segunda-feira, 20 de agosto de 2012

Do encontro ao despertar da fé (TEXTO - João 4,1-42)

Querido leitor/a, dando continuidade à nossa reflexão orante sobre a temática “encontros que despertam a fé”, convido, você, à leitura mistagógica do texto de São João, capítulo 4, 1-42. Nesses últimos anos, nossos bispos têm alertando a Igreja no Brasil, para a importância da Leitura Orante, como método que conduz o leitor ao encontro com Jesus Cristo. Almejamos uma Catequese Iniciática, ou seja, uma catequese que inicie o catequizando aos mistérios da fé. Penso que, para este processo, muito nos ajudaria o cultivo da leitura mistagógica da Bíblia. Num tempo em que se destaca a necessidade de uma catequese querigmática e bíblico-vivencial, a tarefa principal do catequista, leitor, ouvinte e servidor da Palavra é, antes de tudo, descobrir a intenção querigmática e mistagógica que está por trás de cada evangelista. Daí a importância de acentuar a mistagogia como uma das formas que possibilita o mergulho ao texto em profundidade. Ir à essência do texto, dialogar com o autor, descobrir o contexto em que originou aquele texto, a mensagem para aquele tempo e para nós hoje. 

Na narrativa de João 4, 1-42, é bonito de ver os passos mistagógicos com que foram conduzindo a mulher da Samaria à descoberta da fé (Senhor, dá-me desta água, para que eu não tenha que vir aqui tirar água (v. 15); Senhor, vejo que és um profeta! V. 19), ao anúncio querigmático (ela foi anunciar ao seus sobre Jesus v. 29) a conversão e a adesão a Jesus Cristo, como o “Salvador do mundo (vv. 39-42). 

A Comunidade Joanina tem um estilo próprio de catequizar. O evangelista se utiliza das situações concretas do cotidiano do povo, e através de sinais vai introduzindo a pessoa no processo iniciático da fé. Vejamos como tudo isso acontece no nosso texto, João 4, 1-42. 
Podemos catequeticamente dividir o texto em cenas de acordo com as temáticas do próprio texto. Assim temos: 

- CENA I: dados geográficos (1-6): Jesus deixa a Judeia e vai em direção à Galileia (1-3), atravessa a Samaria (v. 4) e chega a uma cidade da Samaria (v. 5). Cansado da viagem, Jesus se assenta diante do poço. 

- CENA II: Diálogo em torno do poço (Jo 4, 7-15): uma mulher da Samaria  vem buscar água (v.7), Jesus pede de beber, inicia-se aqui o diálogo propriamente dito (v.7),  Jesus revela o mistério de sua pessoa e dom da água Viva (vv.10-14);  a Samaritana pede de beber  desta Água Nova (v.15). 

- CENA III: Diálogo em torno do marido, da família e ou da Religião (16-18): Jesus pede para a mulher  buscar seu marido (v.16), a mulher responde que não tem marido (v.17ª); Jesus disse que ela contou a verdade, pois, tivestes cinco e agora, o que tens, não é teu (v.17b); a mulher diz que Jesus é um profeta Profissão da mulher (v.19); a conversa em torno do lugar e do conteúdo da adoração (vv.20-24) e a revelação de Jesus: “Sou eu, que estou falando contigo” (v.26). 

- CENA IV: Diálogo com os Discípulos (Jo 4, 27-38): Sai a mulher e entra em cena os Discípulos (v.27), a conversa  se dá em torno não do alimento, mas do Projeto de Jesus (vv.31-38).

- CENA V: Encontro dos Samaritanos com Jesus (Jo 4, 39-42): A mulher deixou o cântaro e correu à cidade ANUNCIAR para os “seus” (v. 28), Os samaritanos saem ao encontro de Jesus (v. 30), eles  foram até  Jesus  e pediram a Jesus para ficar/permanecer com eles (vv. 39-40),  Jesus permanece por dois dias (v.40) e muitos outros samaritanos creram e reconheceram Jesus como o Salvador do mundo (v.41-42).

O processo do despertar da fé. Retomando a narrativa, é possível perceber os vários passos mistagógicos. O Pedagogo e Mistagogo Jesus, se utilizou da metodologia dialogal para conduzir a mulher da Samaria e o seu povo, aos mistérios da fé. Vejamos como catequéticamente se deu este processo:

1- Itinerância Jo 4, 1-6: Ir ao encontro das pessoas é um marco da prática catequética de Jesus. O texto diz que Jesus tinha saído da Galileia, andou pela Judeia, foi até Jerusalém por ocasião da festa (Jo 4,45) e, passando pela Samaria, voltaria para a Galileia (Jo 4,3-4). Ir ao encontro das pessoas para provocar a sede, é necessário e indispensável no processo iniciático da fé;

2- Superar as barreiras de Gênero, religião, raça e classe: Segundo o costume, para um judeu observante da lei, era proibido passar pela Samaria e nem era costume conversar com os samaritanos (Jo 4,9). Os Evangelhos Sinóticos reportam uma proibição de Jesus aos seus discípulos: “Não deveis ir aos territórios dos pagãos, nem entrar nas cidades dos samaritanos” (cf. Mt 10, 5). No entanto, segundo o texto, Jesus “devia passar pela Samaria” (4,4) e afirma, ainda, que Ele permaneceu lá por dois dias e muita gente se converteu (Jo 4,40). 

3- Encontro e Diálogo: O texto nos diz que Jesus chegou  na Samaria, cansado da viagem e  sentou-se à beira do poço que recebe o nome de “Poço de Jacó. Logo, é um poço que tem História-Memória, Herança-Tradição (cf. Gn 33, 18-20 e Js 24, 32). O poço era, para os samaritanos, um lugar sagrado, além de saciar a sede, significa a herança dos seus ancestrais. Neste sentido, o poço pode ser entendido como o lugar do encontro das tradições. É o encontro do próprio Deus com o seu povo. Um mulher da Samaria veio para buscar água. Ela  é anônima,  traz apenas o nome de seu povo: Samaria. A comunidade joanina ao colocar Jesus, um judeu na Samaria, catequeticamente faz acontecer o encontro entre os dois povos: Judeus e Samaritanos- Cultura e costumes diferentes que se entendem.

- Poço, lugar de encontro, diálogo e partilha de vida: Jesus é quem primeiro toma a iniciativa no diálogo: “Dá-me de beber” (v. 7). A mulher se espanta quando Jesus lhe pede água e diz: “como é que tu, sendo judeu, pedes a mim, que sou samaritana?” (Jo 4,9). Romper com as estruturas que não favorecem o Processo Iniciático é parte integrante da missão de todos os batizados. Jesus respondeu: “se conhecesse o dom de Deus, e quem lhe está pedindo de beber, você é que lhe pediria. E ele daria a você água viva” (Jo 4,10). Veja que o diálogo vai progredindo gradativamente e significativamente. Jesus, o Catequista, Pedagogo e Mistagogo, vai conduzindo a catequizanda samaritana ao Processo Iniciático da fé. A mulher vai buscar água, com o seu cântaro, todos os dias. Jesus lhe oferece outro tipo de água. Ele convida a Samaritana a passar do nível material/físico para o místico espiritual. Buscar água todos os dias fazia parte da rotina da mulher. As perguntas de Jesus surpreendem a mulher. O diálogo se torna envolvente e profundo. Aos poucos ela vai descobrindo que Jesus é Senhor (v. 11), Profeta (v. 19), Messias (v.25) e o Salvador do mundo (v. 42). Para a comunidade Joanina, a simbologia da água é muito significativa. A água é o símbolo da vida, enquanto se comunica ao ouvinte. No capítulo anterior, no diálogo com Nicodemos, Jesus diz que “é preciso nascer da água e do espírito” (Jo 3,5). Para os samaritanos, Jesus se anuncia como “uma fonte de água que jorra para a vida eterna”(4, 10-15). Trata-se do dom da fé, entendido como dinamismo para vida eterna.

- O Diálogo em torno do marido, da família e ou da Religião: Jesus disse à mulher: “vai chamar o teu marido” (v. 16). Na tradição bíblica, marido está, também, ligado à religião: Iahweh esposo e Israel a esposa). O tema de Iahweh como esposo de Israel é inteiramente bíblico: Os 2, 18-25; Jr 2, 2; Ez 16, 1-4). No Livro dos Cânticos dos Cânticos – temos a relação do Amado com a amada. Jesus retoma esta imagem como verdadeiro esposo, assim como a Vinha (Jo 15). Os cinco maridos poderiam evocar simbolicamente, os cinco ídolos do povo samaritano. No Livro de Reis encontramos a informação que os Assírios, depois da conquista da Samaria (722 A.C.), trouxeram para a região, povos estrangeiros que “não prestavam culto ao Senhor”(cf. 2Reis 17, 24-25). Eles misturaram-se com os nativos e criaram um culto incompatível com a religião de Israel. Por sua vez, o evangelista João ao relatar este encontro neste cenário, acentua a dimensão universal da proposta de Deus. Ao mesmo tempo aborda o tema da revelação de Jesus à Samaritana e, por meio desta, ao seu povo, e a sua proclamação de Jesus como o Messias.

- Profissão de fé da Mulher Samaritana (v. 19): Pelo diálogo, Jesus conduziu a mulher da Samaria ao processo iniciático da fé. Ela, agora, identifica quem é Jesus e diz: “Senhor, vejo que és um profeta". Este foi o momento decisivo em sua vida. O momento da descoberta da fé. Ela agora se situa no diálogo e toma a iniciativa de dialogar. 

- O Diálogo em torno do lugar da adoração (v. 20-26): Ela muda o foco do diálogo e inicia um outro assunto. O tema da religião: “Nossos pais adoraram nesta montanha, mas vós dizeis: é em Jerusalém que está o lugar onde é preciso adorar” (v. 20). Onde devemos adorar a Deus? Lá em Jerusalém ou aqui no Monte Garizim? Os samaritanos tinham construído um templo no Monte Garizim, que ficava perto do poço onde eles estavam dialogando. Jesus, pedagogicamente, se apropria da abertura da mulher e responde: “Nem nesta montanha e nem em Jerusalém adorareis o Pai” (v. 22). Mistagogicamente, Jesus vai afirmando que tanto os judeus como samaritanos, devem adorar a Deus. E oferece o verdadeiro conteúdo desta adoracão: “Adorar em Espírito e Verdade” (v. 23). Jesus retoma a RUAH, o Espírito de Deus desde a criação. Os que adoram em Espírito e verdade são os nascidos do Espírito (Jo 3, 3-
8). O verdadeiro Culto é aquele que provoca o encontro com o Senhor que é Espírito e Verdade. 

- Encontro que desperta à fé e ao seguimento: A mulher samaritana, ao fazer o processo da descoberta da fé, vai ao encontro dos seus e anuncia, com alegria: “Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz, não será ele o Cristo” (v. 29). Eles saíram da cidade ao encontro de Jesus. O anúncio querigmático da mulher fez com que os “seus” fossem ao encontro de Jesus. Eles foram e creram em Jesus, por causa do testemunho e da palavra da mulher (v. 39). O processo iniciático da fé exige querigma e mistagogia. Ao ver Jesus, os samaritanos se encantaram e pediram a Ele para ficar/permanecer com eles (v. 40), Jesus permaneceu por dois dias, onde muitos outros samaritanos, acreditaram em Jesus e professaram a sua fé, afirmando que “verdadeiramente este é o Salvador do mundo” (v. 42).

Ir. Maria Aparecida Barboza, Icm

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