sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

31. A responsabilidade de quem é maior


Penso que uma espiritualidade profunda não se revela só dentro da Igreja ou nos chamados “momentos de oração” (que são certamente indispensáveis). Quem se encontra com Deus de verdade não o deixa de lado quando sai da Igreja, carrega-o consigo em todos os momentos da vida. A catequese precisa cultivar esse tipo de espiritualidade, ajudando as pessoas a analisar tudo em volta a partir de uma intimidade que faz de Deus o companheiro de todos os nossos momentos. É isso que está implícito quando usamos materiais que muitos classificam como “não religiosos”: histórias em quadrinho, cenas de filmes, notícias da TV... Quem conhece pedagogia sabe que o método faz parte do conteúdo, ou seja: comunicamos o que estamos ensinando também pelo modo de ensinar.

Imagine um adolescente vendo o filme do Homem Aranha. O jovem Peter Parker aparece angustiado porque, sendo um superherói, está com sua vida afetiva atrapalhada: não pode deixar que descubram quem ele é porque aí as pessoas que ele ama estariam correndo perigo. Seu tio diz uma frase que vai explicitar o fundamento da questão: “Com grande poder vem grande responsabilidade.”  Quem estiver vendo o filme com Deus e a mensagem bíblica no coração pode lembrar como Jesus disse algo que tem um significado bem semelhante: “A quem muito foi dado muito lhe será pedido.” (Lc 12, 48) Isso não é mistura indevida, é sinal de que a pessoa em questão tem a mensagem bíblica como uma espécie de lente que a ajuda a ver de modo especial tudo que lhe é apresentado.

Essa idéia que junta grandeza, poder, fartura de dons com a idéia de responsabilidade tem uma boa aplicação na questão ecumênica. Muitos católicos ficam decepcionados quando sua Igreja reconhece, por exemplo, a validade do batismo feito em alguma outra Igreja e esse ato não é retribuído (os cristãos dessa Igreja rebatizam os católicos que aderem ao seu grupo). Perguntam por que temos que ser acolhedores com quem nos combate. Afinal, nossa Igreja tem a tradição sólida, a sucessão apostólica, uma história que a qualifica para ser a Igreja universal.  Nossos documentos eclesiais, mesmo quando recomendam uma postura ecumênica de valorização de outras comunidades cristãs, não deixam de lado a situação especial da nossa igreja. É o que podemos ver, por exemplo, nesse trecho do decreto Unitatis Redintegratio que fala de Igrejas e comunidades separadas: “O Espírito Santo não recusa empregá-las como meios de salvação, embora a virtude desses derive da própria plenitude de graça e verdade confiada à Igreja católica” UR 3  

Se possuímos tal “plenitude” – dizem alguns – por que teríamos  que fazer tanta questão de valorizar outras Igrejas? Nossa Igreja é maior, tem mais história, mais sólida tradição, mais nítida sucessão apostólica – e é exatamente por isso que ela tem muito mais responsabilidade na busca da unidade na diversidade. Pode ser feito algum minúsculo progresso ecumênico a partir de uma pequena Igreja organizada há pouco tempo. Mas o mundo não terá um testemunho impactante e eficiente de solidariedade e diálogo sem a presença da nossa Igreja. Nossa catequese precisa preparar para isso porque nossa posição na história do cristianismo gera grande responsabilidade. É como disse Jesus: “A quem muito foi dado, muito será pedido.”  O ecumenismo não é um esquecimento da valorização da nossa Igreja, ela precisa ser ecumênica justamente porque tem uma herança mais importante e é o sinal maior da missão que Jesus nos deixou.

Therezinha Cruz

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