sexta-feira, 17 de agosto de 2012

Maria e o diálogo ecumênico


A sabedoria popular costuma nos alertar: com mãe não se mexe! Relação de filho e mãe é delicada e exige respeito. Isso fica bem claro na religiosidade popular, que cerca Maria de todos os títulos e venerações que um coração de filho pode inspirar. Por isso, talvez o que mais provoque desgosto, em relação aos irmãos protestantes, é o que os católicos percebem neles como desvalorização de Maria. Mas, de fato, o que esses irmãos rejeitam não é a mãe de Jesus, mulher louvada na Bíblia como “cheia de graça” , exemplo de servidora que se entrega para que nela se realize a Palavra de Deus. Eles não se afastam dela por indiferença, mas para manter uma identidade que os distingue de nós. Embora haja divergências sobre a doutrina referente a Maria, eles não têm realmente um problema com ela, o problema é conosco. 
           
Um amigo presbiteriano me contou um episódio que deixou isso bem claro. Sua comunidade estava organizando um livro de hinos religiosos para as celebrações. Foram sugeridos cantos que louvavam diversos personagens bíblicos: Moisés, Elias, Isaías... Então meu amigo, de propósito para ver a reação do grupo, sugeriu: já que vamos cantar canções sobre esses personagens bíblicos, não poderíamos incluir um canto sobre Maria? Fez-se um silêncio embaraçoso. Ao fim, meio sem jeito, um dos participantes observou: _Isso não dá! Assim a gente ia ficar igual a eles... Esse “eles”, é claro, éramos nós, os católicos, com quem eles não queriam se parecer. Comentando a fato, meu amigo observou: Maria ficou ferida no meio da briga; quando nós pararmos de brigar e ficarmos amigos, os evangélicos também vão poder expressar a admiração que ela merece.

Minha experiência mostra que ele estava com a razão. Participei da coordenação de um grupo ecumênico de estudo bíblico durante quatro anos. Os roteiros de estudo eram preparados por mim e por um pastor luterano. Depois de muito tempo de convívio, a confiança mútua e a amizade permitiam que se abordasse qualquer assunto em que havia divergência entre as Igrejas porque ninguém tinha receio de que outro estaria usando aquele tema para minar sua identidade. Foi também dentro desse espírito que um dia minhas amigas da Igreja Luterana me chamaram para fazer a pregação num culto em que o evangelho a ser meditado versava sobre a anunciação e a visitação a Isabel. Antes de começar a falar fui apresentada à comunidade com as palavras: “Esta é uma amiga católica que vai nos falar sobre a mulher mais importante que a história do mundo já produziu: Maria, a mãe de Jesus.” E tudo deu certo.  Com garantia de respeito mútuo, muitos caminhos se abrem.

Por outro lado, também temos que reconhecer que a religiosidade popular muitas vezes exagera na devoção mariana. O amor é tanto que às vezes ela é colocada numa posição que não lhe cabe, como se fosse igual à Trindade, em vez de ser o grande exemplo de servidora que deveria nos inspirar. Muita gente que acha lindo coroar a imagem de Maria esquece que o grande recado que ela deixou para nós na Bíblia é aquele das Bodas de Cana: Façam tudo que Ele vos disser. Também em relação a outros santos, o povo lembra muito mais deles como intercessores do que como exemplos de fé a serem seguidos. Há devotos de muitos santos que não sabem nada sobre a vida dessa pessoa, só se interessam pelo tipo de favor que podem conseguir através dela. Uma catequese que pusesse as devoções num caminho melhor, ajudando a ver os santos como uma inspiração para vivermos melhor a nossa fé, guardando a memória desses irmãos e irmãs como exemplos venerados com carinho, estaria também facilitando nosso diálogo com os outros cristãos. 

Therezinha Cruz

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