sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

30. Jeitos diversos de enxergar uma questão


A mesma história, contada por mais de uma pessoa, costuma apresentar ênfase em aspectos diversos. Muitas das divergências entre cristãos são  fruto de se ter uma perspectiva diferente ao ver a mesma coisa, destacando ângulos que acabaram se tornando básicos na tradição de cada grupo. Isso muitas vezes fica evidente nos acordos internacionais resultantes de diálogo entre as Igrejas. Foi o que aconteceu quando católicos e luteranos se uniram em 1999 para discutir a questão da justificação pela fé ou pelas obras, que estava no centro do protesto de Lutero. Aí  produziram uma “Declaração Conjunta sobre a Doutrina da Justificação”. O método usado pelas duas Igrejas foi o chamado “consenso diferenciado”, que funciona assim: primeiro os dois grupos afirmam em que estão de acordo sobre um determinado tópico; depois, cada grupo diz o que valoriza mais dentro daquele assunto – e aí aparecem as diferenças. Com isso, o texto ajuda a perceber que há uma crença básica de fundo, vivida com ênfases diferentes e, com isso, facilita o caminho para futuros diálogos.

Esse tipo de acordo acontece quando as duas partes de fato querem se ver como caminhantes na direção de um objetivo comum. O objetivo é  a grande motivação, algo que permite a caminhada em conjunto, mesmo se cada um vê a paisagem a seu jeito. Não há mistura, desvalorização da própria identidade, salada de idéias (isso seria um desastre!), o que há é um companheirismo respeitoso, que reconhece que há diferenças importantes mas que também é possível um certo tipo de cooperação em algumas áreas.  É desse jeito que queremos viver o ecumenismo. Se as diferentes Igrejas cristãs se entendessem fraternalmente poderiam colaborar umas com as outras e oferecer ao mundo um panorama mais amplo do cristianismo. 

O livro “Cruzando o limiar da esperança” traz uma bela coleção de respostas dadas pelo papa João Paulo II às perguntas feitas pelo organizador do texto. Uma dessas perguntas  era: Por que o Espírito Santo teria permitido as divisões entre os seguidores de Cristo?  O papa diz que haveria duas respostas possíveis. “Uma, mais negativa, vê nas divisões o fruto amargo dos pecados dos cristãos. A outra, pelo contrário, mais positiva, é gerada pela confiança Naquele que tira o bem até mesmo do mal, das fraquezas humanas: por isso não poderia ser que as divisões tenham sido também um caminho que levou e leva a Igreja a descobrir as múltiplas riquezas contidas no Evangelho e na redenção operada por Cristo? Talvez tais riquezas não pudessem vir à luz de maneira diferente...” Quando li isso fiquei imaginando que a unidade final seria como um encontro de caminhantes que, tendo começado no mesmo ponto, acabaram chegando ao mesmo destino tendo percorrido estradas um pouco diferentes: todos poderiam partilhar as descobertas e paisagens do caminho que cada um seguiu. João Paulo II diz também, referindo-se à sua missão de papa: “A tarefa de Pedro é procurar constantemente os caminhos que servem à manutenção da unidade. Por isso, ele não deve criar obstáculos, mas procurar caminhos.” No mesmo texto, ele já havia afirmado: “O respeito recíproco é uma condição preliminar para o ecumenismo autêntico.” 

Para que a esperança expressada na resposta do papa se concretize temos que viver e ensinar a viver uma espiritualidade de diálogo, com total preservação do essencial que vai garantir a unidade, e com respeito à diversidade que pode ser sinal de riqueza em vez de divisão, tudo isso cultivado com sólido conhecimento da doutrina, fidelidade ao que a Igreja nos pede e prática do evangelho.

Therezinha Cruz

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