças, o Senhor não nos abandona, pois prometeu que estaria conosco: “E Deus enxugará as lágrimas de seus olhos” (Ap 7,17).  O Bom Pastor não nos deixará sucumbir em meio a dor. Devemos seguir o caminho, mesmo que por vezes, vivamos em um vale de lágrimas, como se reza na Salve Rainha. Deus enxuga cada lágrima, ele se preocupa com a nossa dor, com a nossa tristeza, com a perseguição de suas ovelhas. Recebamos o consolo do Pastor que nos abraça.

Pe Roberto Nentwig

terça-feira, 16 de abril de 2013

Assembleia Geral



Acontece, em Aparecida, SP, a 51ª Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), de 10 a 19 de abril de 2013, com a presença de mais de 300 arcebispos e bispos de todo o Brasil. A preocupação principal é voltada para a pastoral, com especial destaque, o dinamismo das nossas arquidioceses e dioceses.

O tema central, fundamentado nos imperativos e pedidos do Documento de Aparecida, é a “Comunidade de Comunidades, uma nova Paróquia”. Foi apresentado um texto, com mais de 70 páginas, preparado por uma equipe de trabalho, para que fosse lido, refletido, avaliado, com apresentação de intervenções e discussão em grupos.

Sentimos que nosso exercício pastoral precisa ser mais dinâmico, mais atuante e acolhedor. Para isto é fundamental a superação de uma realidade apenas de conservação e manutenção de estruturas que, nas realidades atuais, não ajudam mais. A mudança rápida da história e da cultura provoca a pastoral da Igreja no sentido de ser mais pertinente na sua missão de evangelizar.

Foi muito positiva a análise de conjuntura apresentada, tendo como ponto de partida o censo demográfico de 2010, mostrando a situação da religião dos últimos tempos no Brasil. Torna-se preocupante para as Igrejas tradicionais o constante crescimento das seitas, criando inclusive uma insegurança de fé na vida de muita gente, especialmente daqueles de pouca formação cristã.

Outros dois assuntos ganharam grande destaque no transcurso da Assembleia. Um deles é sobre a área da comunicação na Igreja do Brasil. O outro trata da questão agrária no século XXI em nosso país. Ambos foram colocados à apreciação dos bispos, com reflexões e apresentação de significativas sugestões de melhoria nos textos.

Esta Assembleia é órgão maior da CNBB. Ela constitui uma expressão muito forte de unidade no episcopado. É momento de convivência, de troca de experiências e de fortalecimento no caminho pastoral. Na verdade cria, em todo o Brasil, uma linguagem comum, porque as preocupações passam a fazer parte da vida de cada bispo. Isto ajuda, inclusive, nas ajudas mútuas. 

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Homilia do 3º Domingo da Páscoa – Ano C

Na força do Ressuscitado, a Igreja iniciou o seu trabalho evangelizador como nos testemunha o livro dos Atos dos Apóstolos. Duas são as reações provocadas: empatia e hostilidade. De um lado, os cristãos eram estimados por todos (At 4,33) pois não proclamavam uma verdade teórica, mas um novo modo de viver (At 5,20). Por outro lado, os cristãos eram perseguidos, porque falavam em nome do Senhor Jesus.
Hoje, ainda percebemos esta dupla reação. Mas é preciso ter clareza de que o mais importante é o testemunho, não as palavras. É preciso também reconhecer os limites dos cristãos, que pela falta de testemunho criam barreiras para que o mundo se encante pelo Evangelho. No caso da Igreja como instituição, é preciso um constante exame de consciência, reconhecendo que a igreja está em contínua reforma - Ecclesia semper reformanda.
No Evangelho, vemos que os discípulos ainda não haviam se deixado tocar totalmente pela força do Ressuscitado. Estavam em um estágio bem diferente daquele relatado na primeira leitura, ou seja, sem vitalidade. Mesmo tendo visto o Senhor, voltaram às atividades cotidianas. Além disso, realizavam um trabalho vão, pois não pescaram nada.
A presença de Cristo causou uma transformação, iniciada com uma provocação de fé: “joguem a rede do lado direito!” Deviam confiar, abrindo-se para a graça da fé, obedecer mesmo quando parecia improvável. Jogaram a rede do lado direito, que simboliza o lado das bênçãos, dos escolhidos (lá é o lugar dos benditos do Pai: cf. Mt 25), o lado da consciência, do sentido da vida. Devem, com esta atitude, lembrar que são escolhidos e agraciados, tendo consciência do sentido que o Senhor Ressuscitado traz para suas vidas. Devem deixar o estado de marasmo, abandonar a tristeza e abraçar a alegria, o sentido da vida e da missão. Agora a barca da Igreja vai pescar, e em sua rede caberá todos os tipos de peixes, simbolizados pelo número 153.
O maior milagre, no entanto, não foi a pesca. Mais importante foi a transformação de vida operada nos discípulos. Mais ainda a transformação de Pedro: de negador e temeroso em apóstolo do amor. Permitiu que a omissão e um coração vacilante se convertessem em amor ao Mestre: “Sim, Senhor, tu sabes tudo, tu sabes que eu te amo”.
Hoje a Palavra de Deus nos convida a uma transformação. As dificuldades (perseguições) devem se tornar alegria, à exemplo dos apóstolos ao saírem do Sinédrio, como nos diz o Salmo: “transformastes o meu pranto em uma festa” (Sl 29,12). Devemos transformar nosso coração temeroso e sem vitalidade em um coração cheio de vida, tocado pelo dinamismo do Ressuscitado. Para tanto, será necessário encher a vida de amor como Pedro o fez. Nosso apóstolo não fez uma confissão de fé como Tomé, mas uma confissão de amor que o tornou apto para conduzir a Igreja primitiva: “Sim, Senhor, tu sabes que eu te amo”.
 
Pe. Roberto Nentwig

Foco da Páscoa


Além de expressar o sentido de “passagem”, a Páscoa vem confirmar também o itinerário de toda mensagem cristã, isto é, a centralidade do Reino de Deus. Isto aparece na vida e nas palavras de Jesus, naquilo que é testemunhado pelos apóstolos e pelos prodígios na história bi-milenar da era cristã, mesmo convivendo com forças contrárias e destruidoras do bem.

Todo bem realizado, em vista da liberdade e na defesa da dignidade das pessoas, está fundamentado nos objetivos do Reino. É ser diferente de atitudes egoístas, mas fruto de prática do amor, próprio do cristão no seguimento de Jesus Cristo. Diz a bíblia que até um copo de água dado ao outro, “por ser de Cristo” (Mc 9, 41), será recompensado.

Temos muitas oportunidades para fazer o bem. Até as atitudes de educação, de respeito ao outro, à natureza, ao bem público, às práticas de honestidade, são expressões do bem. Jogar lixo na rua, estragar as plantas do jardim público, deixar água parada no quintal reproduzindo mosquito da dengue, tudo isto é deixar de fazer o bem.

Sem a presença pascal de Cristo ressuscitado, muitos dos nossos atos se tornam estéreis. Ao lançar a rede de novo, os pescadores “pegaram 153 grandes peixes” (Jo 21, 11), fruto da fecundidade da palavra de Cristo. Ouvir e seguir a Palavra de Deus qualifica e dá dimensão de fertilidade em nossas atividades. Os frutos são muito mais abrangentes.

O destino da história é o Reino de Deus. Reino que deve começar hoje, tendo sua plenitude na eternidade. Não tem como dimensionar este mistério, que tem sua luz e foco na páscoa de Jesus Cristo. É o que alimenta nossa fé, provoca a caridade e motiva nossa esperança. Sem isto não conseguimos uma felicidade duradoura.

No mundo de sofrimentos e tribulações, com muita facilidade perdemos os estímulos, principalmente a esperança, essencial para o equilíbrio emocional e cristão. A Páscoa deve ser momento de renovação de forças e de compromissos mais sérios para com a vida e suas exigências.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Encontro das Comissões Episcopais do Cone Sul de Animação Bíblico-Catequética



A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) está participando do Encontro dos Responsáveis das Comissões Episcopais de Animação Bíblico-Catequética das Conferências Episcopais do Cone Sul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai, Chile e Celam).

O encontro acontece em Buenos Aires (Argentina) entre os dias 5 e 10 deste mês. A CNBB é representada pelo assessor da Comissão de Animação Bíblico-Catequética Pe Décio José Walker.

Homilia do 2º. Domingo da Páscoa – Ano C


A experiência do Ressuscitado tem uma forte relação com o primeiro dia da semana – o domingo. No AT, o tempo semanal traz a opressão por parte daqueles que o controlam, já o sétimo dia traz a experiência de libertação para aqueles que experimentam a presença de Deus que vence os dias de trabalho escravo. Nele há a celebração de antecipação, que rompe com o curso do trabalho semanal, indicando que o ser humano não é criado para se preocupar com as coisas do mundo, mas espera o dia de comunhão com todos em Deus, tempo de paz e de júbilo. Se o sábado era o último dia (que abria o tempo da ação divina na história), agora o domingo é o primeiro dia, ou seja, o dia do início – o início da nova criação. Neste dia acontece a nova criação por obra do sopro do Espírito. Se o hálito de Deus plasmou a criação, agora o hálito do Cristo nos faz novas criaturas animadas pela graça do seu Espírito (=sopro). Quando a comunidade repousa e celebra no dia do Senhor, resgata o tempo original, o tempo da nova criação e da ressurreição - a eternidade, pois Cristo o alfa e o ômega. Celebra-se a vida nova no dia da ressurreição, lembrando que todos são criados para participar da vida em Deus e que as ocupações deste mundo são passageiras. O domingo prefigura o tempo eterno, o dia da ressurreição. O mundo moderno paganizou o domingo, considerado como dia de descanso para recobrar as forças para o trabalho semanal. O domingo não pode ser instrumentalizado pelo trabalho, pois é o dia que prefigura o descanso eterno que Deus preparou no seu amor.

Neste dia de graça, os discípulos estão de portas fechadas por medo dos judeus. Esta barreira não detém o Cristo, pois o Ressuscitado transpõe todas as barreiras. Deseja transpor nossos medos, dando-nos nova esperança. Por isso Ele nos concede o dom da paz: “A paz esteja convosco!” Lembrando que a paz no mundo hebraico é o shalom, ou seja, a alegria da plenitude dos tempos messiânicos, a plenitude de vida, de graça e salvação. É muito superior ao que entendemos por paz na língua portuguesa. Esta é a paz que o Senhor nos traz neste Tempo Pascal.

Outra graça, que Cristo oferece neste domingo é o perdão dos pecados. A Páscoa tem uma relação íntima com a reconciliação, pois viver a misericórdia e morrer para o pecado e viver vida nova em Cristo. Por isso, é o Ressuscitado que dá a comunidade o ministério da reconciliação. Os apóstolos podem perdoar os pecados ou retê-los, ou seja, podem dar um tempo para que haja uma verdadeira conversão. Não significa que os apóstolos possam instrumentalizar o perdão. O Cristo não daria uma ordem para que não houvesse nova chance para aquele que deseja de coração sincero a reconciliação com Deus. A Igreja é a mediadora da misericórdia pelo sacramento da reconciliação.

Por fim, temos a figura de Tomé, o símbolo da comunidade que não viu o Jesus histórico, nem o Cristo ressuscitado. Talvez houvesse disputas entre aqueles que foram testemunhas do Ressuscitado e aqueles que passaram a fazer parte da comunidade mais tardiamente. Há uma grande preocupação da pregação apostólica em mostrar que o que estava sendo anunciado não era um fato do passado, mas que o Cristo continua vivo e realizando sinais (primeira leitura) e que podemos fazer a mesma experiência dos apóstolos. Por isso a única bem aventurança do Evangelho de João: “Felizes os que acreditam sem terem visto!” Felizes os que são capazes de ver a presença do Ressuscitado na palavra que é proclamada, no Pão e Vinho consagrados, na comunidade reunida... Só se pode fazer a experiência do Ressuscitado estando na comunidade, longe dela não é possível.

Cada um de nós pode fazer a experiência do primeiro dia da semana, receber o Espírito, receber o perdão dos pecados, o shalom do Cristo, reunidos em comunidade para celebrar e alimentar a vida. Não sejamos incrédulos diante dos sinais que o Senhor continua nos dando.

Pe Roberto Nentwig

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