domingo, 4 de setembro de 2011

Primavera bíblica


Nossa esperança é que o Sínodo da Palavra e o Documento Verbum Domini - A Palavra do Senhor - inspirem uma primavera bíblica na Igreja. No Livro, ''Um Pároco de Aldeia'', Bernanos faz essa pergunta: ''Que fizeste com minha Palavra?''. Tal indagação nos faz pensar. Antes do Concílio Vaticano II fomos proibidos de ler determinadas páginas da Bíblia e, então, recebemos o livro ''História Sagrada''. Afastamos a Bíblia do povo. Posteriormente, a Bíblia tornou-se livro de estudo para estudiosos de teologia. Outros fizeram dela um enfeite em sua casa.

A maioria dos católicos só tem contato com a Palavra de Deus e as Sagradas Escrituras nas celebrações litúrgicas. Nossos microfones geralmente são ruins e os leitores despreparados e desqualificados, a Palavra se perde. Não cai no ouvido, mas no chão. Obrigamos a Palavra a cair no chão. No lugar da Bíblia colocamos catecismos e terços nas mãos do povo. Isso não está errado. Todavia não há centralidade nem prioridade para a Bíblia.

Uma chance bíblica sem igual é a homilia na missa. Nem sempre as homilias são fiéis à Palavra. Perdemos uma oportunidade bíblica ímpar. Ainda hoje poucas paróquias têm cursos bíblicos e a maioria do povo não aprende a fazer a leitura orante da Bíblia. Portanto, temos um longo caminho a percorrer. Você leitor, qual foi à última vez que meditou o livro de Tobias, Rute, Ester, Jó? Que experiência tem com o livro do Apocalipse, com o livro dos Atos dos Apóstolos?

Qual dos doze profetas menores você mais leu e interiorizou? Após o Vaticano II, houve um ''salto bíblico'' na Igreja. Proliferaram os estudos bíblicos, os círculos bíblicos marcaram época, a consciência bíblica cresceu e foram criadas escolas e institutos bíblicos. Temos muitas traduções da Bíblia, movimentos e pastorais despertaram para fazer acontecer o primado da Palavra. Mesmo assim, ainda temos muito a crescer, até chegarmos a um ''catolicismo bíblico''. Nesse sentido devemos dobrar os joelhos em gratidão pelo Sínodo da Palavra e o Documento Verbum Domini.

Bento XVI é um papa bíblico, tocado profundamente por um amor imenso pela Palavra de Deus. Ele convoca a Igreja a ser ''mestra da escuta'' da Palavra. Assim, poderemos alcançar um grande amor, para com a Palavra Deus, e realizarmos um encontro pessoal vivo e decisivo com as Sagradas Escrituras. Onze vezes a Verbum Domini nos pede para ter familiaridade com a Palavra. É preciso abeirar-se, debruçar-se, apegar-se, familiarizar-se, entrar e permanecer na Palavra. Estes verbos chamam nossa atenção. A Igreja não pode ser mais a mesma após este Sínodo. Chegou a hora de um solavanco bíblico, de uma comoção e mobilização bíblica no mundo. A Igreja nasce, vive, funda-se sobre a Palavra, e cresce quando escuta, celebra e estuda as Escrituras.

A centralidade da Palavra será fonte de renovação da Igreja, será animação de toda a vida eclesial, promoverá e aprofundará o ecumenismo, ajudará a enfrentar os desafios do nosso tempo. Uma Igreja que escuta a Palavra não pode ser sonolenta, parada, acomodada, engessada. Nossos fiéis sintam seu coração transpassado pela Palavra. Que ela corra veloz e não seja acorrentada, porque, ela é o coração de toda a atividade eclesial. Que faremos de agora em diante com a Palavra? Não podemos ser os mesmos, chegou a hora da Bíblia.

DOM ORLANDO BRANDES - Arcebispo de Londrina PR
Publicado na Coluna Espaço Aberto, da Folha de Londrina do dia 03/09/11.

Um comentário:

  1. ADOREI O COMENTÁRIO DE VOCÊS. MAS DEIXOU EU PREOCUPADO DIZENDO QUE MEU BLOG FICA GRANDE NA TELA DO COMPUTADOR DE VOCÊS. NÃO SEI O QUE FAZER PARA MELHORAR. DESCULPE A PERGUNTA, MAS COMO É O COMPUTADOR DE VOCÊS?

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