quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Santo e Santa


Passado o clima de finados, a Igreja celebra a vida de todos os bem-aventurados que, na história de muita gente, num verdadeiro testemunho de autenticidade, de liberdade e de semelhança com a perfeição de Deus, são chamados de santos. A santidade não é realidade apenas de alguns, mas para todas as pessoas de boa vontade e bem intencionadas na vida.

A bíblia fala das bem-aventuranças como caminho de santidade, de seguimento de Jesus Cristo. Elas subvertem os critérios do mundo, porque os menos reconhecidos e desvalorizados, são chamados de felizes. É uma felicidade diferente, porque o sofrimento causa alegria, gera os bem-aventurados na vida eterna.

A santidade acontece no interior da pessoa. Temos algo de santo e de pecador. A diferença está no que é orientado para o amor. O amor vem de Deus, e acontece de forma ilimitada, podendo ocasionar os “pobres em espírito”, que não é pobreza material e nem espiritual, mas a capacidade de usar tudo para o bem comum.

A pobreza evangélica é sinal de um mundo novo, um imperativo para a justiça social. É resistir ao mal sem fazer as coisas desonestas, procurando realizar a ordem querida por Deus. Por isto se fala em fome e sede de justiça, dos que sofrem por ver seus direitos desrespeitados, mas têm certeza da justiça divina.

Os santos e as santas são aqueles que podem estar diante de Deus sem máscaras e não têm nada a esconder. São encantados com os valores do mundo, mas sabem conduzi-los para Deus. Usam as medidas justas, mesmo em contradição com as maldades em prática. Por isto sofrem a sorte de Cristo, o desprezo e o ódio.

A esperança é a força motivadora da vida humana dentro da história. Ela está apoiada nos valores que, vividos com honestidade, ajudam no cumprimento da vocação que temos na direção da santidade. Isto tem que acontecer num mundo em que muitas estruturas e valores são construídos de forma que contrariam os princípios do Evangelho e dificultam a prática do bem.

Dom Paulo Mendes Peixoto
Arcebispo de Uberaba.

terça-feira, 30 de outubro de 2012

Notícias do Sínodo dos Bispos 23 - Pe. Lima


APRECIAÇÃO FINAL DO SÍNODO DOS BISPOS DE 2012
As crônicas enviadas durante as três semanas do Sínodo focalizavam um determinado momento de sua realização, relatando o que passava naquele momento, como é próprio de uma crônica. Sem pretender fazer uma ampla síntese, o que seria impossível dada a extensão e complexidade dos temas tratados, pretendo agora relatar aquilo que me pareceu mais importante no conjunto desse grande evento.

A experiência vivida nesses 22 dias é única e incomparável. Foi uma participação intensa de comunhão eclesial em escala mundial, de uma Igreja viva e pujante, a pesar das dificuldades de hoje. Estava presente a Igreja inteira, representantes de todos os extratos eclesiais em nível da totalidade do Povo de Deus, tanto jerarquia, como fieis leigos. Sendo "dos Bispos" é lógico que a presença maciça era deles, que realmente conduziram, trabalharam, tomaram decisões como responsáveis primeiros da Igreja. Entretanto, estavam presentes também sacerdotes, religiosas e religiosos, leigas e leigos comprometidos com a evangelização. A Igreja Católica não é apenas os de rito latino; os católicos ortodoxos orientais estavam presentes em peso. Havia igualmente os "delegados fraternos", de outras igrejas cristãs, preocupadas também com os desafios da evangelização. Chamou a atenção, não tanto a profundidade da reflexão e de decisões, mas, sobretudo o testemunho de experiências realizadas em todas as partes do mundo. na busca de novas formas e modos de evangelizar.

Acima de um Sínodo, coloca-se apenas a realização de um Concílio Ecumênico. O Sínodo, tal como a Igreja o celebra hoje, tinha inicialmente uma dupla finalidade: manter vivo e aceso o espírito do Concílio Vaticano II e ser expressão da Colegialidade Episcopal. Quanto à primeira finalidade, ele esteve intimamente ligado ao Vaticano II não só por celebrar seus 50 anos, mas por sua estrutura, dinâmica interna, realização e conclusões. Pode-se dizer que o Sínodo "é um filho do Concílio"; a assembleia sinodal reafirmou, não tanto explicitamente, mas nos fatos e no temas tratados, a firme adesão aos ensinamentos do Concílio.

Com relação à segunda finalidade, ser expressão da colegialidade episcopal, ela fica um tanto obscurecido, dado seu caráter apenas consultivo. Ou seja: as célebres Proposições, documento mais importante, não têm autoridade em si mesmas. São apenas sugestões deixadas na mão do Sumo Pontífice para que ele, e seus auxiliares mediatos e imediatos, elaborem, dentro de um ano mais ou menos, um documento oficial (a exortação apostólica). Aquela tão suspirada descentralização do governo da Igreja, partilhando um pouco o excesso de responsabilidade e de poder que se concentra na pessoa do Papa, não se realiza plenamente. De outro lado, o Sínodo foi uma manifestação inequívoca da comunhão e afeto episcopal, do zelo, paixão e entusiasmo com os quais cada bispo assume a responsabilidade por todas as igrejas, e não apenas por sua diocese.

Houve uma plena sintonia com os sérios problemas que hoje assolam a humanidade, tudo, naturalmente visto à luz da evangelização para a transmissão da fé, que era o polo gerador de todos os temas tratados. O inusitado gesto de enviar uma delegação à Síria, em plena guerra civil e fratricida, levando não só ideias e exortações, mas também mediação político-diplomática e auxílio econômico, mostrou o quanto a Igreja está mergulhada em toda sorte de sofrimento humano. Isso ressoou muitas vezes e de diversos modos na aula sinodal, sobretudo com o testemunho de inúmeras ações criativas para que a mensagem de Jesus torne-se realmente Boa-Nova e palavra de salvação para todos.

Ficou claro também que tudo o que a Igreja faz deve ser fruto de uma profunda confissão e profissão de fé em Cristo Jesus, que com seu Evangelho, revela a proximidade de Deus em nossas vidas. Ela mesma em primeiro lugar é destinatária dessa Palavra de Deus, e daí a contínua conversão de si mesma e a vontade de, por todos os meios, quer pelo ministério da Palavra como dos sacramentos, ser a anunciadora da salvação para um mundo que se mostra cada vez mais secularizado, afastado de Deus e mergulhado no materialismo.

A expressão nova evangelização foi entendida em seu múltiplo significado, sempre e a partir da ação do Espírito Santo e do primado da graça. Ela é, em primeiro lugar, um grande chamado para todos os fiéis renovarem a própria fé, tanto na adesão pessoal e profunda à pessoa de Jesus (confissão da fé), como no testemunho de vida à luz do Evangelho (profissão de fé). A nova evangelização tem aí seu fundamento e garantia de sucesso, e não em projetos, planos, e programas, por mais importantes que eles também sejam.

Em segundo lugar significa o interesse de propagar sempre mais o Evangelho de Jesus entre todos os povos. Diante das urgências internas da vida eclesial, não pode ficar em segundo plano a missio ad gentes, o caráter missionário da Igreja, algo que pertence à sua natureza. Isso implica um retorno contínuo ao primeiro anúncio (querigma), a proclamação do mistério de Jesus Salvador: sua encarnação, tornando-se um de nós, sua, paixão, morte redentora e glorificação. Esse quérigma (conteúdo essencial da fé) deve estar presente no início da proclamação do Evangelho e reevocado continuamente em toda pregação e catequese. O drama que a Igreja vive hoje é que muitas nações, cristãs em épocas passadas, hoje estão longe de Deus, vivem como se Ele não existisse, e como se a Igreja fosse uma das tantas expressões religiosas sem sentido nenhum para o mundo de hoje. É difícil admitir, mas precisamos nos convencer de países outrora cristianíssimos (sobretudo na Europa) hoje são terra de missão, de anúncio primeiro, de evangelização, no sentido mais próprio e estrito da palavra. 

Nova evangelização, em terceiro lugar, expressa a preocupação da Igreja por inúmeros cristãos que se tornaram sacramentalmente cristãos, mas vive como se fossem pagãos, afastados da Igreja e da prática cristã. Para eles é necessária uma nova conclamação, um novo apelo e, naturalmente, novas formas de pastoral, de catequese com métodos diferentes. 
Diante desse quadro, as expressões "missão continental", "uma Igreja em permanente estado de missão", e "conversão pastoral" tão nossas latino-americanas foram integradas no vocabulário desse Sínodo. Os documentos de Aparecida foram continuamente citados; de fato, aqui na América Latina e Caribe, nós já nos debruçamos e procuramos soluções pastorais para os grandes problemas para os quais o Sínodo agora se voltou, em escala mundial.

Mas o Sínodo não ficou apenas em generalidades: desceu à consideração de problemas concretas e urgências pastorais como a necessidade de diálogo entre o Evangelho e cultura (pensamento moderno, ciência, universidades), a missão importantíssima dos leigos cristãos no processo da nova evangelização, o valor e o testemunho da vida religiosa e contemplativa no nosso mundo secularizado, a nova evangelização e os direitos humanos, a liberdade religiosa, o direito e dever de proclamar o evangelho, a promoção humana, a opção pelos pobres, o serviço da caridade, o cuidado com os idosos e doentes, migrações, valor e atualidade da doutrina social da Igreja.

Olhando mais para a vida interna da Igreja foram tratados temas como: a urgente necessidade de conversão da própria Igreja (pastores e fiéis), a santidade dos evangelizadores, a alegria com que o evangelho deve ser testemunhado, a iniciação cristã com seus três sacramentos, a catequese (sobretudo com adultos), os catequistas e o reconhecimento de seu ministério, o valor do Catecismo¸ a recuperação do sentido sagrado do domingo, a situação de muitos cristãos que vivem em contínuas ameaças por causa da fé (perseguições e martírio), a urgência da educação, a via da beleza como caminho de evangelização. A última parte das Proposições aborda o tema dos "agentes e participantes da Nova Evangelização": a diocese e pastoral orgânica, a paróquia como um dos eixos da nova evangelização, a beleza da liturgia e um grande apelo para os padres no aprendizado e aperfeiçoamento da ars celebrandi (arte de celebrar), a recuperação do valor do Sacramento da Penitência para todos cristãos, particularmente para os que retornam à Igreja, o importante papel dos fieis leigos (especial relevo às mulheres) e os movimentos de diversos tipos, a piedade popular, as peregrinações, a família cristã com suas crises e desafios, os jovens para os quais a Igreja olha com preocupação sim, mas com muita esperança, o diálogo ecumênico, inter-religioso, diálogo entre fé e ciência, os novos cenários urbanos, o átrio dos gentios (espaço de diálogo com os não crentes), o cuidado com o meio ambiente, etc.

As Proposições devem ser consideradas o documento principal do Sínodo; foi autorizada a publicação não oficial (oficiosa) de sua versão em inglês, que já está na internet. Um crítico ironizou as 58 proposições, citando o provérbio latino: "parturiunt montes, nascetur ridiculus mus" (engravidam-se as montanhas e nasce um ridículo ratinho). É desconhecer a densidade de cada uma delas, e muito mais a natureza do Sínodo. Em segundo lugar a Mensagem, de conteúdo denso, linguagem estimulante e bem comunicativa, é também documento do Sínodo; ela insiste no otimismo que deve tomar conta dos discípulos de Jesus e não o desânimo ou derrotismo diante das grandes dificuldades de evangelizar o mundo de hoje. Elas devem ser transformadas em novas oportunidades de anúncio do Evangelho. Fazem parte também do Sínodo as duas homilias de Bento XVI pronunciadas na abertura e na conclusão do Sínodo. São grandes meditações, a partir da Palavra de Deus, sobre o tema central do Sínodo.

O Papa tem falado frequentemente da "desertificação espiritual" que vive o mundo de hoje. No deserto, as estrelas brilham mais na noite escura; assim também deve brilhar mais o Evangelho no deserto espiritual do mundo de hoje, para que todos sejam por ele iluminados. Nesse sentido, é invocada a proteção de Maria, estrela da Evangelização e modelo supremo de discípulo de Jesus.

Para mim, a participação no Sínodo foi mais de enriquecimento pessoal do que de colaboração; consegui, sim, junto com outros, deixar algo numa proposição a respeito da catequese, catequistas e catecismo. Mas a riqueza recebida foi muito maior. Despeço-me de todos, agradecendo a paciência em seguir esses relatos e esperando ter contribuído para um maior conhecimento imediato do que ocorria por aqui. Auguro que todos possam também se enriquecer com mais esse impulso evangelizador provocado pelo Sínodo e lançar-se com o entusiasmo de sempre e mais ardor na transmissão da fé em Nosso Senhor Jesus Cristo e sua Igreja.

Roma, 30 de Outubro de 2012, terça feira
 Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

Notícias do Sínodo dos Bispos 22 - Pe. Lima


ENCERRAMENTO DO SÍNODO

O grande evento eclesial do Sínodo dos Bispos de 2012 foi encerrado com a solene liturgia eucarística, presidida pelo Papa e concelebrado pela maioria de seus participantes. Foi a quarta grande e bela liturgia da qual participamos durante o Sínodo. Como informei durante as três semanas, os únicos momentos de oração em comum dos cerca de 400 participantes, eram: 

1. No início da manhã a récita da hora média da Liturgia das Horas (tércia) também com certa solenidade, quer pelos salmos todos cantados (a assembleia alternava com parte do coro da capela sistina presente), quer pela leitura breve com todos os ritos solenes da missa (entrada da Palavra de Deus ladeada pelos ceruferários) e proclamação solene do texto bíblico. Seguia-se uma homilia de 8 a 10 minutos proferida no primeiro dia pelo Papa, e depois por um dos padres sinodais (a penúltima, na sexta feira passada foi feita pelo brasileiro Dom Benedito Beni, bispo de Lorena, em italiano). Após a oração final, sempre se cantava uma das cinco antífonas tradicionais de Nossa Senhora, sempre em latim.

2. No início da sessão da tarde, rezava-se apenas uma simples oração de início de trabalho (Actiones nostras ou uma oração pelo bom êxito do Sínodo).

Entretando, quatro belíssimas e concorridíssimas Eucaristias, foram celebradas pelo Papa; concelebramos a primeira e última, e participamos da segunda e terceira. A primeira foi a abertura no dia 06 de Outubro; a segunda, no dia 11, comemorando os 50 anos do Concílio, 20 anos do Catecismo da Igreja Católica e abertura do Ano da Fé; a terceira foi no domingo dia 22, quando foram canonizados 7 santos de diversa procedência, cultura e que viveram modalidades diferentes de evangelização. A quarta e última, foi a Eucaristia de Conclusão do Sínodo, ontem, dia 28. As três primeiras, pelo seu caráter multitudinário, foram celebradas na Praça São Pedro, ao passo que a última foi dentro da maravilhosa Basílica Vaticana.

Entretanto, o imenso espaço litúrgico da Basílica Patriarcal do Vaticano tornou-se pequeno para acolher a grande quantidade de celebrantes e fieis que lá compareceram. Muitos tiveram que participar fora da basílica, através dos telões. Estavam presentes a quase maioria dos 400 participantes do Sínodo, cardeais, bispos, sacerdotes, revestidos dos paramentos solenes. Como sempre destacavam-se os de rito oriental, pomposos em seus trajes litúrgicos.

O momento sempre esperado é a homilia do Papa. E dessa vez, como sempre ele fez um magistral comentário ao texto da liturgia dominical (cego Bartimeu), falando da cegueira de muitas pessoas que vivem em regiões de antiga evangelização, onde a luz da fé se ofuscou, e se afastaram de Deus, deixando de considerá-Lo relevante para a própria vida e, portanto, necessitados de uma Nova Evangelização: “São as inúmeras pessoas que precisam de uma nova evangelização, isto é, de um novo encontro com Jesus, o Cristo, o Filho de Deus que pode voltar a abrir os seus olhos, a ensinar-lhes o caminho”. Não só para essas pessoas é necessária uma nova evangelização; ela é para toda a Igreja, que deve ser animada pelo fogo do Espírito.A partir de aí fez uma interessante síntese dos trabalhos conciliares, relevando esses três pontos: 

1. O primeiro diz respeito à vida interna da Igreja, aos Sacramentos da Iniciação cristã. "É necessário fazer uma catequese que realmente inicie as pessoas (adultos, jovens e crianças) no mistério de Jesus, de tal modo que sejam bem preparadas para receber os três sacramentos: Batismo, Confirmação e Eucaristia". É interessante notar que, quando Bento XVI se refere a esses sacramentos, ele usa sempre essa ordem: batismo, confirmação e eucaristia, que não é a tradicional. Creio que ele pensa que deveríamos alterar a sequência dos sacramentos de iniciação cristã! Ao lado deles, está a importância do Sacramento da Penitência (tão acentuada durante o Sínodo) e a vida dos Santos, verdadeiros protagonistas da nova evangelização, através dos exemplos de vida que nos dão.

2. O segundo ponto da Nova Evangelização, conforme Bento XVI, é a missão ad gentes (aos povos pagãos), para a qual são chamados consagrados e leigos. Assim se expressou: “Foi afirmado, durante o Sínodo, que há muitos ambientes na África, Ásia e Oceania, onde os habitantes aguardam com viva expectativa – às vezes sem estar plenamente conscientes disso – o primeiro anuncio do Evangelho. Por isso é preciso pedir ao Espírito Santo que suscite na Igreja um renovado dinamismo missionário, cujos protagonistas sejam, de modo especial, os agentes pastorais e féis leigos”. Tal tipo de evangelização é facilitada pela globalização e a deslocação de populações dentro ou fora do país; os migrantes têm possibilidade de levar sua fé onde quer que estejam. 

3. O terceiro ponto da nova evangelização diz respeito às pessoas batizadas, mas que não vivem as exigências do Batismo. Tais pessoas encontram-se em todos os continentes, especialmente nos mais secularizados. "A Igreja dedica-lhes uma atenção especial, para que encontrem de novo Jesus Cristo, redescubram a alegria da fé e voltem à prática religiosa na comunidade dos fiéis. Para além dos métodos tradicionais de pastoral, sempre válidos, a Igreja procura lançar mão de novos métodos, valendo-se também de novas linguagens, apropriadas às diversas culturas do mundo, para implementar um diálogo de simpatia e amizade que se fundamenta em Deus que é Amor". Para isso a Igreja se serve dos métodos tradicionais de pastoral e procura novos métodos, novas linguagens mais apropriadas para as diversas culturas do mundo. "O Pátio dos Gentios", assim como a "missão continental" mostram o esforço de criatividade pastoral para realizar essa missão.

Voltando ao cego Bartimeu, curado por Jesus, Bento XVI concluiu dizendo: "Assim são os novos evangelizadores: pessoas que fizeram a experiência de ser curadas por Deus, através de Jesus Cristo".

Como nas três missas anteriores, também nessa o rito foi soleníssimo, brilhou o coro da Capela Sistina, afinadíssimo e com novas e modernas melodias, conduzido pelo maestro salesiano Pe. Massimo Palombela. A orquestra de metais, novamente deu grande solenidade a Rito. Ao final da celebração, o diácono, ao invés de cantar a tradicional despedida, usou essas palavras: "A missa terminou, ide em paz anunciar o Evangelho".

Com essas palavras concluiu-se a XIII Assembleia Geral Ordinária dos Bispos, cada um retornando às próprias bases, com a sensação do dever cumprido, animados e cheios de entusiasmo, para não só como pessoas trabalharem na nova evangelização, mas sobretudo para serem animadores de seus irmãos no árduo e empenhativo trabalho de uma Nova Evangelização. 

Roma, 29 de Outubro de 2012, segunda feira
 Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

Notícias do Sínodo dos Bispos 21 - Pe. Lima


APROVADAS AS PROPOSIÇÕES E ENCERRADAS AS SESSÕES DO SÍNODO
Uma reviravolta no texto sobre catequese... muito melhor!

Chegamos finalmente à última sessão da XIII Assembleia Geral Ordinária dos Bispos. Foram 22 sessões plenárias e 4 reuniões dos Circuli Minori. Ouvimos um total de 429 intervenções (discursos). O Sínodo produziu 2 grandes documentos: a Mensagem ao Povo de Deus, um pouco longa, mas cheia de conteúdo e numa linguagem bastante coloquial, incisiva, esperançosa e otimista. E o elenco das 58 Proposições (ao final foi acrescentada mais uma), texto de muito conteúdo, e consequentemente com linguagem mais formal, declarativa e um tanto técnica. Elas recolhem o que de melhor foi abordado ao longo das três semanas de trabalho.

Conforme uma prática já consolidada desde o primeiro sínodo e posteriormente confirmada, essa assembleia episcopal não faz um documento, do tipo, por exemplo, das Diretrizes Gerais ou do Diretório Nacional de Catequese. De fato, essas Proposições não possuem uma finalidade em si, mas são entregues ao Papa para que ele, assessorado pela Comissão Permanente para o Sínodo, renovada nessa Assembleia por votação, redija uma Exortação Apostólica a ser apresentada a toda a Igreja. Daí o segredo e a reserva sobre tal documento. A outra razão, mais citada, é que o Sínodo é um organismo consultivo e não tem poder de decisão... Isso, a meu ver, enfraquece aquela finalidade de colegialidade pela qual o Sínodo foi criado!

As proposições são grandes afirmações, em linguagem sintética, a respeito de um problema importante referente ao tema principal, no nosso caso, a Nova Evangelização para a transmissão da fé. E por serem "entregues" ao Papa, são cercadas do máximo segredo... como já tive oportunidade de falar.

Mas, no mundo de hoje, é difícil guardar segredo. Por isso, desde que Bento XVI assumiu o pontificado romano, ele autorizou a publicação, em versão oficiosa e não oficial, dessas Proposições. Assim, já está sendo veiculado na Internet o elenco das 58 Proposições, inicialmente em inglês (língua em que foram escritas, pois o Relator Geral, Dom Donald W. Wuerl, é americano), e logo em seguida certamente surgirão traduções, se é que já não foram feitas! Pelo que consta, nem o Osservatore Romano e muito menos outro órgão oficial da Santa Sé irão publicadas: são reservadas ao Papa! Ele esteve presente quase o tempo todo, e hoje,na alocução ao meio dia (no Angelus), disse:

"De minha parte, ouvi e tomei nota de muitos itens de reflexão e muitas propostas que, com a ajuda da Secretaria do Sínodo e de meus colaboradores, procurarei colocar em ordem e elaborar, para oferecer à toda a Igreja, uma síntese orgânica e indicações coerentes. Podemos dizer que deste Sínodo sai reforçado o empenho pela renovação espiritual da mesma Igreja, para poder renovar espiritualmente o mundo secularizado. Tal renovação virá da redescoberta de Jesus Cristo, da sua verdade e da sua graça, do seu rosto, tão humano e ao mesmo tempo tão divino, sobre o qual resplandece o mistério transcendente de Deus".

A última sessão foi bastante longa. Inicialmente, o Secretário Geral comunicou os três nomes indicados pelo Papa para completar o Conselho Permanente do Sínodo: Card. Donald William Wuerl (relator geral desse Sínodo), o Card. Salvador Fisichella e Dom Pedro Herkulan Malchuk, ofm, arcebispo de Kiev. Informa que dos 12 grupos linguísticos vieram 529 propostas de alterações nas 57 proposições, que agora são 58; foram integradas na medida em que corrigiam, aperfeiçoavam ou ampliavam o texto anterior.

A seguir, tanto o Relator Geral (D. W. Wuerl), como o Secretário Especial (P.-M. Carré) prosseguiram a leitura, iniciada ontem, das Proposições, em sua segunda edição definitiva. Durante a leitura nós, assessores, tivemos o privilégio de receber uma cópia... milagre! E também fomos somente nós que ficamos com elas, pois a cópia que os bispos receberam foram devolvidas ao final, com a própria votação. Assim, pudemos acompanhar melhor e perceber mais concretamente onde houve alterações.

Terminada a longa e pausada leitura, houve a votação eletrônica, com três alternativas: Placet (voto positivo),  Non placet (voto negativo) e Absentio (abstenção). Dos 260 padres sinodais, no máximo 251 votaram, pois um ou outro se ausentava por algum motivo, ou mesmo já tinham viajado, ou se emaranhavam nas teclas do controle (hipótese mais plausível)...

A sala do Sínodo é muito bem equipada com os modernos recursos eletrônicos, como já acontece em muitos lugares. Do próprio lugar, através de uma espécie de controle remoto, cada um fazia sua votação e o resultado era imediatamente exibido nos telões. Houve aprovação de todos as proposições. Deve ter havido alguma falha nos equipamentos, pois sempre havia 1 voto negativo ou uma abstenção, até para Proposições que falavam da Santíssima Trindade como fonte da Nova Evangelização, ou sobre Nossa Senhora, Estrela da Nova Evangelização... isso chegou a provocar risos entre os votantes...

Como já disse, o que mais me chamou a atenção (e nem poderia deixar de ser...), foi o número 29 que, na redação anterior falava apenas do catecismo. Fiquei contentíssimo, pois a proposta que eu fizera no grupo linguístico foi plenamente acolhido, e, também pela "pressão" de outros grupos, a proposição ficou totalmente reformulada. O texto que falava do catecismo foi bastante reduzido, ficando no final, e acrescentados, no início, três parágrafos, para nós, importantíssimos, pois falam da catequese, do catequista e ainda (surpresa!), acrescentou uma abertura para o reconhecimento do ministério do catequista. Certamente foi a Proposição que mais recebeu radical mudança, o que explica também o elevado número de votos negativos (mas nem tanto...)

De fato, no momento da votação deste no. 29, que trata da catequese, participaram 250 votantes. Foi aprovado por larga maioria, ou seja: 229 placet, 17 non placet e 3 Abstenções. Aliás, todas as proposições foram aprovadas assim, com ampla maioria. Outras proposições que receberam pouquíssimos non placet foram: 17. Preâmbulos da fé e teologia da credibilidade: 18 non placet e 5 abstenções; 18. NE e mídia: 16 non p. e 2 abs.; 20. NE e via da beleza: 15 non p. e 6 abs.; 30. A teologia: 19 non p. e 2 abs.; 33. Sacramento da Penitência e NE: 12 non p. e 2 abs.; 37. O Sacramento da Confirmação na NE: 18 non p. e 6 abs.; 38. A Iniciação Cristã e NE: 13 non p. e 5 abs.; 40. O novo Conselho para a NE:16 non p. e 8 abs.;  43. Os dons hierárquicos e carismáticos: 20 non p. e 7 abs.; 46. A cooperação de homens e mulheres na Igreja: 17 non p. e 6 abs.; 52. Diálogo ecumênico: 14 non p. e 4 abs.; 53. Diálogo entre as religiões: 20 e 5 abs.; 54. Diálogo entre ciência e fé: 14 non p. e 2 abs.; 55. Átrio dos gentios: 20 e 3 abs.; 56. O cuidado da criação: 11 non p. e 3 abs.

Além desse no. 29, sobre a catequese, catequistas e catecismo, há vários outros que tocam no tema da catequese, como o no. 28 A catequese de adultos, que recebeu 240 placet, 8 non p. e 2 abs.; o no. 37. O Sacramento da Confirmação na NE: 18 non p. e 6 abs.; e ainda o no. 38. A Iniciação Cristã e a Nova Evangelização: 13 non p. e 5 abs. Ao falar da família, no no. 48, os pais e os avós são exortados a educarem as crianças e adolescentes na fé. Por fim, quando se fala da formação sacerdotal no no. 49 A dimensão pastoral do ministério ordenado, pede-se que os futuros sacerdotes sejam formados "na capacidade de comunicar-se na catequese".

Na sessão da tarde, a última das 22 que tivemos, além dos discursos formais de agradecimentos, saudações e augúrios, o Papa espontaneamente tomou a palavra e confirmou que a escolha dos 6 novos cardeais, foi para ampliar mais a representação da catolicidade da Igreja, pois a maioria deles são de regiões onde não há representação cardinalícia. E a segunda notícia, para nós foi mais importante. Disse Bento XVI que, depois de muito refletir, rezar e consultar seus assessores, ele resolveu fazer pequena modificação nas competências de duas Congregações da Cúria Romana: passar o cuidado dos seminários para a Congregação para o Clero (estava antes na Congregação para a Educação Católica) e passar a animação da catequese (que estava na Congregação para o Clero), para o novo Pontifício Conselho para a Nova Evangelização. Tais notícias foram recebidas com muito aplauso, e eu, pessoalmente, achei excelente, pois a catequese encontra, dentro da estrutura governamental da Igreja, um lugar bem mais significativo e próprio, pois profundamente ligado à Evangelização. Esta notícia estava na primeira página do Osservatore Romano de hoje, e, naturalmente já circulando na Internet! O encarregado por desse Pontifício Conselho para a Nova Evangelização é Dom Salvador Fisichella, teólogo bastante conceituado nos dias de hoje.

Apresento novamente o título das 58 Proposições aprovadas, pois houve modificações significativas, assinaladas com o tipo itálico:

Introdução: 1. Documentos a serem enviados ao Papa; 2. Agradecimentos do Sínodo. 3. Sobre as Igrejas Católicas Orientais para a NE.

Capítulo I: A Natureza da Nova Evangelização

4. A Santíssima Trindade, fonte da Nova Evangelização
5. A Nova Evangelização e a inculturação
6. A proclamação do Evangelho
7. Nova Evangelização como aspecto da missão permanente da Igreja\
8. Testemunhas num mundo secularizado
9. A Nova Evangelização e o Primeiro Anúncio
10. O direito de proclamar e ouvir o Evangelho
11. A Nova Evangelização e a leitura orante da Sagrada Escritura
12. Os documentos do Concílio Vaticano II
Cap. II: O contexto do Ministério da Igreja hoje
13. As provocações da nossa época
14. A Nova Evangelização e a Reconciliação
15. A Nova Evangelização e os direitos humanos
16. A liberdade religiosa
17. Os preâmbulos da fé e a teologia da credibilidade
18. A Nova Evangelização e as comunicações sociais
19. A Nova Evangelização e a promoção humana
20. A Nova Evangelização e a via da beleza
21. As migrações
22. A conversão
23. A santidade e os novos evangelizadores
24. A doutrina Social da Igreja
25. Cenários urbanos da Nova Evangelização
Capítulo III - As respostas pastorais para as circunstâncias de hoje
26. As Paróquias e outros contextos eclesiais
27. A educação
28. A catequese de adultos
29. A catequese, os catequistas e o catecismo
30. A Teologia
31. A Nova Evangelização e a opção pelos pobres
32. Os enfermos
33. O Sacramento da Penitência e a Nova Evangelização
34. O domingo e dias festivos
35. A Liturgia
36. A dimensão espiritual da Nova Evangelização
37. O Sacramento da Confirmação na Nova Evangelização
38. A Iniciação Cristã e a Nova Evangelização
39. A piedade popular e a Nova Evangelização
40. O Pontifício Conselho para a promoção da Nova Evangelização
Capítulo IV - Agentes e participantes da Nova Evangelização
41. A Nova Evangelização e a Igreja Particular
42. A atividade pastoral integrada
43. Os dons hierárquicos e carismáticos
44. A Nova Evangelização na Paróquia
45. O papel dos fieis leigos na Nova Evangelização
46. A cooperação dos homens e das mulheres na Igreja
47. A formação dos Evangelizadores
48. A família cristã
49. A dimensão pastoral do ministério ordenado
50. A vida consagrada
51. Os jovens e a Nova Evangelização
52. O diálogo Ecumênico
53. O diálogo inter-religioso
54. O diálogo entre ciência e fé
55. O átrio dos gentios
56. O meio ambiente
57. A fé cristã que deve ser transmitida
Conclusão: 58. Maria, Estrela da Nova Evangelização.

Roma, 28 de Outubro de 2012, Domingo - ENCERRAMENTO DO SÍNODO
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

EXTRA -Notícias do Sínodo dos Bispos 20 - Pe. Lima


APROVADA E PUBLICADA A MENSAGEM DO SÍNODO
Uma afirmação lapidar abre a reportagem do Ossevatore Romano
O jornal oficioso do Vaticano, em sua edição diária em italiano, publica em primeira página hoje, a manchete: O Evangelho no mundo, e traz já o texto integral da Mensagem do Sínodo ao Povo de Deus aprovada ontem de manhã. Na verdade essa edição já estava impressa ontem à tarde e começou a ser distribuída à noitinha.

Se está no Osservatore Romano (edição diária), quer dizer que certamente já está na Internet. O que chama mais a atenção, e aqui me dirijo especialmente ao Prof. Francisco Catão, do Instituto Pio XI (São Paulo) que tanto ensina e insiste nessa ideia, é a abertura da reportagem, citando a primeira frase da Mensagem, que já adiantei na Síntese da mesma enviada dias atrás: "O Sínodo, diz o jornal, lança um projeto concreto para a nova evangelização, com uma afirmação lapidar (punto fermo): «A fé se decide no relacionamento que instauramos com a pessoa de Jesus», e para testemunhá-lo é necessário estar lado a lado na vida das pessoas hoje, sem «inventar, quem sabe, que tipo de novas estratégias» porque o Evangelho não é «um produto a ser colocado no mercado das religiões»".
E prossegue: "Trata-se de um documento novo, conforme o Card. Betori [...] Novo pois «não se limita a exortações globais, mas se articula em temas que se relacionam a cada continente, expressa e especificamente citados em ordem alfabética»".
Mais na frente diz: "Na mensagem os bispos apresentaram junto experiências e propostas surgidas na 
Assembleia, afrontando questões desafiadoras (scottanti). Sem ceder ao pessimismo e convidando ao confronto, em campo aberto, o Sínodo propôs como fio condutor da mensagem, o encontro de Jesus com a Samaritana. Com a experiência do Sínodo, também «a Igreja quer estar ao lado de homens e mulheres do nosso tempo para tornar Deus presente em suas vidas».
E conclui a reportagem, antes de apresentar integralmente o texto da Mensagem: "Enfim, trata-se de «possibilitar experiências de Igreja, multiplicar os poços acessíveis a homens e mulheres sedentos e facilitar-lhes o encontro com Jesus, oferecer oásis nos desertos da vida». Mas a missão de evangelizar o mundo começa pela Igreja com um apelo à conversão. A começar dela mesma".
Agora,  nesta manhã de sábado, faremos a penúltima Sessão, com a leitura da segunda parte das proposições e sua aprovação por parte dos padres sinodais. Nessa ocasião, os textos entregues aos bispos são recolhidos, pois neles está o voto de cada um (placet e non placet). E aí se encerra o trabalho dos Sínodo. As 58 proposições ainda passarão pela Cúria Romana e só então serão publicadas, como vem acontecendo no pontificado de Bento XVI, pois até João Paulo II elas eram mantidas em segredo e entregues ao Papa para que, juntamente com a comissão eleita pelo Sínodo, ele escrevesse a Exortação Apostólica referente ao tema.

Roma, 27 de Outubro de 2012, Sábado.
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

Notícias do Sínodo dos Bispos 19 - Pe. Lima


RUMO À CONCLUSÃO DO SÍNODO
Segunda Redação das PROPOSITIONES e Testemunhos
Os antigos diziam: Motus in fine velocior - o movimento no final é mais veloz. É o que acontece também no Sínodo. No final as coisas se precipitam. Hoje foi um dia intenso durante o qual desanuviaram-se alguns receios e temores, dando lugar a um pouco mais de esperança de que houve progresso em alguns pontos e não regresso, como até ontem parecia.

Dom Giuseppe Betori, arcebispo de Florença, iniciou pela manhã a apresentação da 2a. redação da Mensagem, por ser seu relator. Disse que foram mais de 300 sugestões apresentadas. Dada a aprovação maciça da primeira redação, agora foram integradas as observações que não alteravam a estrutura e o conteúdo essencial. Foram eliminadas as repetições e alguma retórica (na verdade, esse trabalho eu já havia feito na síntese que enviei nas crônicas 13, 14 e 15). Assim sendo, o texto propriamente ficou muito semelhante àquele já enviado.

Algumas observações: o trecho sobre as comunicações sociais (estava no no. 4 e foi para o no. 10) ficou mais ampliado. O no. 6 foi completamente reformulado acentuando mais o fenômeno da secularização e dando maior importância ao fenômeno da presença do estado na vida moderna (hegemonia estatal), com os desafios de aí advindos para a evangelização. O no. 7 dedicado à família teve acréscimos, porém a expressão "comunhão eclesial... que não é negada aos casais de segunda união", foi mudada por: "continuam sendo membros da Igreja, embora não possam receber a absolvição sacramental nem a Eucaristia". Os no.s 8 (religiosidade popular) e 9 (jovens) foram ampliados. As maiores modificações foram no longo no. 10 (o Evangelho em diálogo com a cultura e a experiência humana e as religiões), no no. 13 (Igrejas Orientais Católicas). Sobre os continentes: no texto sobre a África foi mais bem aproveitada a imagem da família; América Latina: separou-se o tema "pluralismo religioso" do tema "violência"; Ásia: acrescentou-se que aí encontra-se a Terra Santa; Europa: ao invés de dizer "continente ferido durante decênios pelo poder comunista" preferiu-se falar em "decênios de poder de ideologias inimigas de Deus e do homem".

A leitura da nova redação da Mensagem foi distribuída nas 5 línguas oficiais; como o português não é língua oficial, mas para dar importância ao Brasil, foi pedido a Dom Sérgio Rocha, arcebispo de Brasília, para ler o texto referente à América Latina; seu castelhano estava excelente...

Um novo e longo aplauso foi interpretado como aprovação integral da Assembleia à nova redação. Essa segunda leitura do texto inteiro da Mensagem permitiu apreciar melhor sua beleza e oportunidade, embora ainda permaneça um pouco longo... Mas creio que vale a pena: é um texto que manifesta as grandes linhas de reflexão desenvolvidas durante o Sínodo.

Já o texto das proposições, continua a ser guardado a sete chaves. Como informei, sua primeira aparição foi apenas em inglês e num latim bastante clássico e difícil; mas, pelo menos, todos os participantes tinham o texto impresso. Hoje não: apenas os bispos (ou seja, aqueles que votam) receberam o texto unicamente em latim. E foi-nos chamada a atenção sobre o que está escrito na primeira e segunda capas: sub secreto, texto sob segredo, reservadíssimo. O Secretário Geral, Dom Eterovic, reclamou que conteúdos substanciais foram parar em blogs na internet... Daí também porque, em crônicas anteriores, não desci a detalhes, mas apresentei apenas os 57 títulos.

A segunda versão de hoje trazia 58 Proposições (conforme informou o Relator; não sei qual proposição foi acrescentada, pois não tive acesso ao texto!). Foram lidas as primeiras 34: uma leitura meio monótona, com o carregado sotaque americano do Relator Principal e o sotaque francês do Secretário Especial... Houve momentos em que os roncos de alguns dorminhocos se fizeram ouvir... acompanhar a leitura de um texto em latim, sem tê-lo na frente, e também sem os conhecimentos das clássicas construções latinas... não há quem resista! Deve-se reconhecer, entretanto, que Dom Donald W. Wuerl e Dom Pierre-Marie Carré fizeram o trabalho hercúleo de preparar, no espaço de um dia e meio, quando muito, a integração de 529 propostas de modificações apresentadas pelos 12 grupos. Um dos que ouviam atentamente, e até fazendo observações escritas no texto, sem pestanejar, era Bento XVI, para quem, naturalmente, o latim é tão familiar quanto o alemão!

Por sorte eu havia trazido a primeira versão, apresentada três dias atrás, e pude acompanhar, percebendo e anotando as várias alterações, supressões, acréscimos que foram introduzidos, e, graças a Deus, sempre para melhor! Foram poucas as proposições que não foram retocadas. Quando se chegou ao no. 29, aquele que falava unicamente do catecismo sem nomear a catequese nem os catequistas, tive que me conter para não manifestar minha surpresa e alegria. O texto foi totalmente remodelado, acrescentando uma frase sobre a catequese e outra sobre os catequistas, bastante significativa, que eu havia apresentado em meu grupo (através de Dom Odilo, como disse ontem) e que certamente recebeu a pressão de vários outros grupos. Mas minha surpresa não parou aí; veio embutida também uma citação do documento Ministeria Quaedam de Paulo VI sobre a reforma dos ministérios ordenados, dando uma pequena abertura para a instituição do ministério da catequese!

Vários membros de meu grupo, inclusive o bispo relator, Dom Renato Blázquez Pérez, vieram me manifestar a satisfação por verem nossa proposta aceita. Foi uma verdadeira vitória: a catequese, dentro do quadro geral da Nova Evangelização, estava suficientemente salva. Diante dessa vitória, nem dei importância à outra proposta que havia feito sobre a alteração da ordem de apresentação dos assuntos e que não foi aceita. Continua, pois, valendo a observação da Ir. Beatriz Casiello (SCALA): "Me llama la atención la falta de orden de la 3ra.parte". Procurei corrigir, mas… não deu!

No final da leitura dos 32 números, Dom Nikola Eterovic pediu aos bispos que levassem o texto para completarem individualmente a leitura e já assinalarem nos respectivos lugares, o próprio voto: Placet (positivo), Non Placet (negativo).

O dia foi completado pelos 16 discursos (ainda!) de ouvintes que pediram a palavra e não puderam falar até hoje. O primeiro a falar foi o Patriarca Ortodoxo da Sérvia, Dr. Irinej, Bispo de Backa. Falou muito bem, denunciando o ritualismo e formalismo da catequese na Igreja Ortodoxa; falou de "cadáveres espirituais" dentro da Igreja e que "a Nova Evangelização se faz necessária primeiramente dentro da própria Igreja". Falou também a sucessora da Bv. Madre Tereza de Calcutá, Ir. Mary Prema Pierick, sobre a NE junto aos pobres. Chamou a atenção vários testemunhos de vida cristã dados por leigos e leigas principalmente em países de pouca tradição cristã, ou que vivem situações difíceis, como em Cuba ou em países mulçumanos. Dois participantes do Movimento Focolari falaram da própria forma de evangelizar entre os excluídos e marginalizados da sociedade nesses ambientes.

A Superiora Geral das Filhas de Maria Auxiliadora, madre Ivone Reungoat, falou da dimensão evangelizadora da vida religiosa: "não devemos ser somente crentes, mas críveis". Acentuou também o caráter pedagógico da evangelização e a "necessária mediação cultural e educativa capaz de entrar nos cenários do mundo contemporâneo para oferecer aos jovens e aos mais pobres propostas de crescimento humano e cristão". O Dr. Simón Castellví, presidente da Federação Internacional das Associações Médicas Católicas, denunciou as tramas abortistas da fundação Bill Gates e fez a proposta de um "plano Marshall a favor da maternidade" e defendeu uma maior "atenção obstétrica básica" às mães pobres. E iríamos longe, se fossemos retratar a riqueza e variedade desses últimos pronunciamentos do Sínodo, embora não vão influenciar em nada os dois documentos já prontos, a Mensagem e as Propositiones.

Amanhã teremos as duas últimas sessões, com aprovação formal das 58 proposições, e no domingo, a solene conclusão com a grande concelebração eucarística na Basílica São Pedro, presidida pelo Papa Bento XVI.

Roma, 26 de Outubro de 2012, Quinta feira.
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

sábado, 27 de outubro de 2012

Nomenclatura da Comissão


1- De Linha para Dimensão Catequética

Na década de 60, com a elaboração e aprovação do Plano de Emergência (1962) e do Plano de Pastoral de Conjunto (1965), a Igreja no Brasil começa a delinear sua ação pastoral, através das linhas de ação que se tornaram ponto de referência para a ação evangelizadora. Em 1983, na 21ª Assembleia Geral da CNBB, essas linhas inspiradoras de ação pastoral passaram a ser chamadas de dimensões. É que a palavra linha não parecia feliz para exprimir a unidade global da ação pastoral. Poderia sugerir paralelismo ou ação pastoral em compartimentos estanques. A expressão dimensões, ao contrário, mostra que os vários aspectos da única realidade global, que é a missão da Igreja, estão ligados entre si.

2- De Dimensão Catequética para Dimensão Bíblico-Catequética 

Marcou profundamente a Pastoral Bíblica na Igreja do Brasil quando na 29ª Assembleia Geral de 1991, acontece mais uma mudança de nomenclatura: o nome Linha 3 Dimensão Catequética foi mudado para Dimensão Bíblico-Catequética, com o intuito de valorizar a Palavra de Deus contida na Bíblia e na Tradição e está fundamentada na Constituição Dogmática Dei Verbum e no Documento no26, Catequese Renovada  Orientações e Conteúdo (1983).

        De fato, os bispos sentiram a necessidade de acentuar a Palavra de Deus como fonte da vivência comunitária e da missão da Igreja. A dimensão bíblico-catequética visa promover um processo de educação pessoal e comunitária, progressiva e contínua, orgânica e sistemática do cristão, na fé, na esperança e na caridade.

Com a passagem de Dimensão Catequética para Dimensão Bíblico-Catequética o destaque dado à dimensão bíblica vinha em boa hora responder ao dinamismo das comunidades eclesiais, dos grupos apostólicos e movimentos que se aproximam da Sagrada Escritura, com novos métodos e nova sensibilidade, afirmavam as Diretrizes da Ação Evangelizadora (nº. 89). A dimensão bíblico-catequética expressa o chamado de toda a Igreja a se fazer permanente ouvinte da Palavra, assimilando-a sempre mais profundamente ao confrontá-la com a vida dentro do mundo e da história. Como afirma a Constituição Dei Verbum: da mesma palavra da Sagrada Escritura, também se nutre salutarmente e santamente floresce o ministério da palavra, a saber, a pregação pastoral, a catequese e toda a instrução cristã  .

Desde o momento em que a Assembleia Geral dos bispos, partindo da fundamentação da Dei Verbum nº. 24 e do Documento 26, Catequese Renovada, definiu-se por Dimensão Bíblico-Catequética e, a partir das Diretrizes de 1991 a 1994, a Comissão responsável pela catequese na CNBB tem se empenhado em desenvolver atividades que contemplem a Bíblia e a Catequese em cada quadriênio. Incentivou também os Regionais para que, nas coordenações das dioceses e arquidioceses, houvesse sempre pessoas ligadas à Bíblia e à Catequese.

 3- De Dimensão para Comissão Episcopal Pastoral

     Na 39ª Assembleia Geral dos Bispos do Brasil, por ocasião da aprovação do Novo Estatuto da CNBB, a Comissão passou a ser chamada de Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética. 

        Segundo a ata do Conselho Permanente de agosto de 2002, isso se deu para responder ao que diz o novo estatuto da CNBB, em seu artigo 70: “Por proposta do Conselho Permanente, a Assembleia Geral fixa, para cada quadriênio, o número de Comissões Episcopais Pastorais, as atribuições e número de componentes de cada uma, tendo em vista as diretrizes da Pastoral Orgânica e as normas da Santa Sé”. 

Com objetivo de acentuar cada vez mais a Bíblia na vida e missão da Igreja, a Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-Catequética elabora seus projetos em comunhão com as demais comissões, num processo participativo com as coordenações regionais oferecendo aos catequistas e às equipes de Animação Bíblica conteúdos e momentos de formação para que eles se tornem agentes construtores de comunidades cristãs que, por seu exemplo, testemunhem Jesus Cristo.

No 21º Plano Pastoral da CNBB (2012-2015) a Comissão para Animação Bíblico-catequética, partindo da Sagrada Escritura e tendo presente as Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2011-2015), a Constituição Dogmática Dei Verbum, a Exortação Apostólica Verbum Domini, o Catecismo da Igreja Católica, o Diretório Geral da Catequese, o Diretório Nacional da Catequese, o Documento de Aparecida e o Estudo da CNBB sobre Iniciação à Vida Cristã (nº 97, assume o compromisso de contribuir para que as propostas contidas nestes documentos sejam operacionalizadas. Para isso ela conta com a colaboração e empenho das Coordenações regionais da animação Bíblico-Catequética e dos grupos de reflexão ligados à Comissão.

Para o quadriênio 2011-2015 a Comissão assume as Urgências da Igreja no Brasil, com destaque para a segunda e a terceira, pois requerem maior atenção da Comissão: Igreja: casa de iniciação à vida cristã, e Igreja: lugar de animação bíblica da vida e da pastoral. 

                                    Ir. Maria Aparecida Barboza 
                                   Maria Cecília Rover. 

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Notícias do Sínodo dos Bispos 18 - Pe. Lima


ARTE  E  FÉ
Visita à Capela Sistina e pré-estreia do filme Via Pulchritudinis
Antes de ontem, durante a reunião dos grupos linguísticos foi anunciado que o Papa nomeou mais seis cardeais, entre eles um latino-americano, Dom Rubén Salazar Gómez, arcebispo de Bogotá - Colômbia. Chamou atenção também o fato de dois deles serem de países com populações muçulmanas significativas: Beatitude Bechara Boutros Rai, de 72 anos, patriarca da Igreja Católica Maronita do Líbano e Dom John Olorunfemi Onaiyekan, 68 anos, arcebispo de Abuja, Nigéria. Esse anúncio, proclamado durante a audiência das quartas feiras, foi uma surpresa, quer pelo pequeno número de nomeados, quer por estar fora de época. Isso levou a especulações sobre a saúde do Papa; outros disseram que o Papa simplesmente está completando as vagas deixadas pelos últimos cardeais que faleceram. O consistório, ou seja, a cerimônia do "empossamento" dos novos cardeais, será em 24 de novembro próximo.

Durante o dia de hoje, o Relator Geral do Sínodo, Dom Donald William Wuerl e os 12 relatores dos grupos linguísticos passaram o dia concluindo a revisão e dando os últimos retoques nas 57 proposições à luz do que sugeriram ontem os 12 grupos. Os outros, tivemos um dia livre.

Foi-nos proporcionada uma visita à célebre Capela Sistina, um dos monumentos de arte mais importantes da humanidade. No próximo dia 30 de Outubro essa Capela estará completando 500 anos. De fato, foi no dia 30 de Outubro de 1512 que o Papa Júlio II, della Rovere, inaugurou os afrescos pintados na imensa abóbada da Capela. Essa monumental obra foi realizada por Michelangelo entre 1508 e 1512. O Papa quis marcar o V centenário dessa obra prima de arte, em nível mundial, com uma cerimônia especial.

Nós, participantes do Sínodo, tivemos muita sorte, pois a Capela foi fechada somente para nós (normalmente ela está repleta de turistas), e tivemos a companhia não só do Diretor do Museu do Vaticano, mas também a guia de especialistas que nos contaram os mínimos particulares da grandiloquente obra, sua história, técnicas de pintura, e, sobretudo, o significado religioso e teológico do grande monumento.

Após explicar-nos as paredes laterais, com afrescos belíssimos de vários artistas daquele momento, retratando cenas do Antigo e do Novo Testamento, a atenção voltou-se para a abóbada onde Michelangelo perpetuou em refinadíssima arte e maestria, cenas da História da Salvação. E, como gran finale da visita, ficamos quase que uma hora somente analisando e apreciando o imenso painel do Juízo Final, fruto da maturidade de Michelangelo, pois ele o pintou 20 anos depois que havia concluído as obras da abóbada.

Ao lado das lições de arte e história, fomos também informados dos vários ritos que se desenrolam ao longo de uma eleição pontifícia naquele ambiente sagrado. Fomos até levados à sala do pranto, uma espécie de antiga sacristia, mas muito pequena, para onde é levado o cardeal que é eleito papa, onde em geral ele chora (daí o nome) de emoção e de temor diante das grandes responsabilidades que está assumindo... Aí também ele prova as vestes pontificais, feitas em três medidas diferentes, para imediatamente ser apresentado depois ao Povo, já revestido das insígnias papais.

Saindo da Capela Sistina fomos imediatamente para a grande Sala Paulo VI, onde há as audiências da quarta feira, e foi então projetada a ante-estreia oficial de um filme especialmente realizado para comemorar os 500 anos da Capela Sistina, os 50 anos do Concílio Vaticano II e em homenagem ao Papa e aos padres sinodais. Como essa sala é imensa, a projeção foi aberta também ao clero, religiosos e religiosas de Roma, e pessoas mais ligadas à Igreja.

O filme é intitulado Fé e Arte, e se refere a um tema que também emergiu nas discussões do Sínodo, ou seja: o caminho da beleza (via pulchritudinis), como uma das possibilidades da Nova Evangelização. O filme mostra como ao longo de 20 séculos, os cristãos souberam expressar a própria fé em Jesus Cristo, na Igreja, na santidade de vida, através da arte mais refinada e requintada. E como também a Igreja, e particularmente o Museu Vaticano, único no mundo, por suas dimensões e pelo acervo de obras artísticas que contêm, se tornou o guardião das maiores obras primas do gênio religioso da humanidade.

Naturalmente, a obra de arte mais mostrada e comentada ao longo do filme, é justamente a Capela Sistina. Assim, aquilo que tínhamos visto ao vivo e a cores na própria Capela, pudemos ver agora, em seus mínimos detalhes, projetado no grande telão da Sala Paulo VI.

O filme, em forma de documentário, do diretor Pawel Pitera, foi produzido pelo Museu do Vaticano, realizado por um canal televisivo polaco, com o apoio da Ordem Militar de Malta. O Papa esteve presente na projeção (e por causa de seu cansaço e idade o filme foi um pouco diminuído), e ao final fez um pequeno discurso que definiu o Museu do Vaticano, e consequentemente o filme, como "um concentrado de teologia por imagens", sublinhando assim a sua missão cultural e espiritual: "O Museu mostra verdadeiramente um contínuo entrelaçamento entre Cristianismo e cultura, entre fé e arte, entre o divino e o humano".

E, referindo-se ao filme, acrescentou: "Percorrendo a via Pulchritudinis, o caminho da Beleza, pode-se chegar à porta da fé. Mas para que este itinerário não seja privilégio de uns poucos, é importante que as imagens, bem como a narrativa humana que as acompanha, cheguem a um público cada vez mais vasto e diversificado. Para isso foi produzido um DVD, que, em 70 minutos, condensa com maestria 2000 anos de história da Igreja e da arte".

Esse DVD será distribuído mundialmente a partir de novembro. E cada um de nós, participantes do Sínodo, tivemos a sorte de receber um exemplar, que, no mercado, custará 10 euros. Assim, antes de terminar o Sínodo, pudemos passar uma tarde mergulhados na beleza da arte, poderoso veículo para suscitar e alimentar a nossa fé.

Roma, 25 de Outubro de 2012, Quinta feira.
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

30º. Domingo do Tempo Comum - B


Deus é compaixão. O pequeno resto de Israel, descrito pelo profeta Jeremias, é constituído de cegos, aleijados, grávidas... É um povo sofrido, que entre lágrimas é acolhido por Deus com amor de Pai: “pois me tornei um Pai para Israel” (Jr 31,9). A compaixão (=sentir com, sofrer com) nasce da proximidade de Deus. Em Cristo Jesus, Deus se tornou um sacerdote compassivo, pois Ele mesmo é cercado de fraqueza. O rebaixamento de Deus, seu despojamento ao se encarnar, fez dele um entre nós, alguém que entende nossas dores, nossas fraquezas, não nos deixando sem auxílio (Hb 5,2). Deus ama os pequenos: quer dar luz aos cegos, transformar a dor do parto na alegria dos filhos. A condição de escravidão não é insensível aos olhos de nosso Senhor.

O Evangelho deste domingo nos traz um destes pequenos que são acolhidos no coração de Deus: Bartimeu, o cego. Trata-se de um mendigo, considerado pelos judeus como um portador de um castigo. Todos nós podemos nos colocar, de algum modo, na posição deste cego: trazemos nossas misérias, nossas cegueiras, nossa pobreza. Também esperamos um messias que passe na nossa estrada e nos cure. Há aqueles que são também pouco considerados na sociedade e na comunidade, afamados como pessoas sem solução e que não merecem a ajuda.

O cego Bartimeu é um homem ousado. Ao saber que Jesus está passando, não se importa com a multidão, com os preconceitos, com os esquemas humanos; sua atitude é o grito: “Jesus, filho de Davi, tende piedade de mim!” Muitos o repreenderam, mandaram-no se calar, mas ele gritou com mais força, repetindo a súplica. Quando o Nazareno viu a conturbação, quando percebeu a ousadia e a fé daquele homem, pediu que ele viesse até ele. Então, percebe-se uma atitude mais positiva da multidão: “Coragem, vai em frente, ele está lhe chamando!”

Bartimeu nos ensina que é preciso se colocar a caminho. É cômodo ficar à beira do caminho, preso nas misérias. É preciso sair, dar o passo, e colocar-se no caminho do Mestre, ir ao encontro dele, para depois caminhar com Ele.  Encontraremos sempre pessoas que nos ajudarão a ir ao encontro de Cristo e pessoas que tentarão nos atrapalhar. É preciso aprender a discernir entre as várias opiniões, valorizando quem nos ajuda a descobrir o melhor caminho. Certamente, será necessário contar com a solidariedade dos outros (os amigos, a comunidade), pois ninguém vai seguir o caminho sozinho; infelizmente, sempre haverá pessoas para trazer o desânimo com palavras de fatalismo – “fique quieto, pois não adianta!” É preciso escutar as vozes que dizem: “vai em frente que Ele está lhe esperando!”

“O cego jogou o manto, deu um pulo e foi até Jesus”. Jogar o manto representa um corte radical com o passado, com a vida velha, com a anterior situação de mendicância e de vitimismo, com a existência velha, a fim de começar uma vida nova. O Senhor também nos chama a dar o passo (até mesmo um pulo) e deixar para trás as situações ou os sentimentos do nosso passado que nos atrapalham, que imobilizam a nossa vida. É preciso se reconciliar com o passado, não se prender a ele, olhar para frente e pedir que o Senhor nos cure.

Jesus certamente sabia o desejo do cego, mas fez questão fazer o questionamento. Fez a mesma pergunta que fizera a Tiago e a João no domingo passado. Porém, bem diferente da resposta dos apóstolos que apontou para desejos de privilégios do reino, Bartimeu não hesitou em desabafar sua real e autêntica necessidade, o que realmente se encaixa dentro da proposta do Evangelho e que certamente tocou o coração de Jesus: “Mestre, que eu veja!”. Nossa atitude também deve ser a mesma. Não podemos esperar que Deus nos transforme sem a nossa colaboração, sem a nossa abertura e nossa fé. A cura do cego é um sinal forte: significa não andar nas trevas, acolher a luz, deixar a cegueira de uma vida sem rumo, abraçar a vida de um Deus que nos ensina no caminho, mas antes de tudo, indica-nos o caminho a seguir. Hoje o Senhor nos abre os olhos, faz-nos enxergar ainda mais.

Que recuperemos nossa visão. Tiremos os ciscos e traves que atrapalham nossa vista e nos coloquemos como Bartimeu, a caminho. Ao longo da estrada muitas coisas nos esperam, situações tristes e alegres. Tenhamos a certeza de que o Senhor estará sempre conosco.

Pe Roberto Nentwig

A abertura de Paulo aos não judeus


A história do início do cristianismo tem muitas características originais, que não aparecem na tradição de outras religiões. O mais fundamental, é claro, está na Encarnação do próprio Deus, que vem viver a vida humilde de um carpinteiro criado num lugar sem muita importância diante dos poderosos. Mas há outros elementos a respeito desse Filho de Deus encarnado que têm muito a nos dizer: Jesus escolheu apóstolos que também não eram doutores, capacitados, considerados importantes; morreu relativamente jovem, de um modo humilhante; era um judeu falando para judeus, distante dos centros culturais de povos com mais condição de difundir a sua mensagem.

Nessa situação, seria de se esperar que a pregação de Jesus e o significado total de sua missão ficassem restritos a um grupo pequeno, que o cristianismo se tornasse apenas uma seita de judeus seguidores do judeu Jesus. Mas nós sabemos que não foi isso que aconteceu. A mensagem se espalhou pelo mundo, marcou a história mundial e até determinou a contagem dos anos a partir da chegada de Jesus ao mundo.

Nessa reviravolta, a figura de Paulo foi fundamental. Ele era diferente, tinha uma formação cultural aprimorada e uma capacidade grande de se relacionar com outros povos. Apesar de não ter conhecido Jesus enquanto Ele estava pregando, foi o grande fator de expansão da mensagem cristã a outros povos. 

Paulo era judeu, formado no estilo dos fariseus, defensores do cumprimento rigoroso das leis religiosas de seu povo. Foi por isso que começou perseguindo os cristãos, que enxergava como elementos desviantes da verdadeira fé. Mas Jesus ressuscitado foi atrás dele e o converteu. E aí aconteceu uma coisa muito interessante: o novo discípulo, de formação tão conservadora, tornou-se até mais aberto aos pagãos do que os apóstolos do primeiro grupo. Foi Paulo que ampliou o cristianismo para além das fronteiras judaicas. Foi ele que entendeu Jesus o suficiente para perceber que as leis de culto do Antigo Testamento deveriam ser seguidas pelos judeus convertidos, mas podiam ser dispensáveis para os que viessem de outros povos. Sem isso, a expansão do cristianismo seria bem menos ampla. 

Paulo compreendeu direitinho também que  as atitudes mais importantes eram a fé e a caridade. Com ele, judeus cristãos poderiam continuar praticando, por exemplo, a circuncisão e as regras alimentares enquanto cristãos de outras origens estariam dispensados desses preceitos. Todos, porém, eram orientados para dar testemunho de fé, mesmo correndo riscos, e para a prática indispensável da caridade. Era um cristianismo que soube viver no seu início a unidade dentro da diversidade.

Hoje o exemplo de Paulo pode nos inspirar no diálogo ecumênico. As Igrejas cristãs já têm uma certa unidade básica: têm fé no mesmo Jesus, estudam e amam a Bíblia, valorizam o Batismo, a oração, a caridade, querem ser para o mundo um sinal daquilo que o amor de Deus quer ver nos relacionamentos humanos. Mas há também a diversidade no modo de expressar a fé, de interpretar a doutrina, de realizar as celebrações, de organizar a disciplina religiosa e as lideranças de cada comunidade. Vivemos há séculos um processo de separação, com grave rejeição mútua, que não havia nas primeiras comunidades. Mas foi mantendo a unidade entre os diferentes que Paulo ajudou o cristianismo a ter força para se expandir entre povos que não se adaptavam à cultura na qual Jesus viveu. Uma catequese que valorize a dimensão ecumênica poderia hoje fortalecer bastante a evangelização, buscando viver a unidade na diversidade e sendo para o mundo um sinal de que o nosso amor pode ser maior do que as nossas diferenças.   

Therezinha Cruz

Notícias do Sínodo dos Bispos 17 - Pe. Lima


DISCUTINDO AS PROPOSIÇÕES
Trabalho nos Círculos Menores (Grupos)
Hoje não ouve plenário. Todo o dia foi dedicado à discussão das 57 proposições nos 12 círculos menores, também chamados grupos linguísticos, pois nos reunimos por línguas que previamente havíamos escolhidos. Como já disse, fui como assessor no grupo Hispanicus A, bastante numeroso. A maioria era da América Latina (do Brasil estávamos Dom Odilo, Dom Geraldo Lírio e eu), alguns europeus (espanhóis) e outros de países africanos que falam português (Angola, Moçambique, São Tomé e Príncipe...).

Continuou a reclamação da falta de uma tradução em língua mais compreensível já que dispomos apenas do inglês, traduzido para o latim extremamente clássico e difícil. Frequentemente era necessário recorrer ao inglês para entender o latim e vice versa: às a tradução latina expressava melhor a ideia do que o original inglês, ou a ideia estava melhor expressa em inglês que o latim. Eu mesmo tive a oportunidade de corrigir um título que trocava Ministerium por ministrum...

As normas dadas para as discussões nos grupos linguísticos eram bastante rígidas. Não podíamos fazer propostas individuais por escrito; qualquer proposta deveria ser discutida e aprovada por maioria relativa, caso contrário não era aceita. As sugestões seriam apenas para "aperfeiçoar" os textos, sem mexer em seu sentido substancial nem na estrutura. Deveriam se restringir a mudar palavras, fazer citações e fazer pequenos acréscimos para melhorar a ideia já expressa. Como se vê, a redação das 57 proposições apresentadas nessa brochura intitulada "Elechus unicus propositionum" já vinha quase como pronta. O relator do grupo deveria tomar nota de tudo e levar para a reunião dos 12 relatores dos grupos amanhã, junto com a presidência, para elaborarem a redação final.

Apesar de tantas restrições, o nosso grupo trabalhou a tarde de ontem, e nos dois períodos de hoje, manhã e tarde. Foi uma discussão bastante boa. Aparecia, como já havia sido notado, alguma diferença de experiências e mentalidades entre latino-americanos e africanos, e os europeus (espanhóis). Quando eu apresentei a proposta de trocar o título do no. 29 de "Catecismo" para "Catequese, catequistas e Catecismo", o mundo veio abaixo... protesto geral, pois o que o Sínodo queria era acentuar o valor do Catecismo da Igreja Católica e urgir o seu uso na catequese. Argumentei sobre a prevalência da fides qua (resposta pessoal, adesão à pessoa de Jesus) sobre a fides quae (conteúdo, doutrina), mas fui voto vencido. E o pior é que, em todo o Elenco das 57 proposições, não se fala da catequese em si explicitamente, nem dos catequistas. Alguém disse que o texto já falava dos leigos em geral, e isso bastava... imaginem!

A questão do ministério dos catequistas definitivamente não passou, pelo menos no meu grupo. E no Plenário também eu já havia sentido uma resistência a essa ideia... Soube, por outras vias, que no neo-catecumenato os catequistas às vezes passam por cima da autoridade do padre e querem extrapolar seus limites. Daí o medo de alguns em reforçar tal realidade se por acaso a catequese fosse reconhecida como ministério...

A todo momento eu dizia que determinado assunto estava fora de lugar... aliás, comentando minha crônica de ontem, alguns já me fizeram essa observação, através de e-mails, particularmente no cap. III. Então o Moderador (coordenador do grupo) pediu que eu fizesse, ao final, uma proposta e apresentasse no final da tarde por escrito uma nova disposição dos 15 números. Foi o que fiz, redistribuindo a matéria da seguinte ordem: 01 Liturgia; 02 Paróquias e outras realidades eclesiais; 03 Iniciação Cristã e NE; 04 Sacramento da Confirmação e a NE; 05 Catequese com Adultos; 06 Catecismo; 07 Sacramento da Penitência e NE; 08 Domingos e Festas; 09 Teologia; 10 Educação; 11A dimensão contemplativa da NE; 12 NE e opção pelos pobres; 13 Peregrinações e NE; 14 Enfermos; 15 Pontifício Conselho para promover a NE.

A proposta foi aprovada. E também aproveitei para pedir a mudança do título 06 Catecismo, por Catequese, Catequistas e Catecismo. Como disse, em nenhum lugar se fala dos catequistas nem da catequese explicitamente. Com o apoio de Dom Odilo Scherer, Arcebispo de São Paulo, (a palavra de um cardeal pesa muito), conseguimos acrescentar nesse mesmo número, um parágrafo sobre o catequista, através de uma citação do Instrumento de Trabalho e modificando o título desse no. 6 para: Catequistas e Catecismo... O texto poderia ser muito mais aperfeiçoado, mas foi o que conseguimos. O trecho acrescentado foi: 

"Os catequistas são testemunhas diretas e evangelizadores insubstituíveis que representam a força basilar das comunidades cristãs. Têm necessidade que a Igreja reflita com maior profundidade sobre a sua missão, dando-lhes maior estabilidade, visibilidade ministerial e formação" (Instrumentum Laboris 108).

Outros temas bastante discutidos e com modificações aceitas e integradas no texto foram: as relações entre fé e ciência, um pedido para a Santa Sé que dê orientações mais claras e precisas sobre a situação de casais de segunda união ou canonicamente irregulares, inspirando-se na tradição da Igreja Ortodoxa e de outras igrejas cristãs; o texto sobre as comunicações foi muito mais ampliado, não ficando apenas no uso instrumental, mas entrando dentro da cultura midiática gerada ultimamente; deu-se maior importância às universidades e escolas católicas. O texto sobre a Liturgia foi muito mais ampliado e completado, graças à rica contribuição de Dom Geraldo Lírio, arcebispo de Mariana (MG).

Sobre a ordem e sequência dos sacramentos da iniciação para os batizados na infância (batismo, crisma, eucaristia, ou eucaristia e crisma) o texto saiu pela tangente, citando novamente a Sacramentum Caritatis e remetendo o problema para as dioceses e conferências episcopais.

Os trabalhos dos grupos terminaram um pouco mais cedo, de modo que todos puderam retornar antes do horário previsto, para suas residências, menos os 12 relatores dos círculos menores, que se reunirão com a equipe encarregada de unificar as preposições. Eles passarão amanhã todo o dia reunidos e trabalhando na segunda redação das Proposições para apresentá-las na sexta feira, quando haverá uma votação. Os outros, ganharemos um dia mais de vacat, ou seja de tempo livre durante toda a quinta feira.

Ontem ouve a votação definitiva para a composição do Conselho do Sínodo, que irá ajudar o Papa a redigir a exortação apostólica sobre a Nova Evangelização, objeto de nossas reflexões e, depois, preparar o próximo Sínodo (2016 ou 2017). Foram 15 eleitos, três por continente. Para o continente americano foram eleitos: Dom Odilo Pedro Scherer, Cardeal Arcebispo de São Paulo (Brasil), Dom Santiago Jaime Silva Retamales, Bispo Auxiliar de Valparaiso (Chile) e Secretário Geral do CELAM e o Card. Timothy Michael Dolan, Arcebispo de New York (EUA).

Roma, 24 de Outubro de 2012, Quarta feira.
Pe. Luiz Alves de Lima, sdb.

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