terça-feira, 5 de junho de 2012

Fé que exige um Novo Nascimento (TEXTO 2- João 3,16-21)


Querido leitor, querido catequista, como é bom poder buscar na Palavra de Deus, fonte primeira da Catequese, a razão pela qual professamos nossa fé! No texto anterior, vimos como o evangelista João vai conduzindo o leitor ao processo iniciático da fé, mostrando, passo a passo, que a fé é um nascimento para a vida nova.  Ter fé em Jesus não significa apenas encantar-se por aquilo que Ele diz e faz, mas, sim, numa entrega alegre para o compromisso com Ele e seu projeto, que exige uma renovação profunda, um novo nascimento.

Nesta segunda parte da nossa Reflexão Orante do texto de João Capítulo 3, vamos nos deter aos versículos de 16 a 21, onde teremos a oportunidade de ser conduzidos por profunda reflexão que o evangelista faz sobre a ação de Jesus no mundo. Olhando atentamente o texto, quase nem se percebe a diferença entre a fala de Jesus e a fala do evangelista. Ambas as falas são palavra de Deus para nós, hoje. Palavra que ilumina nosso ser e agir catequético, à luz de uma fé profundamente encarnada.

Vimos também, que o texto de João 3, 1-21, pertence na redação atual do quarto evangelho, ao complexo literário conhecido, em geral, como o “diálogo de Jesus com Nicodemos”.  O diálogo é situado geograficamente em Jerusalém onde muitos, vendo os sinais que Jesus realizava, creram em seu nome (cf. Jo 2, 23). João é um evangelho exigente em termos de fé, mas, de linguagem fácil. Aliás, a comunidade joanina é formada por várias expressões da mesma fé. Uma leitura atenta no todo do evangelho é possível perceber as características destas expressões de fé que deram origem ao Evangelho. Resumidamente, podemos perceber: o grupo dos judeus que aceitam Jesus como Messias, profeta e rei de Israel. A profissão de fé de Natanael prova isto: “Rabi, tu és o Filho de Deus, és o Rei de Israel” (1, 35-51); o grupo de samaritanos convertidos pela pregação de Judeus cristãos contrários ao legalismo do templo (4, 1-45); e o grupo daqueles que foram expulsos das sinagogas (9, 1-41). É esta variedade de experiências de fé que marca profundamente a vida da comunidade joanina. Vamos ao texto e descobrir a beleza catequética presente na narrativa.

1.  O amor de Deus pelo mundoDeus amou tanto o mundo, que deu o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna (Jo 3, 16): O versículo inicia dizendo que Deus amou o mundo. A palavra mundo é uma das palavras frequentes no evangelho de João: Aparece por 78 vezes e com vários significados. Em primeiro lugar mundo pode significar a terra, o espaço onde o ser humano habita (cf. Jo 11,9; 21,25) ou mesmo ao universo criado (cf. Jo 17,5.24). Mundo refere-se,  também, as pessoas que habitam esta terra, logo, toda humanidade (cf. Jo 1,9; 3,16; 4,42; 6,14; 8,12). Significa, também,  um grande grupo, um grupo numeroso de pessoas, no sentido quando falamos “todo mundo” (cf. Jo 12,19; 14,27). O uso da palavra mundo em nosso texto parece ter o sentido de humanidade, todo ser humano. Pois, o amor de Deus pela humanidade é tanto que  chegou a entregar seu filho único. Jesus é este dom do amor de Deus à humanidade. Outras vezes, a palavra mundo significa aquela parte da humanidade que se opõe aos ensinamentos de Jesus. Aí a palavra mundo toma o sentido de “adversários” ou “opositores” (Jo 7,4.7; 8,23.26; 9,39; 12,25).
2. Missão do Filho: salvar o mundo. Pois Deus enviou seu Filho ao mundo, não para condenar o mundo, mas para que o mundo seja salvo por ele (3, 17): Deus envia o Filho não para condenar o mundo, mas, para que este mundo se salve. A manifestação, porém, do amor de Deus e o dom do Filho único (3, 16) são descritos catequeticamente em termos de missão (enviou ... ao mundo...). Em ambos os casos há o mesmo sujeito, Deus; o mesmo interlocutor, o mundo, a humanidade. Salvar-se é passar da morte à vida definitiva, e isso é possível através de Jesus, o doador da vida nova.
3. Crer no Filho Único do Pai. Quem crê nele não será condenado, mas quem não crê já está condenado, porque não acreditou no Filho único de Deus (João 3 18): O ato de crer em Jesus, o Filho único do Pai, garante a vida nova. Quem crê em Jesus e o aceita como revelação de Deus não é julgado, pois já é aceito por Deus. E quem não crê em Jesus já está julgado. Ele se excluiu a si mesmo. E o evangelista repete o que já disse no prólogo: desde o princípio a vida era a luz dos homens. Esta era a luz verdadeira, que vindo ao mundo a todos ilumina. Ela estava no mundo, e o mundo não o reconheceu. (cf. Jo 1,5.9-11).
4. O verdadeiro sentido do julgamento. Ora, o julgamento consiste nisto: a luz veio ao mundo, mas, as pessoas amaram mais as trevas do que a luz, porque as suas obras eram más (Jo 3, 19). A imagem de Deus que transparece neste versículo é de um pai cheio de ternura e não de um juiz severo. Deus mandou seu Filho não para julgar e condenar o mundo, mas, para que o mundo seja salvo por ele. O evangelista retoma aqui a ideia da luz que aparece no Prólogo (Jo 1, 1-18). A luz veio para o que era seu, mas os seus não acolheram (cf. Jo 1, 11).  No prólogo, a vida aparece como realidade que se comunica e, em termos de luz, como iluminadora. No nosso texto Jesus é a luz iluminadora da humanidade que leva o ser humano a crer, discernir e optar pelo caminho da  luz. A decisão final é do próprio ser humano. Sua atitude de liberdade o levará ao discernimento entre a luz e as trevas.
5. Caminhar na luz é praticar a verdade. Pois todo o que pratica o mal odeia a luz, e não se aproximam da luz, para que suas ações não sejam denunciadas. Mas quem pratica a verdade se aproxima da luz, para que suas ações sejam manifestadas, já que são praticadas em Deus (3, 20-21): Quem pratica a verdade caminha na luz. O autor mistura dois sentidos de luz, o físico e o metafórico.  O ser humano define-se pelas suas ações. Existe, em todo ser humano, uma semente divina, um traço do Criador. Jesus, como revelação do Pai, é uma resposta a este desejo mais profundo do ser humano. Os que respondem ao projeto de Deus Pai, Criador, são os que se aproximam de Jesus, a luz da vida. A luz de Jesus manifesta a realidade do ser humano (Sl 90, 8), e, também, a realidade da fé que se traduz em ações concretas. O texto quer nos ajudar, catequeticamente, a crer no Filho de Deus e abrir-se à luz e a vida nova que Ele nos oferece gratuitamente.

Ir. Maria Aparecida Barboza, 
Religiosa Consagrada da Congregação 
das Irmãs do Imaculado Coração de Maria, icm.

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