quinta-feira, 25 de outubro de 2012

A abertura de Paulo aos não judeus


A história do início do cristianismo tem muitas características originais, que não aparecem na tradição de outras religiões. O mais fundamental, é claro, está na Encarnação do próprio Deus, que vem viver a vida humilde de um carpinteiro criado num lugar sem muita importância diante dos poderosos. Mas há outros elementos a respeito desse Filho de Deus encarnado que têm muito a nos dizer: Jesus escolheu apóstolos que também não eram doutores, capacitados, considerados importantes; morreu relativamente jovem, de um modo humilhante; era um judeu falando para judeus, distante dos centros culturais de povos com mais condição de difundir a sua mensagem.

Nessa situação, seria de se esperar que a pregação de Jesus e o significado total de sua missão ficassem restritos a um grupo pequeno, que o cristianismo se tornasse apenas uma seita de judeus seguidores do judeu Jesus. Mas nós sabemos que não foi isso que aconteceu. A mensagem se espalhou pelo mundo, marcou a história mundial e até determinou a contagem dos anos a partir da chegada de Jesus ao mundo.

Nessa reviravolta, a figura de Paulo foi fundamental. Ele era diferente, tinha uma formação cultural aprimorada e uma capacidade grande de se relacionar com outros povos. Apesar de não ter conhecido Jesus enquanto Ele estava pregando, foi o grande fator de expansão da mensagem cristã a outros povos. 

Paulo era judeu, formado no estilo dos fariseus, defensores do cumprimento rigoroso das leis religiosas de seu povo. Foi por isso que começou perseguindo os cristãos, que enxergava como elementos desviantes da verdadeira fé. Mas Jesus ressuscitado foi atrás dele e o converteu. E aí aconteceu uma coisa muito interessante: o novo discípulo, de formação tão conservadora, tornou-se até mais aberto aos pagãos do que os apóstolos do primeiro grupo. Foi Paulo que ampliou o cristianismo para além das fronteiras judaicas. Foi ele que entendeu Jesus o suficiente para perceber que as leis de culto do Antigo Testamento deveriam ser seguidas pelos judeus convertidos, mas podiam ser dispensáveis para os que viessem de outros povos. Sem isso, a expansão do cristianismo seria bem menos ampla. 

Paulo compreendeu direitinho também que  as atitudes mais importantes eram a fé e a caridade. Com ele, judeus cristãos poderiam continuar praticando, por exemplo, a circuncisão e as regras alimentares enquanto cristãos de outras origens estariam dispensados desses preceitos. Todos, porém, eram orientados para dar testemunho de fé, mesmo correndo riscos, e para a prática indispensável da caridade. Era um cristianismo que soube viver no seu início a unidade dentro da diversidade.

Hoje o exemplo de Paulo pode nos inspirar no diálogo ecumênico. As Igrejas cristãs já têm uma certa unidade básica: têm fé no mesmo Jesus, estudam e amam a Bíblia, valorizam o Batismo, a oração, a caridade, querem ser para o mundo um sinal daquilo que o amor de Deus quer ver nos relacionamentos humanos. Mas há também a diversidade no modo de expressar a fé, de interpretar a doutrina, de realizar as celebrações, de organizar a disciplina religiosa e as lideranças de cada comunidade. Vivemos há séculos um processo de separação, com grave rejeição mútua, que não havia nas primeiras comunidades. Mas foi mantendo a unidade entre os diferentes que Paulo ajudou o cristianismo a ter força para se expandir entre povos que não se adaptavam à cultura na qual Jesus viveu. Uma catequese que valorize a dimensão ecumênica poderia hoje fortalecer bastante a evangelização, buscando viver a unidade na diversidade e sendo para o mundo um sinal de que o nosso amor pode ser maior do que as nossas diferenças.   

Therezinha Cruz

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