quinta-feira, 19 de abril de 2012

Fé que exige um Novo Nascimento (TEXTO 1- João 3,1-15)


Continuando nossa reflexão sobre a temática “encontros que despertam a fé” convido você, querido leitor, à leitura orante do texto do Evangelho de São João, capítulo 3, 1-21. O tema “fé, que exige um Novo Nascimento”, será dividido em dois textos: texto 1 e texto 2, dado ao espaço que este veículo de comunicação nos permite: textos breves e sintéticos. Tendo em vista a complexidade e riqueza da narrativa, decidimos desenvolvê-la em duas pequenas reflexões.  No primeiro texto, abordaremos as reflexões catequéticas que compreendem os versículos de 1-15, e no segundo, de 16-21.

O texto de João 3, 1-21, pertence na redação atual do quarto evangelho, ao grande complexo literário conhecido em geral, como o “diálogo de Jesus com Nicodemos”.  A cena se situa em Jerusalém, onde o interlocutor de Jesus é caracterizado como chefe dos fariseus (árchon ton Ioudaíon v. 3,1). Depois de uma introdução que situa a narrativa (Jo 2, 23-3,2), o diálogo se desenvolve num esquema bem claro: três questões são colocadas por Nicodemos (vv. 2.4.9), seguidas por três respostas de Jesus na fórmula “em verdade, em verdade, eu te digo” (amén, amén, lego soi vv. 3.5.11). O capítulo segundo João nos informa que Nicodemos, assim como outros em Jerusalém, ficaram admirados com os sinais que Jesus realizava (cf. 2, 23-25). Decide ir em busca de Jesus, quer conhecê-Lo melhor. Ou porque não arriscar dizer, deseja “fazer uma nova experiência da fé”.  Vejamos como tudo isso ocorre na narrativa.

1ª Nome: um homem chamado Nicodemos Jo3,1: Nicodemos aparece várias vezes no evangelho de João (cf. Jo 3,1-13; 7,50-52; 19,39). Ele era uma pessoa de muita influência junto ao povo. Fazia parte do Sinédrio (supremo tribunal). É um dois chefes dos judeus, mestre em Israel (cf. 3, 1.10). No evangelho de João, ele representa o grupo de judeus que eram piedosos e sinceros, mas que não chegavam a entender tudo que Jesus fazia e falava.  O primeiro passo para a descoberta da fé é o “querer”, “desejar”, e isso o texto nos revela. Nicodemos toma decisão de ir ao encontro de Jesus. Ele reconhece que Jesus é um “Mestre da parte de Deus”. Sabe que Jesus fala com autoridade. O diálogo com Jesus ajudou Nicodemos a perceber que não basta apenas conhecer e explicar a Torah aos outros, é preciso permitir que esta Palavra renove a pessoa de quem fala e de quem o escuta, por dentro. Faz-se necessário dar um passo a mais para poder aprofundar sua fé em Jesus e em Deus. E isto Jesus propõe a Nicodemos.

 Primeira pergunta de Nicodemos: Rabi, sabemos que vieste da parte de Deus, pois ninguém é capaz de fazer os sinais que tu fazes.!”. Vimos que Nicodemos era uma pessoa de destaque entre os judeus e com uma boa formação. Ele vai  ao encontro de Jesus e dirige  uma pergunta com o verbo no plural: “sabemos”. Faz a pergunta em nome do seu grupo: nós sabemos”. Ele reconhece que Jesus é um Rabi, Mestre que fala com sabedoria e autoridade. Reconhecer que Jesus é “Mestre da parte de Deus” é um passo importante, na vida de Nicodemos, mas só isto não basta.  Os sinais que Jesus realizam podem despertar interesse na pessoa e produzir efeito significativo, como podem também gerar curiosidade, mas não uma entrega de  fé.  Para a descoberta da fé e adesão a Jesus Cristo, é necessário ir mais além, dar um novo passo. 

3ª Resposta de Jesus: “Tem que nascer de novo!”(Jo 3, 3: “Em verdade, em verdade, eu te digo: se alguém não nascer do alto, não poderá ver o Reino de Deus”. Para perceber e compreender os sinais do Reino de Deus apresentados por Jesus “tem que nascer de novo!"Jesus leva Nicodemos a perceber e acolher o Reino de Deus, presente em Jesus, terá que nascer de novo, do alto. Tentar compreender Jesus só a partir dos seus próprios argumentos, não consegue entendê-lo. É preciso se despir do doutrinalismo e abrir-se à novidade trazida por Jesus.  Nicodemos é convidado a deixar de lado suas próprias certezas e seguranças e entregar-se totalmente a Jesus. Terá que fazer a escolha entre, manter a segurança que lhe vem de uma religião organizada com suas leis e tradições e, do outro lado, lançar-se na aventura do Espírito que Jesus lhe propõe. No primeiro momento da catequese de Jesus, Nicodemos parece não entender bem a proposta de Jesus e lança uma nova pergunta.

4ª Segunda pergunta de Nicodemos: “Como é possível alguém nascer, se já é velho? Ele poderá entrar uma segunda vez no ventre de sua mãe e nascer?" (Jo 3, 4-5).  Nicodemos parece não estar convencido, não dá o braço a torcer e torna a perguntar com certa ironia. Jesus, pedagogicamente, vai explicando, e neste processo dialógico,  leva-o a compreender o que significa ser iniciado na fé em Jesus Cristo. A compreensão que Nicodemos mostra em relação ao “nascer de novo”,  parece ambígua, ou seja, para os que estão fora, os que ainda não foram iniciados na fé , o processo da descoberta é longo e permanente. Ele necessita perceber que as palavras de Jesus tem um sentido simbólico e figurativo. 

5ª Resposta de Jesus: Em verdade, em verdade, eu te digo: se alguém não nascer da água e do Espírito, não poderá entrar no Reino de Deus. O que nasceu da carne é carne; o que nasceu do Espírito é espírito...É necessário para vós, nascer do alto (Jo 3, 5-8). Jesus, então, catequeticamente, começa a explicar o que significa este novo nascimento. Ele diz que nascer de novo é “nascer do alto, nascer da água e do Espírito".  É provável que o diálogo  entre Jesus e Nicodemos fazia parte da catequese batismal, uma vez que Jesus utiliza a expressão renascer da água e do espírito (Jo 3,6). Jesus vai conduzindo Nicodemos ao mistério da fé. É preciso passar do nível meramente humano para o nível da maturidade da fé. O que nasce e fica no nível da carne, no mundo das idéias, corre o risco de não amadurecer, de crescer na fé. O Espírito é como o vento. "O vento sopra onde quer e ouves a sua voz, mas não sabes de onde vem, nem para onde vai. Assim é também todo aquele que nasceu do Espírito". O evangelho de João usa muitas imagens e símbolos para significar a ação do Espírito. Como na criação (Gn 1,1), assim o Espírito desceu sobre Jesus "como uma pomba, vinda do céu" (Jo 1,32). É o começo da nova criação! Jesus fala as palavras de Deus e nos comunica o Espírito sem medida (Jo 3,34). Suas palavras são Espírito e vida (Jo 6,63). Quando Jesus se despediu, Ele disse que ia enviar um outro consolador, um outro defensor, para ficar conosco. É o Espírito Santo (Jo 14,16-17). Através da sua paixão, morte e ressurreição, Jesus conquistou o dom do Espírito para nós. Através do batismo todos nós recebemos este mesmo Espírito de Jesus (Jo 1,33). Quando apareceu aos apóstolos, soprou sobre eles e disse: "Recebei o Espírito Santo!" (Jo 20,22). O Espírito é como água que jorra de dentro das pessoas que crêem em Jesus (Jo 7,37-39; 4,14). O primeiro efeito da ação do Espírito em nós é a reconciliação: "A quem perdoardes s pecados, serão perdoados; a quem os retiverdes, lhes serão retidos" (Jo 20,23). O Espírito nos é dado para que possamos lembrar e entender o significado pleno das palavras de Jesus (Jo 14,26; 16,12-13). Animados pelo Espírito de Jesus podemos adorar a Deus em qualquer lugar (Jo 4,23-24).

6ª Terceira Pergunta de Nicodemos: Como é que isto pode acontecer? (Jo 3, 9). Jesus, então, lhe surpreende fazendo-lhe perceber que és mestre em Israel, mas incapaz de perceber os sinais do Reino. Mais uma vez Jesus recorda que pertencer ao cristianismo é questão de opção e mudança de vida. Nicodemos é um dos chefes dos fariseus (cf. Jo 3, 1), é catequista na Sinagoga, porém, é chamado agora a um novo reaprendizado. Aqui está a sabedoria do autêntico catequista que fez a experiência da fé: resgatar que somos sempre “aprendizes e aprendentes”.  Catequizamos e somos catequizados. O segredo do processo iniciático da fé está no saber saborear as coisas que dão sentido e razão à nossa fé.

7ª   Resposta de Jesus: "Você é mestre em Israel e não sabe disso?”(Jo 3, 10-15). Pois para Jesus, se uma pessoa crê só quando as coisas estão de acordo com os seus próprios interesses e idéias, ainda não é perfeita a sua fé. Perfeita, sim, é a fé da pessoa que acredita por causa do testemunho. Ela deixa de lado seus próprios argumentos e se entrega, porque crê naquele que testemunhou. Jesus utiliza um exemplo do Antigo Testamento: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim também será levantado o Filho do Homem, a fim de que todo o povo que nele crer tenha a vida eterna”. O termo tem um duplo sentido; alude ao enaltecimento de Jesus na cruz (cf. Jo 8, 28) e também à ressurreição e ascensão para junto do Pai. A alusão ao Antigo Testamento é muito significativa para perceber o sentido que o evangelista dá à paixão de Jesus como revelação. Aqui o evangelista ressalta o tema da fé, indicando  seu conteúdo central: não só crer em Jesus crucificado como dom, mas crer que a cruz é glória e vitória. Aqui está o ponto central de nossa fé.

Ir. Maria Aparecida Barboza, icm

Um comentário:

  1. bjs obrigada me ajudaram muito!!!!! Trabalho nota 10 hehehe

    ResponderExcluir

Querido leitor, caso não tenha uma conta google escolha a opção anônimo e deixe seu nome no final do comentário.

Loading...

Cadastre seu email e receba nossas novidades:

Comissão Episcopal Pastoral para a Animação Bíblico-catequética

MAPA DE VISITAS