sexta-feira, 24 de agosto de 2012

A plena comunhão que ainda não temos

 Na encíclica Ut Unum Sint, o documento mais contundente sobre ecumenismo, o papa João Paulo II nos diz: “Com efeito, os elementos de santificação e de verdade presentes nas outras Comunidades cristãs, em grau variável de uma para outra, constituem a base objetiva da comunhão, ainda imperfeita, que existe entre elas e a Igreja Católica.” UUS 11   O papa fala de uma “comunhão imperfeita”, ou seja, reconhece que há elementos que favorecem a comunhão mas que também há ainda entraves para a vivência de uma comunhão perfeita, não há o que chamamos “comunhão plena”. Há ainda dificuldades que temos esperança de ver a superar no futuro.

Pelo Batismo, quando há reconhecimento mútuo da validade, essa comunhão começa a se manifestar. Quando uma Igreja reconhece que o Batismo da outra é válido, não dá mais para dizer que os que assim foram batizados não são verdadeiros cristãos. Nossa Igreja reconhece a validade do Batismo em muitas outras (para maior esclarecimento, pode ser consultado o nosso Código de Direito Canônico). Valores são reconhecidos por nós em outras Igrejas: boas obras, amor à Escritura, testemunhos de santidade e outros.

Mas permanece um entrave no que refere à Eucaristia. O Concílio Vaticano II se expressa assim: 

Embora falte às Comunidades eclesiais de nós separadas a unidade plena conosco proveniente do Batismo e embora creiamos que elas não tenham conservado a genuína e íntegra substância do Mistério Eucarístico, sobretudo por causa da falta do sacramento da Ordem, contudo, quando na Santa Ceia fazem a memória da morte e ressurreição do Senhor, elas confessam ser significada a vida na comunhão de Cristo e esperam seu glorioso advento. UR 22
 
Ou seja, as Igrejas da Reforma cumprem o que Jesus pediu: fazem seriamente a memória da Santa Ceia. O problema está noutro sacramento: falta uma ordenação sacerdotal que nossa Igreja considerasse válida. Por isso, embora em circunstâncias bem especiais membros dessas Igrejas possam às vezes receber a comunhão em nossa missa, a recíproca não funciona: um católico não pode receber a comunhão na Santa Ceia de uma outra Igreja se nela nossa Igreja não reconhecer como válida a ordenação do ministro.

Isso tem sido motivo de dor entre cristãos de Igrejas diferentes que já aprenderam a se valorizar como irmãos de fé. Tem causado também embaraços em certas celebrações.  Um dia, um bispo anglicano que atuava no CONIC participou de um encontro ecumênico em que os participantes compreenderam bem esse problema e decidiram celebrar a Ceia sem a inter comunhão: quando o celebrante era anglicano, os católicos recebiam uma bênção mas não comungavam e, quando o celebrante era católico, o mesmo se aplicava aos anglicanos. Perguntei a esse bispo o que ele achava desse procedimento e ele me deu uma resposta muito interessante: “Os cristãos precisam aprender a sentir a dor da separação para nunca deixarem de trabalhar pela plena unidade”.  Ele via essa dor como algo que não nos deixava esquecer  que havia ali algo que precisava ser curado. Nesse sentido, as dores são positivas. Se uma doença bem grave não produzir dor, o paciente não busca remédio e acaba pior.

A dor em questão também não foi motivo para os participantes daquele encontro violarem as regras estabelecidas pelas duas Igrejas. Ecumenismo se faz buscando caminhos que vão nascer do diálogo. Reconhecer as barreiras que ainda existem é uma motivação para conversar melhor sobre elas, buscar soluções com seriedade, para que um dia a tão desejada “comunhão plena” seja uma realidade oficialmente reconhecida e alegremente vivida.

Therezinha Cruz

Um comentário:

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