domingo, 30 de outubro de 2011

HOMILIA DO DOMINGO


Pe. Roberto Nentwig
31º.  Domingo do Tempo Comum - A

O termo hipocrisia vem do grego hypokhrinesthai, que significa representar um papel, fingir. Portanto, o hipócrita é um artista, alguém que tem a competência de interpretar um personagem. Na literatura antiga, o termo às vezes é usado para designar um comediante, podendo assim, indicar um bobo, um palhaço.
A hipocrisia está no centro da denúncia profética do Senhor no Evangelho deste domingo. Os mestres da lei não deveriam apenas se destacar pelo ensino da lei de Deus, mas pela vivência de sua Palavra. Por isso, Jesus convida o povo a ouvir seus ensinamentos, mas não a imitar suas ações, pois não praticavam seus próprios ensinamentos.

É preciso que aprendamos a unir nossos sentimentos, palavras e ações para que a totalidade de nosso ser viva a partir da centralidade de nossas decisões. Do contrário seremos como artistas, ou seja, apenas representaremos de um papel social como pais, educadores, profissionais, evangelizadores...

A hipocrisia está muito perto de nós. Infelizmente, o mau exemplo vem de cima, quando o político vai a TV e fala de direitos humanos, de justiça social e do bem de todos, e depois é denunciado em casos de corrupção. Pode estar ainda mais perto quando os pais falam de educação e não testemunham a retidão de caráter. Está também em nossa falta de cidadania, na cultura do jeitinho e do tirar proveito, em nosso desrespeito às leis de trânsito, no lixo que se joga no chão da cidade, no desrespeito aos mais velhos e na falta de consideração para com os vizinhos. É sempre bom perceber nossa ética nas pequenas coisas, para não sermos traídos quando falamos dentro de nossa casa sobre respeito, disciplina, trabalho e religião. Nossas atitudes nos denunciam.

Jesus alerta principalmente sobre o mau uso da religião. Sua palavra é dirigida aos chefes religiosos da época, sendo hoje uma palavra oportuna a todos os que possuem responsabilidade na Igreja e no anúncio do Evangelho, para que se evite a hipocrisia. A evangelização deve ser acompanhada do testemunho para ser autêntica, pois a maneira de evangelizar também é mensagem. Nesta linha, o papa Paulo VI nos fala de uma evangelização silenciosa: “Por força deste testemunho sem palavras, [os]cristãos fazem aflorar no coração daqueles que os veem viver, perguntas indeclináveis: Por que é que eles vivem assim? Por que é que eles vivem daquela maneira? O que é – ou quem é – que os inspira? Por que é que eles estão conosco?” (Evangelii Nuntiandi 21). Segundo o mesmo papa: “O homem contemporâneo escuta com melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres (...) ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (Evangelii Nuntiandi 41).

A religião jamais poderá ser instrumentalizada a serviço da vaidade pessoal. O engrandecimento de si mesmo por algum feito religioso, o enaltecimento da própria santidade já é em si mesmo um ato diabólico. A advertência coloca-se principalmente diante dos evangelizadores: ministros ordenados, religiosos, religiosas e leigos engajados devem avaliar constantemente seu trabalho pastoral para que o mesmo não seja um instrumento de poder ou de autoevidência. Os mestres da lei e os fariseus estavam sentados na cátedra de Moisés, colocavam cargas pesadas nas costas do povo, mas não viviam a lei em plenitude; prevaleciam-se de seus títulos, não sua fidelidade. Há um grande perigo de nos tornarmos novos mestres da lei, fariseus, maus “detentores” de um poder sagrado. Opressores hipócritas, ao invés de testemunhas vivas do Reino.

É preciso que a comunidade cristã seja uma verdadeira fraternidade (“vós sois todos irmãos”). A Igreja não é constituída de superiores e súditos, mestres e discípulos, pais e filhos, doutores e alunos, mas por irmãos iguais, que têm um Pai comum (“um só é o vosso Pai, aquele que está no céu”) e que seguem o mesmo Cristo (“um só é o vosso mestre, Cristo”). Em muitas ocasiões, percebemos prevalecer na Igreja o que Cristo não quis: o desejo de poderes hierárquicos de mestres e doutores, a disputa por cargos. Por isso, é preciso uma refontalização do significado de autoridade: a autoridade (exousia) deve estar fundada no serviço (diakonia): “Quem quiser ser o primeiro, seja aquele que serve!”

Na liturgia da palavra deste domingo há ainda uma exortação para que a comunidade seja perseverante e não caia no desânimo e na infidelidade. Na primeira leitura, Deus está descontente com os sacerdotes, porque deixaram a comunidade desanimar. O templo foi reconstruído depois do exílio, voltaram os sacrifícios. Faltava-lhes o fervor e a fidelidade. Acabaram por se esquecer do amor, caindo no descuido dos irmãos e na injustiça. Nossa comunidade pode ter muitas coisas – uma estrutura física bem constituída e até muitas lideranças. Mas pode faltar o fundamental – o fervor e a fidelidade genuína à lei que se traduz no amor.

São Paulo formou a comunidade de Tessalônica pela pedagogia da ternura (“Foi com muita ternura que nos apresentamos a vós”). Que a ternura reine em nossas igrejas, nas nossas famílias e nos ambientes que frequentamos. Assim, a nossa religião não será mera teoria ou prática litúrgica e devocional, mas vivência do essencial. Surgirá então o testemunho que não obriga pelo zelo agressivo, nem deseja aumentar a quantidade dos adeptos, mas flui naturalmente e oferece gratuitamente o serviço amoroso do Reino de Deus.

Bom domingo a todos!

Pe. Roberto Nentwig

"Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força!" (2Cor 12,9)

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