quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

2º. Domingo do Tempo Comum – C


O casamento é uma imagem utilizada pela Bíblia para falar do amor de Deus. Deste modo, expressa algo que é demasiadamente sublime de um modo concreto e simples. Deus ama como um esposo fiel, com um amor ciumento, mas nem sempre conta com a fidelidade de sua esposa. Ele realiza uma aliança de amor, que tantas vezes é quebrada. Ao contrário do seu povo, Deus nunca desiste do seu amor. O Povo, depois do exílio, sente-se escolhido e consolado por Deus; não é mais a esposa abandona, mas a esposa querida, a terra que o Senhor se agradou. No evangelho, Jesus está numa festa de casamento, não apenas para fazer um milagre (chamado de sinal na linguagem Joanina), mas para manifestar a sua glória, o seu plano de amor.

As bodas revelam outro casamento, que será realizado quando chegar a hora. A hora é marcada pela exaltação do Senhor na cruz, quando Ele manifesta a sua entrega por amor. Então, abre-se caminho para as bodas, para a união entre o humano e o divino. A partir da Páscoa, pelo amor, todos nós podemos celebrar as bodas de casamento, que será plena na glória. Somos o Povo escolhido para a festa de matrimônio do Senhor.

As bodas de Caná simbolizam a superação da antiga lei, representada pelas talhas de pedra, que agora dão lugar ao vinho novo. As pedras e a água simbolizam a frieza da antiga lei, que precisa ser superada. É preciso superar o ritualismo, o legalismo, o azedume de um seguimento vazio. Hoje é comum perceber o retorno para fórmulas que já deveriam ser superadas: religião da lei, dos preceitos (do pode e não pode), do dever, das rubricas do missal, da importância das vestes e das pompas, da fuga do mundo, da condenação das expressões culturais e da ciência, do que nos é estranho, e talvez daquilo que desestabilize a nossa segurança. Os cristãos, embebidos do vinho novo, não formam um gueto, uma seita que foge do mundo, mas se unem para ser fermento de transformação a partir do testemunho. Dialoga com tudo o que é mundano e humano e, por isso, também divino.

A água fria das talhas representa tudo o que é velho, frio, opressor, cítrico, sem vida. Transformar a água em vinho significa dar novo sentido à vida. É preciso abandonar as pedras do enrijecimento, da dureza de coração, do julgamento, da agressão, do velho, daquilo que aprisiona. Quais são nossas talhas de pedras, hoje? Deixemos que elas sejam renovadas pelo vinho novo do Senhor.

Se as pedras com água são sinais da tristeza, o vinho (bebida nobre) é o sacramento da festa e da alegria. Quando o vinho acaba, termina a alegria, a festa fica sem sabor. Em nossa vida, muitas vezes o vinho acaba... É o que acontece com as festas da vida: os namoros, os casamentos, as consagrações, as profissões, as escolhas... Começam bem, mas enfrentam crises naturais. O ser humano, um eterno insatisfeito, experimenta sensações de falta de sentido. E aí, não é hora de desistir, mas de transformar a água em vinho, pois o Esposo que nos ama não vai deixar de fazer o sinal. Mas precisamos descobrir esta bebida, muitas vezes escondida no interior de nossos relacionamentos, de nossas experiências, de nossa mística. É preciso não perder a alegria, não perder os sonhos, não perder os ideais. Aí se encontra o vinho novo dado por Jesus. O Senhor nos convida para a embriaguez do vinho novo, para uma festa de vida em liberdade e no amor.

Maria é a intercessora que, por sua ternura, viabiliza junto a Jesus que a festa não perca a sua graça. A mãe de Jesus sempre está presente. A presença de Maria nos torna mais dóceis, mas carinhosos, mais afetivos. Nossa experiência de Deus é mediada pelo carinho de uma mãe. Não podemos deixar isso de lado. E o que ela nos pede? “Fazei tudo o que ele vos disser!” A felicidade está na obediência da Palavra do Esposo.

Quando chegará a sua hora? A hora do Senhor é o momento da manifestação do seu amor. Certamente já chegou a hora de Jesus em muitos momentos de nossa vida. Talvez ignoremos algumas destas horas, deixando de perceber os seus sinais divinos em nossa vida. Deixamos de reconhecer que, em muitas ocasiões, Ele tomou nossas talhas de pedra, tornando-as transbordantes do vinho da festa.

Sua hora foi a cruz, manifestação do amor de Deus. Sua hora definitiva será na Glória, quando haverá o encontro com o Ele: Então “o Espírito e a Esposa dizem: ‘Vem!’ Possa aquele que ouve dizer também: ‘Vem!’”(Ap 22,17a). A resposta do Esposo canta a mesma canção: “Sim! Eu venho depressa!” (Ap 21,20). Por isso, “Felizes o convidados para o Banquete Nupcial do Cordeiro!” Felizes todos aqueles que participarão das núpcias eternas, aqueles que bebem do vinho novo da salvação enquanto esperam a embriague da festa da Eternidade.

Pe. Roberto Nentwig

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