sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

A partilha que é boa para todos


Ao trabalhar com a Bíblia, é interessante ajudar a perceber que os milagres (os de Jesus, os dos profetas, nos dois Testamentos) devem ser vistos mais a partir do seu aspecto pedagógico do que por uma abordagem sensacionalista. O bom na reflexão sobre o milagre não é ficar só pensando: Mas que coisa fantástica! Que grande poder está manifestado aqui! Melhor seria se perguntar: o que é que Deus quer me ensinar com isso? Que tipo de “milagre” Ele quer que eu faça nas ações bem simples da meu viver diário? A partir daí os catequizandos poderiam imaginar como seria aplicada em sua vida a lição de fundo que o milagre quer comunicar. O mesmo valeria, é claro, para diálogos de Jesus e outros episódios. Sempre poderíamos nos perguntar: se Jesus vivesse hoje, com quem ele teria esse tipo de conversa? Que argumentos ligados à realidade de hoje ele usaria?
A multiplicação dos pães é um milagre em que fica bem fácil fazer esse tipo de reflexão. Alguém ofereceu o que tinha e, a partir disso, Jesus alimentou a multidão. Ele não fez aparecer do nada os pães e os peixes. Tudo começou com um primeiro gesto generoso de oferta. E sabemos que, na vida, muitas grandes obras começam com um primeiro aceno, uma primeira decisão em que alguém sai do seu egoísmo fechado para pensar no outro, para construir desinteressadamente algo de bom. Esse desinteresse significa que a pessoa não agiu pensando em obter algum tipo de vantagem.  Mas o empolgante é que, apesar disso ( ou talvez até por causa disso) todos saem ganhando. Afinal, se criamos um ambiente mais feliz e fraterno à nossa volta, nós também vamos usufruir a alegria que daí se origina. Uma catequese que desenvolva bem essa idéia vai transmitir um conceito bem mais atraente sobre as leis de Deus.
Isso me lembra uma parábola que fechava uma reflexão de uma de nossas Campanhas da Fraternidade. Era mais ou menos assim:
            Um príncipe estava em perigo e  foi salvo por três jovens que moravam em aldeias diferentes. Agradecido, deu um saco de sementes quase mágicas, capazes de gerar colheitas incríveis, como presente para cada um. Anos depois, passando pela região, o príncipe resolve visitar os três e ver o efeito de sua dádiva. Os dois primeiros moravam agora em fazendas bem grandes , cheias de guardas e cercas. Os vizinhos tinham se mudado porque não podiam concorrer com as grandes colheitas dos dois, as aldeias estavam quase desertas, sem outros recursos. O terceiro, porém, também morando agora numa fazenda muito próspera, vivia cercado de muito progresso: escolas, boas estradas, hospital, comércio florescente. É que ele tinha dividido suas sementes com os vizinhos e todos prosperaram juntos.
           
Imaginemos agora as diferentes Igrejas cristãs partilhando amigavelmente as “sementes” do trabalho do Reino, construindo juntas a nova sociedade pela qual Jesus nos chamou a trabalhar. Certamente estaríamos todos mais felizes e teríamos conseguido um progresso muito mais gratificante em nossas tarefas missionárias.  Para os de fora, um anúncio feito a partir de brigas internas não convence. Eles ficam pensando: eles estão interessados em prestígio, poder, querem levar vantagem... Mas Igrejas que se comportassem como companheiras na pregação do evangelho estariam, por sua própria atitude, mostrando que levam muito a sério o amor que anunciam. Progredir juntos é muito mais proveitoso e atraente do que avançar derrotando os outros. Além dos recursos que a aldeia do terceiro jovem conquistou, ele também ganhou muito no nível pessoal porque com certeza conquistou um grande número de amigos entre os vizinhos. É desse jeito que Deus nos convida a trabalhar. As “sementes” que ele nos deu são vigorosas o bastante para produzir tudo de bom, mas a produção certamente será muito mais  gratificante se tivermos companheiros em vez de concorrentes.
Podemos fazer isso no campo do ecumenismo? Não haveria aí um risco de desvalorizar a nossa Igreja? A catequese tem que mostrar o valor especial da Igreja Católica, herdeira da mais firme e direta tradição apostólica, é claro. Mas é a nossa Igreja mesmo que nos diz que devemos trabalhar com essa cooperação fraterna. Já estamos comemorando o 50º aniversário do Concílio Vaticano II, em que a Igreja nos disse, em declaração bem oficial: “este Santo Sínodo exorta os fiéis católicos a que, reconhecendo os sinais dos tempos, participem no trabalho ecumênico”. UR 4. Afirmou também: “Este Sacrossanto Sínodo deseja com insistência que as iniciativas dos filhos da Igreja católica se desenvolvam unidas às dos irmãos separados: não se ponham obstáculos aos caminhos da Providência.” UR 24
É uma tarefa delicada, que só pode ser bem desenvolvida por quem ama profundamente a sua Igreja, sabe o quanto ela é responsável pela herança evangélica, conhece bem a nossa doutrina. Só assim se fará ecumenismo sem concessões prejudiciais, sem mistura do tipo “vale tudo”, podendo cada um entrar no diálogo como representante da Igreja e não como alguém que sem identidade religiosa definida. Mas, para isso, temos que contar muito com uma catequese bem conduzida, que dê segurança a quem se coloca em diálogo e quer trabalhar em conjunto onde isso for possível. 

Therezinha Cruz

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