quinta-feira, 7 de março de 2013

Homilia do 4º. Domingo da Quaresma – C O Pai misericordioso


A famosa parábola do filho pródigo é sempre atual e comovente. No tempo da Quaresma, somos convidados a participar do ministério da reconciliação: “Deixai-vos reconciliar com Deus”.
O verdadeiro nome da história contada por Jesus deveria ser Parábola do Pai misericordioso, embora muitas vezes preferimos Parábola do filho pródigo. De fato, a centralidade não deve estar no pecador que se converte, mas no Pai que ama de modo incondicional. O Pai ama aquele que gasta parte considerável de seus bens, ama e perdoa, sem se importar com a conduta do filho. O pai misericordioso ama o filho mais velho, mesmo sendo rabugento. Ama todos, independente dos pecados.

Cristo nos fez seus irmãos e nos revelou a face amorosa do Deus que é Pai. Contudo, não é um pai severo, castigador ou distante, como aqueles pintados nos antigos catecismos. Nas palavras de Henri Nouwen, o Pai da parábola parece ter feições maternas em sua atitude de acolhida. Em sua gratuidade, Deus não ama só os justos, mas veio para os pecadores (cf. Lc 5,31-32). Deixa as noventa e nove ovelhas no aprisco e sai em busca daquela que está perdida (Lc 15,1-7). Deus é um Pai que abre os braços para abraçar e fazer festa com o filho pródigo que voltou para casa, sem perguntar o que ele fez com seus bens. O evangelho de hoje é uma oportunidade para que experimentemos o amor misericordioso e gratuito.

O outro personagem é o filho pecador. Este tinha a experiência do Pai da lei e da justiça, não do Pai da misericórdia. Sua fuga é uma tentativa frustrada de felicidade. O pecado é sempre uma busca, uma procura por acerto. Como consequência perde tudo, afasta-se do amor, da casa paterna. O que lhe resta são as sobras, a dureza da vida, a falta de amor. Caindo em si, arrepende-se. Ainda não pensa nas lágrimas de seu pai, mas na sua dura situação da sua vida. Seu retorno possibilita a manifestação do amor do Pai, que se adianta para abraçar o filho, não pergunta sobre o que fez, simplesmente devolve-lhe tudo: dignidade (dá-lhe roupa nova, calçado), filiação (anel no dedo) e acolhida (festa com o novilho).

O filho mais velho nos traz lições preciosas. Aliás, ele é fundamental na parábola, tendo em vista que Jesus está diante dos fariseus e escribas que questionam o fato de Jesus se aproximar dos publicados. Ou seja, Jesus questionou a atitude daqueles que condenavam os pecadores julgando-se santos. É ilustrativo mencionar que o filho pródigo da parábola de Jesus experimentou o amor do Pai, enquanto o filho mais velho, que sempre esteve em casa, reclamou seu lugar diante da alegria manifesta pelo filho que voltou. É mais fácil nos tornarmos os filhos mais velhos do que filhos pródigos. Não é raro encontrarmos pessoas que se consideram religiosas porque vivem certas práticas, mas vivem amargas; são incapazes de desfrutar da alegria como dom de Deus. Jesus sempre criticou a atitude farisaica daqueles que se consideravam os justos.

Assim, é preciso eliminar o julgamento, alegrar-se com aqueles que estão em busca do Senhor mesmo que ainda não tenham deixado certas atitudes. É preciso acolher os novos na comunidade em seu entusiasmo e não julgarmos aqueles que são considerados, até por nossos cânones, como pecadores públicos. Aquele que nunca fez festa com o pai, não compreende a festa do filho mais novo que reconheceu a grandeza da misericórdia de Deus. Também aqueles que nunca saem da Igreja devem estar atentos para não deixar de desfrutar da festa de Deus, da alegria de ser cristão, desprezando aqueles que experimentam o Deus de amor e bondade. Certamente, muitos de nós se sentem morando na casa paterna, mas com a mesma atitude soberba do filho mais velho.

A experiência cristã inclui considerar-se pecador, sempre necessitado da misericórdia. Significa não se achar santo, julgando os demais, mas abrir-se ao amor gratuito do Pai. Nosso Deus é o Pai da Parábola da misericórdia? Como está nossa atitude diante do Deus da graça: somos cumpridores da lei ou participantes da festa? Em que lugar nos encontramos? Existe em nossa vida marcas do filho pródigo? Existem também marcas do filho mais velho?

Pe. Roberto Nentwig

Um comentário:

  1. Li o texto com carinho. Sou um apaixonado por este texto e sobretudo pela expressão que foi usada no texto: o destaque não é o pecador e sim o rosto misericordioso do Pai. Compreender um Deus misericordioso, porém justo, muda completamente nosso modo de nos dirigirmos a Ele. "O que quero é Misericórdia e não sacrifícios" Pe. Vilmar Moretti

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