sexta-feira, 8 de junho de 2012

Um caso especial : diálogo com o judaísmo


            Embora a Igreja nos peça uma catequese capaz de educar, entre outras coisas, para uma espiritualidade ecumênica e de diálogo inter-religioso, com muita freqüência se faz a educação da fé católica sem mencionar cristãos de outras Igrejas ou seguidores de outras religiões. Mas é impossível fazer uma catequese sem uma referência ao judaísmo.  Trata-se aí da raíz da boa nova cristã. Jesus. Maria, José, João Batista e os apóstolos eram judeus, falavam a partir da tradição em que estavam mergulhados. A maior parte da nossa Bíblia coincide com a Escritura sagrada dos judeus, mesmo que interpretemos os textos a partir de outra chave de leitura.

            Como estamos mais próximos deles, os riscos de enfrentamento são maiores. Afinal, como a maioria de nós já reparou, irmãos brigam mais do que primos... Aí fica fácil nos deixarmos levar por uma interpretação bíblica que colocaria Jesus de um lado e os judeus de outro. Alguém poderia dizer: Mas Jesus censurou os judeus, especialmente os fariseus, chamou-os de hipócritas, até de “raça de víboras”, e foram os sacerdotes judeus que tramaram a morte de Jesus . É verdade que Jesus se opôs, até com bastante veemência, a alguns judeus e também recebeu forte oposição de alguns deles. Mas alguns não são todos. E se Jesus aparecesse hoje no meio de nossas comunidades cristãs, será que ele não teria censuras bem semelhantes para fazer a alguns de nós?  Dizer que certas críticas de Jesus foram feitas somente àqueles “fariseus” é muito cômodo: muita gente se considera então dispensada de se perguntar se não está fazendo algo que mereça censura semelhante.

            Muitas vezes esquecemos de ter uma visão panorâmica dos fatos. Por exemplo, pensemos numa pregação sobre a aparição do ressuscitado em Jo 20, 19-22, que começa dizendo que os discípulos estavam “reunidos com as portas fechadas por medo dos judeus”. É muito difícil que alguém se lembre de dizer que aqueles que estavam por trás das portas fechadas também eram judeus. Ou seja: não havia cristãos de um lado e judeus de outro, havia dois grupos diferentes de judeus. As posições eram opostas? Sim, mas sempre é comum haver posições opostas numa sociedade. Quando colocamos, na catequese, Jesus e os judeus em oposição, esquecendo que o próprio Jesus era judeu, vamos criando, mesmo sem perceber, uma má vontade com o povo do Primeiro Testamento, através do qual nos chegou a mensagem da nossa própria fé.

            Na catequese, a valorização do judaísmo teria frutos muito interessantes. Os judeus fazem o que chamamos de “catequese narrativa”: ensinam contando histórias ou explicando o que suas festas religiosas querem transmitir. Têm amor à história que construiu sua identidade. Um judeu, ao celebrar a Páscoa, por exemplo, é convidado, desde pequeno, a se sentir parte da história da libertação de seu povo, como se ele mesmo estivesse saindo do Egito com Moisés. Nós muitas vezes permitimos que festas como Páscoa e Natal sejam dominadas pelos interesses do mercado, deixamos a história de nossos santos na sombra e eles passam a ser vistos muitas vezes só de forma interesseira, como intermediários para conseguir graças. Teríamos muito que aprender com o estilo judaico de transmitir e celebrar a fé.

            A Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico Catequética da CNBB publicou um caderno que todos os catequistas deveriam conhecer. Chama-se “Conhecer nossas raízes – Jesus judeu”. Estudar esse material na comunidade ajudaria bastante a valorizar na catequese a nossa herança judaica.

Therezinha Cruz

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