sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Notícias do Sínodo dos Bispos 11 - Pe. Lima


PRIMEIRO DEBATE NOS PEQUENOS GRUPOS

O tempo aqui em Roma está mudando, esfriando... inverno à vista! Mas a temperatura na Assembleia Sinodal está em alta. O dia de hoje foi todo dedicado ao estudo e respostas às questões levantadas pela Relação após as discussões apresentada ontem pelo Card. Ronald William Wuerl, Relator Geral.

Numa entrevista ele afirmou que "o ministério da Igreja se encontra hoje em uma fase de revisão de sua maneira de levar a Palavra de Deus em um contexto novo, globalizado, cheio de desafios e onde há uma grande ignorância da fé, especialmente nos países de antiga tradição cristã".

Vou agora retornar ao dia de ontem, à noitinha, quando terminei a crônica anterior. Terminada a Relação do Card. Wuerl, houve um debate livre, de uma hora e 15 minutos, como primeira reação da Assembleia diante da grande síntese feita por ele. Inscreveram-se 15 oradores. Todos foram concordes em elogiar o trabalho bem feito: conseguiu recolher os temas principais debatidos até agora, dentro naturalmente dos limites desse tipo de apresentação. Foi relevada também a boa participação dos peritos ou assessores, que permitiu chegar a essas conclusões; foi realmente um trabalho hercúleo, insano. Elogiou-se a fidelidade àquilo que foi discutido e falou-se do latim do texto, por demais clássico. Alguns comentários feitos:

1) Não se pode restringir a Nova Evangelização (NE) só como uma ação juntos aos afastados da Igreja. Ela é muito mais ampla e deve responder às novas questões dos cristãos hoje e da humanidade, na sua amplitude.

2) Faltou maior análise da Vida Religiosa em geral, e da vida contemplativa em particular (essa última nem é nomeada no Instrumento de Trabalho).

3) Não há NE sem liturgia. É necessário novamente desencadear um grande movimento litúrgico, resgatar o sentido do Domingo, revalorizar o Sacramento da Penitência, como sacramento típico da NE (acentuar mais o encontro com a graça do perdão do que a confissão formal dos pecados...) e dar maior impulso ao processo da Iniciação Cristã não só na catequese dos sacramentos da iniciação, mas também para aqueles que necessitam ser reiniciados na fé.

4) Os sujeitos da NE não podem ficar em último lugar no texto; é preciso trazê-los para o princípio do documento. Trata-se do sujeito individual (eu) e comunitário (nós), abrangendo desde a paróquia até à Igreja Universal. Não se deve falar só dos atores da NE, mas da beleza da comunidade que anuncia o evangelho. Entre tais atores deu-se destaque ao laicato.

5) Ao retratar a sociedade de hoje que deve ser evangelizada, não se pode acentuar só o negativo. Deus continua a amar o mundo tal como ele é e estamos vivendo, no século XXI, a História da Salvação. Devemos olhar com simpatia o mundo de hoje, ao qual também nós pertencemos.

6) É preciso acentuar mais o sentido da transcendência para a qual aponta a NE. Por outro lado, precisamos estar atentos à dimensão antropológica: ajudar a criar condições humanas para que as pessoas possam aceitar o Evangelho. O pecado e a morte, tão alijados ou ignorados no nosso mundo, são a base para que tenhamos consciência da salvação que a Boa Nova de Jesus nos traz.

7) Está na hora de a Igreja reconhecer o catequista como um verdadeiro ministro da Palavra, com a instituição do ministério da catequese, sem com isso clericalizar o catequista, que continua como uma vocação e um serviço tipicamente leigo na Igreja.

8) Não podemos ignorar a presença e a força do islamismo no mundo atual e muito menos vê-lo somente como ameaça e perigo. Precisamos não só conviver, mas buscar as possibilidades de evangelizar o povo mulçumano e apreciar sua riqueza cultural e espiritual. É necessário voltar à visão positiva do documento Nostra Aetate do Vaticano II sobre o diálogo religioso.

9) Na linha do ecumenismo, é preciso criar uma certa aliança com a Igreja Ortodoxa para, juntos enfrentarmos o secularismo, o relativismo e indiferentismo do mundo atual.

10) Acima de tudo, o documento deveria apontar mais para a conversão da Igreja ao Evangelho, a começar pela jerarquia, estendendo-a a todo o Povo de Deus.

Quanto ao dia de hoje, quinta feira, tanto a manhã quanto a tarde, foram dedicadas à reunião em pequenos grupos, chamados circuli minores. Não são tão pequenos assim, pois no meu grupo somos mais de 40... O critério de divisão desses grupos é a língua que os participantes melhor dominam. Assim há 4 grupos de língua inglesa, 3 de língua italiana, 2 grupos de língua francesa, 2 de língua castelhana e 1 de língua alemã. Ao todo são 12 grupos. Eles devem discutir a Relatório apresentado e discutido ontem em plenário e responder às 14 extensas questões aí levantadas, procurando já redigir algumas proposições que serão depois discutidas em Assembleia e reduzidas a 50, como expliquei ontem.

Algumas afirmações feitas em meu grupo (há outros 11 grupos...):

1) É preciso esclarecer melhor o que seja NE. Concordou-se, após várias intervenções, que é melhor apresentar as características da NE do que buscar uma definição completa.

2) O texto de nossas proposições precisam ser mais de caráter propositivo, alegre e entusiasmante. Ele mesmo deveria espelhar o espírito da NE.

3) Há uma grande insistência no caráter sobrenatural da NE: é de iniciativa divina, depende da graça de Deus e precisa começar no coração de cada um, a começar dos pastores. Tudo isso é verdade, mas não podemos esquecer que Deus quer precisar de nós. Essa dimensão antropológica e a lei da encarnação devem ser levadas em consideração. A Igreja é a extensão do Corpo de Cristo, o Sacramento universal da salvação (Lumen Gentium) para a salvação do mundo (Gaudium et Spes), que renova a obra da Redenção no hoje da história através dos sacramentos (Sacrosanctum Concílium) e anuncia a Palavra de Deus (Dei Verbum). Esse é o núcleo central do Vaticano II.

4) O novo da NE está na conversão do coração dos evangelizadores e não tanto nos projetos, metodologias ou planos mirabolantes. Ela deve se basear, em primeiro lugar, no nosso testemunho de vida, a começar dos evangelizadores.

5) O importante do título do Sínodo não é a NE, mas sua finalidade: a transmissão da fé. Portanto NE é anunciar, falar de Jesus e seu Evangelho, é catequese, evangelização. Ao lado desse dado, há o problema das mudanças culturais que estão acontecendo há muito tempo e, como Igreja, somos incapazes de reinventar a linguagem de comunicar a mensagem e os métodos de pastoral.

6) Pode-se comparar a NE a um rio: é sempre o mesmo, mas sempre novo. A fé e os sacramentos são sempre os mesmos; o que muda são os cenários de hoje, o modo de apresentar, a linguagem e suas expressões.

7) A NE deve ter duas grandes frentes: a) a pastoral normal do Povo de Deus para defender, alimentar e fazer crescer a fé; b) uma dimensão missionária de primeiro anúncio e de evangelização para aqueles que não conhecem Jesus Cristo ou estão afastados da Igreja.

Outro tipo de discussão girou em torno da metodologia a ser seguida, da natureza e estilo dessas proposições que devemos redigir e das pessoas que devem fazê-lo. Ficou claro que somente os bispos podem fazer proposições. Os peritos ou assessores (como no meu caso) e os ouvintes, apenas podem tomar parte nas discussões e sugerir tópicos para a redação.

A parte da tarde foi dedicada à tentativa de iniciar a discussão e redação das proposições a partir de propostas feitas pelos membros do grupo. Assim, por exemplo (só para me referir aos brasileiros presentes nesse grupo), Dom Geraldo Lyrio ficou encarregado de redigir uma proposição sobre a Liturgia (sempre em vista da Nova Evangelização) e Dom Odilo Scherer uma outra a respeito das mudanças de estruturas ou conversão pastoral. Eu pessoalmente colaborei na redação sobre a Iniciação Cristã e sobre o ministério do catequista e sua institucionalização.

Assim sendo, foram discutidas proposições sobre os seguintes temas, com uma primeira redação: os cenários de hoje (secularismo, relativismo...), dioceses, paróquias, pequenas comunidades, liturgia, iniciação cristã, educação, pastoral universitária, comunicação, homilia, promoção humana, novos pobres (migrantes), novos evangelizadores (principalmente a formação presbiteral), vida contemplativa, pastoral familiar.

Todos os encarregados de redigir proposições sobre esses temas devem aprontá-las até amanhã cedo e entregá-las ao relator de nosso grupo (um bispo espanhol) e ele, por sua vez, fará, juntamente com os outros 11 relatores, uma apresentação em plenário, para que elas sejam discutidas e retornem aos grupos para modificações.

As audiências do Papa às quartas feiras, como a de ontem, estão sendo feitas na Praça São Pedro e não na grande Sala Paulo VI, pois atrapalharia o trabalho do Sínodo. Foi-nos comunicado que o Papa deu início, com a audiência de ontem, a um ciclo de catequeses dedicadas à virtude da fé. Será mais um bom subsídio para a celebração do ano da fé, uma vez que Bento XVI, nessas catequeses das quarta-feiras, fala com simplicidade e linguagem fácil, sem deixar de ser profundo e completo.

Roma, 18 de Outubro de 2012, quinta feira.
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

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