sexta-feira, 5 de outubro de 2012

O diferente em vários campos da vida


     Tenho trabalhado intensamente com ecumenismo durante mais de quinze anos. Costumo dizer que o ecumenismo, além de seu conteúdo próprio e indispensável, costuma ter “efeitos colaterais”. Isso acontece porque o trabalho ecumênico exige o desenvolvimento de certas qualidades fundamentais. Quem se envolve nesse trabalho precisa, por exemplo: aprender a ouvir o outro sem julgamentos preconcebidos, reconhecer o que há de bom fora das fronteiras do seu grupo, dialogar sem falsidade mas também sem querer dominar o outro, saber perdoar e pedir perdão, acreditar que a história pode caminhar para um desfecho melhor, perceber que a diversidade pode ser uma riqueza, entender que é possível discordar sem desvalorizar o outro.

Todas essas atitudes podem e devem ser trabalhadas na catequese, dentro e fora de temas especificamente ligados ao ecumenismo. Se educarmos crianças, adolescentes e jovens dentro desses princípios, vamos favorecer o ecumenismo, sem dúvida. Mas estaremos também preparando pessoas que sabem conviver em variados ambientes, que sabem dizer quem são sem deixar de ouvir e reconhecer o valor do outro. Pensando no mundo em que a nossa garotada vive, isso ajudaria a criar laços de amizade mas não de dependência de grupo, faria a juventude crescer no respeito ao diferente, sem bullying, com partilhas produtivas que não ameaçam a identidade de cada um mas que dão a todos um horizonte mais amplo de compreensão da vida. 

Quando alguém respeita o diferente como ele é, está também estimulando o outro a perceber que ambos têm direito a uma identidade própria. Respeitar não é sempre concordar, assumir o jeito do outro, copiar comportamentos. É reconhecer que o outro pode ter valor sendo diferente, é descobrir meios de colaborar sem terem todos que se comportar e sentir do mesmo jeito. Hoje acredito muito mais na catequese do que na escola para desenvolver esse tipo de atitude. Não estamos preocupados com currículos e testes, temos flexibilidade para montar nossos encontros de acordo com as necessidades de cada grupo. Nosso jeito de trabalhar é cheio de conversas, partilhas, testemunhos de vida. São ocasiões muito propícias ao trabalho com valores e, entre esses valores, não é difícil achar espaço para o respeito ao diferente.

A própria vida da Igreja teria muito a ganhar com esse tipo de trabalho. Somos a maior Igreja cristã. Nossas comunidades abrangem grupos numerosos e diferentes. Numa paróquia de 600 fiéis, por exemplo, não dá para atender bem a todos num grupo só. Aí temos os movimentos, que são variados, cada um animado a seu jeito, com sua espiritualidade característica. Infelizmente, não é raro ver desencontro ou isolamento entre pastorais e movimentos dentro da nossa própria Igreja. Às vezes a comunidade parece um armário, onde cada grupo ocupa uma gaveta, sem comunicação com as outras. Uma catequese que também contemplasse a necessidade de preparar os catequizandos para um diálogo ecumênico teria de desenvolver neles as exatas qualidades que iriam facilitar, dentro da nossa própria comunidade, a partilha, a cooperação mútua, o respeito ao tipo de espiritualidade que combina com o jeito de cada um. Vale a pena. Dentro e fora da Igreja, todos sairiam ganhando porque aprenderiam a conviver melhor.

Therezinha Cruz

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